sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Cine Monte Líbano: a revista, as lágrimas e a mão de meu pai


 Por Gino Martins Borges Bastos 



O Edifício Monte Líbano, construído pelo libanês Merhige Hanna Saad e inaugurado em 14 de agosto de 1950, destaca-se pelos guarda-corpos de suas sacadas, cujos desenhos geométricos vazados conferem leveza e personalidade à fachada


A bomborniere do antigo Cine Monte Líbano 

Quando eu era criança, o Cine Monte Líbano me oferecia mais de uma porta para o encantamento. Havia a entrada para a sala de exibição, onde a escuridão preparava os olhos para os sonhos, e havia, após a bilheteria, a pequena bomboniere, onde outras histórias me esperavam, junto à parede, nas capas coloridas das revistas.

Chicletes e balas tinham seus atrativos, mas eram as revistas que mais me fascinavam. Pato Donald, Tio Patinhas, Mickey, Batman, Tarzan: cada nome prometia uma aventura. Eu entrava naquele pequeno espaço com a alegria de quem chegava a um mundo de possibilidades. Gostava de folhear as páginas, descobrir os desenhos, acompanhar um trecho da história e escolher a revista que levaria comigo.

Antes mesmo da compra, a leitura já começava. Meus olhos corriam pelos quadrinhos, e a imaginação se adiantava, impaciente, querendo saber o que aconteceria na página seguinte.

Certa vez, entrei na bomboniere, peguei uma revista e comecei a folheá-la, entregue àquela alegria. Foi então que um funcionário se dirigiu a mim, em tom ríspido:

- Não pode folhear as revistas.

A voz interrompeu a aventura. Coloquei a revista no lugar e saí em silêncio. No caminho de casa, as lágrimas vieram. Eu tinha visto outras pessoas folhearem aquelas mesmas revistas. Por que comigo era diferente? Uma criança nem sempre encontra palavras para explicar a injustiça, mas sente com precisão o lugar onde ela dói.

Em casa, contei o ocorrido ao meu pai, Luciano Bastos. Choroso, procurei explicar que havia sido proibido de fazer aquilo que era permitido aos outros. Ele me ouviu e me levou imediatamente de volta à bomboniere. Ali, em minha presença, repreendeu o funcionário.

Guardo até hoje a importância daquele gesto. Meu pai havia levado a sério a minha tristeza. Voltou comigo ao lugar onde eu me sentira diminuído e me mostrou que eu podia contar com ele. Naquele pequeno espaço de revistas, balas e chicletes, minha dor encontrou acolhimento, e o sentimento de injustiça começou a ceder.

Talvez meu pai não imaginasse por quanto tempo aquela atitude permaneceria dentro de mim. A criança cresceu, os anos passaram, mas ainda sinto a segurança de estar ao seu lado naquele retorno. Entre tantas aventuras impressas nas revistas, ficou a lembrança de um cuidado vivido, desses que acompanham uma pessoa por toda a vida.

Construído pelo libanês Merhige Hanna Saad e inaugurado em 14 de agosto de 1950, o Cine Monte Líbano pertence à memória afetiva de gerações de bonjesuenses. Cada um guarda uma sessão, um encontro, uma música, um rosto. Eu guardo também uma revista devolvida à prateleira, um caminho percorrido em lágrimas e um pai que voltou comigo.

O edifício ergue-se como um grande cenário dessa memória. Sua imponência nasce sobretudo da extensão da fachada, onde as linhas horizontais parecem alongar o tempo. Os guarda-corpos vazados, rendados de geometria, constituem seu detalhe mais expressivo: deixam a luz atravessar os desenhos e conferem delicadeza à grandeza da construção. Nas marquises, nos balcões, nas caixilharias e nos ornamentos geometrizados, percebem-se afinidades com o Art Déco; nas linhas retas, nas amplas superfícies envidraçadas e na clara divisão dos pavimentos, anuncia-se a linguagem moderna. A fachada sugere, assim, uma arquitetura de transição, com influência Art Déco e tendência modernizante, como se guardasse, em suas formas, o instante em que uma época estendeu a mão à seguinte.

Agora, a aquisição do prédio pelo Dr. Carlos Henrique Medeiros, sócio-proprietário da UniFAMESC, e a perspectiva de sua restauração dão novo fôlego a essas lembranças. A esperança de ver suas portas novamente abertas desperta também o desejo de que outras gerações encontrem ali seus motivos de encantamento.

Quando penso no futuro do Cine Monte Líbano, penso nas crianças que ainda chegarão para descobrir suas próprias histórias. E, por um instante, volto a ser aquele menino diante das revistas, sentindo ao meu lado a presença protetora de meu pai.

Registro da homenagem prestada por Raul Travassos







Nenhum comentário:

Postar um comentário