O Abrigo dos Idosos José Lima completou, neste mês de agosto, 56 anos de sua inauguração, ocorrida em 22 de agosto de 1970. Mais do que uma instituição assistencial, tornou-se, ao longo de mais de meio século, uma das mais belas expressões de caridade e proteção aos idosos em Bom Jesus do Itabapoana.
A história, entretanto, começa antes. Como registra Edino Apolinário no livro Um Bonjesuense de Sobral, a partir do relato de Madre Virgínia Alves de Lima, foi em 1957 que José Borges de Lima, movido por profundo sentimento de caridade, edificou em sua própria propriedade uma modesta Casa dos Velhinhos. Ali, nas imediações do antigo Campo do Fluminense, acolhia e amparava idosos. Era uma construção pequena, mas dentro dela já habitava algo imenso: a disposição de servir.
José Lima era pai de Virgínia. E está aí uma das mais belas linhas de continuidade dessa história. A menina que, desde os 11 anos, ajudava os pais no cuidado dedicado aos idosos tornar-se-ia, anos depois, Madre Virgínia, consagrando a própria existência à obra que aprendera a amar ainda na infância.
Com a morte de José Lima, sua esposa, Nair Alves de Lima, prosseguiu na administração do Abrigo. Posteriormente, a obra foi entregue à Igreja, por intermédio daquele que seria decisivo para sua transformação: Padre Francisco Apoliano, o futuro Monsenhor Francisco Apoliano.
E então a caridade encontrou um construtor.
Monsenhor Francisco Apoliano compreendeu que era necessário ampliar aquele sonho. O antigo espaço já não comportava as necessidades dos idosos. Sem abundância de recursos, mas com extraordinária abundância de fé, determinação e capacidade de mobilizar a comunidade, iniciou a construção de uma nova sede. Foram aproximadamente cinco anos de esforços até que, em 22 de agosto de 1970, Bom Jesus assistisse à inauguração do novo Abrigo dos Velhos José Lima.
Nesse dia, a cidade não inaugurou simplesmente paredes.
Inaugurou uma casa para a dignidade.
O jornal A Voz do Povo, na edição de 29 de agosto de 1970, registrou a importância daquele acontecimento e destacou a atuação de Padre Francisco Apoliano, apresentado como sacerdote de espírito laborioso, tenaz e profundamente dedicado à comunidade. A construção havia mobilizado a generosidade da população bonjesuense e representava uma obra destinada à assistência material, moral e religiosa da velhice desamparada.
Uma Procissão da Caridade marcou a inauguração. As imagens do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, depois de abençoadas na Igreja Matriz, seguiram até o Abrigo acompanhadas por numerosa multidão. Era como se a própria cidade caminhasse, naquele fim de tarde, para entregar aquela casa aos idosos e a Deus.
Mas a história reservaria outro capítulo extraordinário.
Monsenhor Francisco Apoliano percebeu entre algumas jovens de Bom Jesus o desejo de uma vida de maior consagração. Chamou-as para o serviço no Abrigo. E elas foram.
As primeiras voluntárias enfrentaram uma realidade de enorme simplicidade. Faltavam panelas, pratos e equipamentos. As roupas eram lavadas à mão. Não existiam fraldas descartáveis. Os colchões eram de capim. Cozinhava-se uma parte dos alimentos, retirava-se do fogo e começava-se outra, porque os utensílios não eram suficientes.
Faltavam coisas. Não faltava amor.
Maria e Luzia Zanon estiveram entre as primeiras jovens dedicadas ao novo Abrigo. Vieram depois Maria de Lourdes Ribeiro Marques, Arlete Jorge de Paula, Maria das Graças Veloso e outras. Sob a orientação de Virgínia Alves de Lima, aquelas mulheres cuidavam dos idosos, lavavam os pavilhões, davam banho, preparavam e serviam as refeições e mantinham a casa com extraordinário zelo.
E, depois de todo o trabalho, ainda encontravam tempo para rezar.
É justamente nesse ponto que a história do Abrigo ultrapassa os limites de uma instituição de assistência social e ingressa na história religiosa de Bom Jesus do Itabapoana. Foi dentro do serviço aos idosos que começou a germinar a comunidade que posteriormente daria origem ao Instituto Imaculado Coração de Maria e São Miguel Arcanjo.
A própria Madre Virgínia resumiu essa origem de maneira luminosa: foi a partir do Abrigo que aquelas jovens começaram a viver em comunidade.
No início eram cinco. Em 1976, já eram quatorze jovens unidas pelo mesmo propósito: consagrar-se a Deus servindo-O na pessoa dos pobres e dos idosos. Em 22 de agosto daquele ano, festa do Imaculado Coração de Maria, sob a orientação e as bênçãos de Dom Antônio de Castro Mayer, Bispo Diocesano de Campos, fundou-se a Associação Imaculado Coração de Maria e São Miguel Arcanjo.
Assim, o Abrigo tornou-se também berço de uma vocação religiosa.
E há profundo simbolismo nisso.
O Imaculado Coração de Maria não se tornou apenas patrono do Instituto que surgiria posteriormente. Sua presença espiritual já estava ligada ao Abrigo desde aqueles primeiros tempos. É uma imagem particularmente bela: o coração maternal de Maria transformado em inspiração para mulheres que passaram a cuidar daqueles idosos como filhos que a vida lhes confiava.
A obra foi se consolidando. Em 1979, o primeiro grupo de fundadoras emitiu votos anuais como professas temporárias. Em 1982, foram aprovadas as primeiras Constituições. Décadas depois, em 30 de abril de 2008, chegou de Roma o Nihil Obstat. E, em 22 de agosto daquele mesmo ano, Dom Fernando Arêas Rifan realizou a ereção canônica do Instituto.
É impossível contemplar essa trajetória sem perceber a presença de duas figuras fundamentais: Monsenhor Francisco Apoliano e Madre Virgínia Alves de Lima.
Ele recebeu uma obra pequena e a fez crescer, mobilizando uma cidade em torno da caridade.
Ela recebeu dos pais o exemplo e transformou a herança familiar em vocação de uma vida inteira.
Monsenhor Francisco compreendia o Abrigo não apenas como lugar onde se oferece alimentação, medicamentos e alojamento. Para ele, aquela era uma “casa de Deus, uma casa de caridade”. Sua concepção reunia aquilo que tantas vezes o mundo moderno separa: o cuidado do corpo e o cuidado do espírito.
É justamente essa convergência que ajuda a explicar a longevidade da obra.
Ali, alimentar é também amar.
Dar banho é preservar dignidade.
Oferecer medicamento é proteger a vida.
Rezar junto é dizer ao idoso que ele continua pertencendo a uma comunidade, que não foi esquecido pelo mundo e que sua existência conserva, até o último instante, valor infinito.
A velhice não pode ser compreendida como o entardecer inútil da existência. Há tardes que guardam as cores mais bonitas do dia. Cada idoso carrega consigo uma biblioteca invisível de lembranças, afetos, perdas, trabalhos, famílias e sonhos. Cuidar de quem envelheceu é, portanto, proteger também a memória humana de uma comunidade.
Passados 56 anos daquele histórico 22 de agosto de 1970, permanecem vivos os gestos de José Lima, a continuidade de Nair, a determinação de Monsenhor Francisco Apoliano, o zelo de Madre Virgínia e a entrega silenciosa das primeiras jovens que descobriram sua vocação entre panelas insuficientes, roupas lavadas à mão, orações e mãos envelhecidas que precisavam ser amparadas.
Aí está a grandeza desta história.
O Abrigo dos Idosos José Lima não nasceu de um grande patrimônio. Nasceu de pessoas.
Nasceu de José Lima, que abriu sua propriedade aos velhinhos.
Nasceu de Monsenhor Francisco Apoliano, que transformou a pequena obra numa instituição destinada a atravessar gerações.
Nasceu de Madre Virgínia, que transformou o exemplo recebido no lar em missão religiosa.
E nasceu das primeiras irmãs, que descobriram que servir a Deus podia significar algo tão concreto quanto preparar uma refeição, limpar um quarto, cuidar de uma enfermidade, segurar uma mão ou permanecer ao lado de alguém quando o peso dos anos tornava o caminho mais difícil.
Aos 56 anos, o Abrigo dos Idosos José Lima permanece como uma das páginas mais comoventes da história social e religiosa de Bom Jesus do Itabapoana.
Algumas construções são feitas de tijolos. Outras são edificadas com caridade e fé. E estas, quando verdadeiras, não envelhecem.
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| Arte de Raul Travassos |






























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