quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Balaústres do Monte Líbano: sentinelas da memória


Nas curvas dos balaústres, a alma de Bom Jesus





Existem flores que atravessam as estações sem perder as pétalas. No Cine Monte Líbano, elas têm a forma de balaústres.

Dispostos lado a lado, com suas curvas delicadas e a dignidade das coisas antigas, esses pequenos pilares parecem guardar uma música que o silêncio ainda não conseguiu apagar. Basta contemplá-los para imaginar o rumor da plateia, o movimento das cortinas, a expectativa de quem se sentava diante de uma história prestes a começar.

A própria palavra traz uma delicadeza: balaústre vem do italiano balaustro, associado à flor da romãzeira, cujo desenho inspirou suas formas. Há, portanto, um jardim na arquitetura do nosso cinema. Um jardim que permaneceu ali enquanto gerações passaram, enquanto a cidade cresceu, enquanto tantos rostos queridos se tornaram saudade.

Em 14 de agosto de 1950, o libanês Merhige Hanna Saad inaugurou o Cine Monte Líbano. Trouxe para Bom Jesus um lugar onde a vida poderia ganhar outras dimensões. Na tela, terras distantes se aproximavam; nas poltronas, os bonjesuenses compartilhavam o espanto, o riso, a emoção. Cada sessão deixava alguma coisa em quem saía, e alguma coisa de quem saía parecia ficar naquele salão.

Os balaústres ficaram também.

Sobre suas superfícies, o tempo depositou marcas. Hoje, seus contornos nos convidam a olhar devagar, a reconhecer o cuidado de quem concebeu aquele espaço. Cada curva preservada permite entrever a beleza do conjunto e a importância que se dava ao encontro entre as pessoas e a arte.

Ao adquirir o cinema e dedicar atenção à preservação de sua história e de seus elementos arquitetônicos, o Dr. Carlos Henriques Medeiros, sócio-proprietário da UniFAMESC, assume uma tarefa que alcança o coração da cidade. Há uma sensibilidade especial em perceber o futuro de um edifício e, ao mesmo tempo, escutar o que suas paredes têm a contar.

É gratificante para Bom Jesus contar com um empreendedor cuja visão aproxima o progresso econômico do desenvolvimento cultural e da preservação histórica. Uma cidade cresce também quando cuida dos lugares em que aprendeu a sonhar. E o Cine Monte Líbano pertence a essa geografia íntima: a dos espaços que ajudam um povo a reconhecer a própria trajetória.

Quando suas portas se abrirem para a reinauguração, haverá quem procure, entre as fileiras, o lugar onde costumava sentar. Alguém talvez recorde a mão que segurou no escuro, a companhia dos pais, uma voz que já não pode ouvir. Outros entrarão pela primeira vez e descobrirão, nos olhos dos mais velhos, a dimensão daquele retorno.

Imaginamos lágrimas correndo devagar. Lágrimas de saudade e de alegria, diante da possibilidade de voltar a um lugar que continuou existindo dentro de tanta gente. E ali estarão os balaústres, com suas flores silenciosas.

Ao redor deles, novos passos, novas vozes, novas histórias. A luz voltará a alcançar seus contornos, revelando a beleza que atravessou os anos à espera desse reencontro.

Essa será a emoção mais profunda da futura reinauguração: ver os filhos e os netos chegarem ao lugar onde seus pais e avós foram felizes. E sentir que o amanhã pode abrir suas cortinas amparado por tudo aquilo que aprendemos a amar.




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