O tempo que deixamos para depois
Há uma cadeira vazia na varanda. Sobre a mesa, o café esfria enquanto alguém termina uma tarefa, responde a uma mensagem, procura um papel. Do lado de fora, a tarde oferece seus últimos dourados. Quando finalmente erguemos os olhos, a sombra já alcançou o jardim.
Assim passam muitos dos nossos dias.
A reflexão de Sêneca sobre o tempo nos alcança nesse instante doméstico: quando percebemos que estivemos ocupados demais para acompanhar a luz descendo pela parede. E talvez nos lembremos de uma visita adiada, de uma conversa interrompida, de alguém a quem prometemos telefonar assim que a vida ficasse mais tranquila.
Guardamos tantas coisas para esse dia.
Um dia teremos tempo para sentar ao lado de nossa mãe e ouvi-la contar novamente uma história da infância. Um dia procuraremos o amigo de quem sentimos saudade. Um dia abriremos aquele livro, faremos aquela viagem, diremos com todas as letras o amor que supomos tão evidente.
Enquanto isso, os rostos mudam. As mãos ganham manchas. A voz que chamava da cozinha se torna mais baixa. E nós continuamos acreditando que haverá outra tarde, com o mesmo café, a mesma cadeira, a mesma pessoa esperando.
Até que uma ausência nos ensina o valor de uma porta que antes podíamos simplesmente abrir.
Então compreendemos quanto cabia naquilo que parecia pequeno: o ruído dos talheres no almoço de domingo, uma risada no corredor, os passos conhecidos chegando à casa. Gostaríamos de voltar por alguns minutos. Não para corrigir o rumo do mundo, mas para permanecer um pouco mais à mesa.
Há uma dor particular em descobrir que fomos felizes com pressa.
Nem todo tempo, porém, precisa ser preenchido. A vida também amadurece nas pausas. Há tardes em que descansar a cabeça no colo de alguém é tudo o que precisamos fazer. Há manhãs cujo melhor acontecimento é uma conversa demorada, sem utilidade alguma além da alegria de estarmos juntos.
Poderemos começar por aí: dando lugar, no dia de hoje, a alguma coisa que amamos.
O telefone está ao alcance da mão. Ainda podemos fazer aquela visita. Há alguém que receberia com alegria uma palavra nossa, alguém cujo rosto se iluminaria ao nos ver chegando sem pressa.
Na varanda, a cadeira continua vazia. Podemos nos sentar por um instante, chamar quem está dentro de casa e repartir o que resta da tarde.
O café pode ser feito outra vez.
A luz ainda está no jardim.

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