Entre as montanhas, casarões, ruas e memórias de São Pedro do Itabapoana, Sítio Histórico do Sul do Espírito Santo, nasceu, em 17 de setembro de 1896, Maria Antonieta Tatagiba, poetisa que viveu apenas 31 anos, mas deixou versos suficientes para atravessar um século. E foi também nessa pequena São Pedro que um homem decidiu enfrentar um adversário poderoso: o esquecimento.
Seu nome é Dr. Pedro Antônio de Souza.
Presidente e fundador da Academia Maria Antonieta Tatagiba - Artes, História e Letras, Dr. Pedro pertence à rara linhagem dos idealistas que não se limitam a admirar a história: trabalham para que ela continue viva, se responsabilizando por sua preservação e trabsmissão às gerações seguintes.
Durante muito tempo, alimentou o sonho de ver novamente publicada Frauta Agreste, obra de Maria Antonieta Tatagiba. Não era apenas o desejo de reeditar um livro. Era o propósito de devolver uma voz ao seu tempo e projetá-la para além dele.
E o sonho se realizou.
Em 2025, Flauta Agreste ganhou uma reedição fac-similar, realizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, repassados pela Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Mimoso do Sul. Um acontecimento que, por si só, já representaria extraordinária vitória para a preservação da memória literária capixaba.
Mas os verdadeiros visionários enxergam sempre um horizonte depois do horizonte.
A professora Ester Abreu Vieira de Oliveira traduziu a obra para o espanhol. E aconteceu então algo profundamente simbólico: a poesia nascida numa pequena localidade do Sul capixaba ganhou condições de atravessar fronteiras linguísticas.
Maria Antonieta podia conversar com outros povos.
São Pedro do Itabapoana podia falar ao mundo.
Há nisso uma extraordinária metáfora sobre o poder da cultura. Um livro escrito por uma jovem mulher nascida no interior do Espírito Santo, no final do século XIX, sobrevive ao tempo e, mais de cem anos depois, encontra alguém disposto a retirá-lo das fronteiras da memória local e colocá-lo novamente em circulação.
É por isso que a atuação do Dr. Pedro Antônio de Souza merece ser compreendida em sua verdadeira dimensão.
Ele se revela um gigante da cultura que se ergue de um pequeno lugar do Sul capixaba.
Mas é preciso acrescentar: um gigante com os olhos voltados para o mundo.
Valorizar o local não significa aprisioná-lo dentro de suas fronteiras. Pelo contrário. O verdadeiro regionalismo é aquele que conhece profundamente suas raízes para, a partir delas, dialogar com o universal. Quem ama verdadeiramente sua terra não constrói muros em torno dela: constrói pontes.
Dr. Pedro constrói pontes. Entre São Pedro e Mimoso do Sul. Entre o passado e o presente. Entre Maria Antonieta e as novas gerações. Entre a língua portuguesa e a espanhola. No meio do pequeno território onde uma poetisa nasceu e o imenso território onde sua poesia ainda poderá chegar.
Aí reside o caráter visionário de sua atuação. Criar uma Academia dedicada a Maria Antonieta Tatagiba significa proclamar que a memória daquela jovem poetisa merece institucionalidade, pesquisa, divulgação e permanência. Significa dizer às futuras gerações: houve aqui uma mulher que escreveu versos e nós não permitiremos que o tempo apague seu nome.
A cultura necessita desses guardiões.
Não daqueles que transformam memória em peça imóvel de museu, mas daqueles que conseguem fazê-la respirar novamente.
Quando um livro antigo volta às mãos dos leitores, o passado deixa de ser passado por alguns instantes. A autora retorna. Sua voz reaparece. As palavras atravessam novamente os olhos de alguém.
E quando essa mesma obra ganha outro idioma, acontece algo ainda mais bonito: aquilo que nasceu local começa a adquirir vocação universal.
Maria Antonieta Tatagiba morreu em 13 de março de 1928. Tinha somente 31 anos. Poderia parecer uma existência interrompida cedo demais. Entretanto, a literatura possui uma estranha maneira de contrariar o calendário dos homens. Algumas pessoas vivem noventa anos e desaparecem da memória coletiva; outras vivem três décadas e continuam falando depois de um século.
Para isso, entretanto, é necessário que existam pessoas dispostas a escutá-las.
Dr. Pedro Antônio de Souza escutou Maria Antonieta.
Mais do que isso: fez com que outros pudessem escutá-la novamente.
Essa é uma das mais belas missões que alguém pode desempenhar no campo cultural.
São Pedro do Itabapoana continuará pequena quando observada no mapa.
Que continue.
Grandeza nunca foi questão de extensão territorial.
Existem pequenas terras capazes de produzir enormes histórias.
Existem pequenas localidades de onde partem vozes destinadas a alcançar o mundo.
E existem homens que, mesmo vivendo longe dos grandes centros, possuem a rara capacidade de perceber que o horizonte não termina na última montanha que os olhos conseguem enxergar.
Dr. Pedro Antônio de Souza é um desses homens. Um idealista. Um visionário. Um guardião da memória.
Um gigante da cultura de um pequeno lugar, com as raízes profundamente fincadas em São Pedro do Itabapoana e os olhos permanentemente voltados para o mundo.
Sempre que Frauta Agreste continuar sendo aberta por novas mãos, em português ou espanhol, haverá em cada página um pouco do sonho de Maria Antonieta, e também um pouco da obstinação daqueles que compreenderam que preservar a cultura é uma maneira de vencer o tempo.

O Dr. Pedro Antonio é um grande personagem de toda essa história
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