quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A estação dos amores inesquecíveis


                        (Assista no YouTube)

A neve começara a cair antes que ela chegasse à estação. Agora, pousava nos ombros de seu casaco e nos cabelos presos às pressas, com a delicadeza de quem deseja tocar uma tristeza sem despertá-la.

Ela segurava uma velha mala. Nas bordas gastas, o couro guardava as marcas de outras plataformas, de mãos apressadas, de quartos onde fora aberta sobre uma cadeira. Naquela tarde, porém, parecia pesar mais. Antes de sair de casa, dobrara uma blusa, acomodara alguns objetos e permanecera muito tempo com uma fotografia entre os dedos. Por fim, deixara-a debaixo das roupas.

Ao longo da plataforma, os lampiões se acendiam. A luz amarela alcançava os bancos vazios e terminava pouco adiante, vencida pela névoa. Ela olhou para um deles. Havia espaço para duas pessoas, como naquele outro inverno em que ele tirara a luva para aquecer a mão dela dentro do próprio bolso.

Lembrava-se de coisas assim. O rosto às vezes lhe escapava por um instante, mas certos gestos permaneciam inteiros.

Ao longe, o trem anunciou sua chegada.

Primeiro veio o som, atravessando a neve. Depois, uma luz pequena, que crescia entre os postes. Ela apertou a alça da mala e sentiu o frio nos dedos, apesar das luvas.

Se aquela espera pudesse ser ouvida por dentro, talvez começasse com poucas notas de piano. Um violoncelo sustentaria o que ela ainda não conseguia dizer; os violinos viriam depois, trazendo a lembrança de uma caminhada, de uma janela embaçada, de uma voz pronunciando seu nome. Havia naquela paisagem algo da ternura dolorosa que a música de Tchaikovsky e Rachmaninoff sabe despertar: uma emoção que encontra espaço para respirar, mesmo quando dói.

Na véspera da partida dele, tinham ficado junto à janela. Ela se lembrava do vapor da xícara, do escuro lá fora e do desejo de pedir que ele ficasse. Perguntara apenas se levara roupa suficiente para o frio.

Durante muito tempo, arrependera-se daquela pergunta tão pequena.

Agora, na estação, compreendia o carinho que havia nela. Quisera protegê-lo até do inverno para o qual ele a estava deixando.

O trem se aproximou devagar. Pelas janelas iluminadas passavam rostos, mãos, uma criança adormecida contra o ombro de alguém. Ela procurou entre eles, quase sem perceber. O coração ainda conservava aquele movimento antigo de esperança.

Talvez estivesse ali para viajar. Talvez tivesse escolhido aquele horário porque era a hora em que ele costumava chegar. Nem tudo o que nos leva a uma estação cabe na explicação de um destino.

Quando os vagões pararam, o vapor se espalhou pela plataforma. Uma porta se abriu. Houve passos, vozes, o ruído de uma mala sendo pousada no chão.

Ela ficou imóvel por mais um instante.

Depois ergueu o rosto, afastou do cabelo alguns flocos de neve e ajeitou a gola do casaco, como ele fazia por ela.

A velha mala continuava em sua mão. A fotografia seguia guardada entre as roupas.

E, diante da porta aberta, ela deu um passo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário