Ela se sentou na ponta do banco, deixando ao lado um espaço onde caberia outra pessoa. A bolsa repousava sobre a madeira; as mãos, próximas ao rosto, pareciam amparar um pensamento que pesava.
A chuva havia passado havia pouco. Nas pequenas poças, a luz do lampião tremia ao movimento das folhas que ainda caíam. De vez em quando, uma gota se desprendia dos galhos e tocava o chão com um ruído breve. Ela erguia os olhos, como se aquele som pudesse ser o começo de passos.
Talvez tivesse chegado cedo. Talvez o encontro pertencesse a uma tarde antiga, dessas que voltam sem aviso quando atravessamos uma praça.
Havia qualquer coisa de familiar na maneira como olhava o caminho. Quem espera um desconhecido observa os rostos; quem sente saudade reconhece, de longe, até um modo de caminhar. Um ombro ligeiramente inclinado, a pressa contida, o gesto de ajeitar o casaco. E sofre pequenas despedidas cada vez que alguém se aproxima e segue adiante.
Sob seus sapatos, as folhas molhadas guardavam o brilho do outono. Ela se lembrou de quando gostava de pisá-las secas, ouvindo o estalo miúdo que acompanhava os passeios. Alguém ria dessa sua alegria. A lembrança trouxe um sorriso tão leve que quase se confundiu com o cansaço.
Por um instante, voltou inteira àquela caminhada: o braço oferecido, o frio nas mãos, uma conversa sem importância que agora daria tudo para ouvir outra vez. Como podiam ter falado tão longamente sobre coisas pequenas? Como podiam ter atravessado uma tarde juntos sem perceber o tamanho daquela felicidade?
O lampião iluminava a curva do caminho. Mais adiante, a névoa escondia a saída da praça. Ela permaneceu olhando, com a delicada insistência de quem ainda tem uma palavra a dizer.
Depois, baixou os olhos e alisou uma dobra do vestido. A noite esfriava. Era preciso voltar para casa, procurar a chave dentro da bolsa, abrir a porta, preparar alguma coisa quente.
Demorou um pouco para se levantar.
Antes de partir, pousou a mão no espaço vazio do banco. A madeira estava fria e úmida. Seus dedos permaneceram ali por alguns segundos, num carinho que ninguém viu.
Então recolheu a bolsa e tomou o caminho de casa, levando consigo aquele gesto, e o nome que, baixinho, acabara de pronunciar.

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