"Tenho medo de que minha vida passe nessa corrida interminável para ter o mesmo que todo mundo.”
No meio da cidade, uma senhora sorri com um pombo sobre a cabeça.
Atrás dela, os carros ocupam a rua, as fachadas guardam suas janelas e o mundo parece seguir aquele compromisso antigo de estar sempre atrasado. Mas, naquele pequeno espaço de banco, casaco e asas, ninguém precisa chegar primeiro.
Um pombo encontrou pouso sobre seu lenço. Outros se aproximam de suas mãos. Ela sorri com o rosto inteiro, deixando que as rugas participem da alegria.
Sobre a imagem, uma frase revela um medo que talvez muitos carreguem sem confessar: deixar a vida passar enquanto se corre para ter o mesmo que os outros.
É uma corrida curiosa. A chegada muda de lugar toda vez que alguém a alcança. Há sempre outra casa, outra roupa, outra conquista a exibir. E assim vamos adiando a tarde tranquila, a conversa demorada, o prazer de estar onde estamos.
A senhora da fotografia parece ter encontrado um intervalo.
Não sabemos seu nome, suas perdas, o que a espera quando voltar para casa. Uma imagem não conta uma existência inteira. Mas permite reconhecer aquele instante: há alegria em seu rosto e uma ave tão à vontade que lhe confia o próprio repouso.
Talvez ela tenha levado alimento aos pombos. Talvez volte àquele banco todos os dias. Gostamos de imaginar que já reconheçam seus passos, que a esperem entre o movimento dos carros e a impaciência dos pedestres.
Um pequeno encontro marcado com a ternura.
O tempo, que tantas vezes sentimos como coisa levada embora, ali ganha corpo: é o peso leve de um pássaro, o movimento de uma asa, a mão que permanece estendida. Aquela tarde está sendo vivida.
Olhamos seu sorriso e pensamos nas alegrias que deixamos para depois, como se precisassem de uma vida inteiramente resolvida para acontecer. Enquanto esperamos, os dias continuam passando pela janela.
A senhora sorri. O pombo se acomoda.
E, por um momento, dá vontade de abandonar a pressa, sentar um pouco e descobrir o que ainda pode se aproximar de nós quando permanecemos.

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