sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O velho que esperava as flores

 

Viver uma vida bela e poder recordá-la é uma bênção


"Não é o jovem que é feliz, e sim o velho que viveu uma vida bela, pois o jovem vive cheio de esperanças e o velho é o senhor de suas lembranças" (Epicuro)



Li a frase atribuída a Epicuro e fiquei algum tempo diante dela, como quem se demora à porta de uma casa antiga. Havia ali o convite ao repouso: a velhice, depois de tantas travessias, poderia sentar-se à sombra das próprias lembranças e reconhecer a beleza do caminho.

Imaginei alguém abrindo uma caixa de fotografias. O rosto da mãe ainda jovem, os irmãos reunidos numa varanda, uma festa cujo rumor parece sobreviver no silêncio do papel. Há uma felicidade particular nesses reencontros. Os dedos percorrem a fotografia devagar, quase acariciando quem já não pode ser abraçado.

Compreendi, então, a ternura daquela ideia. Viver uma vida bela e poder recordá-la é uma bênção.

Mas meus olhos voltaram ao começo da frase, àquela juventude apresentada como se a esperança a impedisse de ser feliz. Lembrei-me da alegria de esperar uma carta, de contar os dias para uma viagem, de caminhar até a casa de alguém sem saber exatamente o que dizer ao chegar. A incerteza fazia o coração bater mais depressa. E havia tanta vida naquela pequena aflição!

A juventude tem suas tardes luminosas, mesmo quando desconhece o valor delas. Às vezes, só muitos anos depois entendemos que fomos felizes numa conversa à porta, numa caminhada sem destino, num domingo em que nada de extraordinário aconteceu.

Também pensei nos velhos que conheço. Alguns guardam o passado com carinho, mas continuam atentos ao telefone, esperando uma notícia boa. Querem saber quando será a próxima visita, se o livro ficará pronto, se haverá música na praça. Fazem perguntas sobre o mês seguinte. Escolhem uma roupa para uma ocasião que ainda virá.

Há uma força emocionante nesse gesto de preparar o amanhã.

Uma pessoa pode ter atravessado muitas décadas e ainda sentir a alegria inaugural de um projeto. Pode conhecer o peso das despedidas e, mesmo assim, abrir espaço à mesa. Pode ter os passos mais lentos e a imaginação apressada, já chegando aonde o corpo levará algum tempo para chegar.

Por isso, inquieta-me a ideia de entregar aos idosos apenas suas lembranças, como se a vida lhes houvesse concedido um último aposento e fechado as demais portas. Eles ainda têm desejos que precisam ser ouvidos. Ainda podem se apaixonar por uma paisagem, aprender uma canção, escrever uma página que surpreenda até a si mesmos.

E as lembranças, sabemos, nem sempre oferecem descanso. Algumas trazem o abraço; outras, a ausência dele. Há fotografias diante das quais sorrimos e, de repente, precisamos enxugar os olhos.

É assim que caminhamos: levando conosco o que foi possível viver, enquanto procuramos alguma coisa que ainda nos chame adiante.

Ao terminar a leitura, imaginei novamente o jardim da imagem. Um velho conversava à sombra de uma árvore, cercado de jovens. Gostei de pensar que, depois de contar suas histórias, ele se levantaria para examinar um pequeno broto junto ao muro.

Talvez chamasse alguém para vê-lo.

Talvez dissesse, com a alegria simples de quem acaba de receber uma boa notícia:

- Quando chegar a primavera, isto aqui vai ficar bonito.

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