segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Justiça para Alex!

 

Que permaneça seu nome, seu exemplo e tudo o que de bem deixou no mundo  


Alex tratava bem as pessoas. Pode parecer pouco numa sociedade acostumada a medir grandezas por patrimônio, títulos, poder e notoriedade. Mas é exatamente o contrário. Tratar bem alguém é uma das formas mais silenciosas, e mais raras, de grandeza humana



Justiça para Alex!

Mas que justiça ainda pode ser feita a alguém que já atravessou a última fronteira?

Existe uma justiça que não pertence aos tribunais, não está escrita nos códigos e não pode ser pronunciada por sentença alguma. É a justiça da memória. Aquela que impede que uma vida seja reduzida à maneira como terminou e devolve a uma pessoa aquilo que verdadeiramente lhe pertence: a lembrança dos gestos que deixou pelo caminho.

Alex tratava bem as pessoas.

Pode parecer pouco numa sociedade acostumada a medir grandezas por patrimônio, títulos, poder e notoriedade. Mas é exatamente o contrário. Tratar bem alguém é uma das formas mais silenciosas, e mais raras, de grandeza humana.

Existem pessoas que entram em nossa vida fazendo barulho. Algumas chegam discretamente e deixam alguma coisa que somente percebemos quando já não estão presentes: uma palavra gentil, uma delicadeza, uma maneira respeitosa de conversar, aquilo que antigamente se chamava, com admirável precisão, de fino trato.

Alex possuía esse tesouro.

E o oferecia aos outros.

Vivemos, contudo, em uma sociedade que parece confirmar diariamente a velha imagem associada ao pensamento de Thomas Hobbes: “o homem é o lobo do homem”. Existem guerras entre países, mas existem também pequenas guerras acontecendo dentro das cidades, das instituições, das famílias e das relações humanas. Ferimos com palavras. Humilhamos. Julgamos antes de conhecer. Transformamos divergências em inimizades e, algumas vezes, carregamos nossas próprias tempestades para dentro da vida dos outros.

Por isso, alguém que escolhe a gentileza realiza uma pequena resistência.

Alex nunca imaginou que seu modo de tratar as pessoas pudesse constituir uma espécie de patrimônio. Entretanto, constitui.

Há muitas perguntas possíveis sobre sua morte. Por que alguém aparentemente tão sereno carregaria tamanho sofrimento? Que tempestades atravessavam aquele coração? O que poderia ter sido diferente?

Não sabemos.

E por isso é preciso respeitar o território do desconhecido.

As causas de um suicídio são complexas demais para caberem nas explicações construídas por quem permaneceu. Podemos refletir, recordar circunstâncias, formular perguntas. Mas haverá sempre uma região silenciosa da experiência humana à qual somente aquele que sofreu teve acesso. Transformar hipóteses em certezas seria invadir uma intimidade que já não pode responder por si mesma.

Esta crônica, portanto, não pretende explicar a morte de Alex.

Pretende defender sua vida.

Defender a memória do homem educado, gentil, de fino trato, que sabia oferecer aos outros aquilo de que o mundo continua tão necessitado: consideração.

Essa é a justiça possível.

Justiça para Alex é não permitir que o último gesto apague todos os gestos anteriores.

É pronunciar seu nome e recordar não apenas o dia triste de sua partida, mas os muitos dias em que esteve entre nós.

É lembrar sua voz.

Sua educação.

Sua maneira de receber as pessoas.

As pequenas delicadezas que distribuiu sem imaginar que, tempos depois, alguém ainda as guardaria.

Existe uma estranha contabilidade da existência. Muitos daqueles que acumulam riquezas desaparecem e deixam apenas números. Outros passam discretamente pelo mundo e depositam pequenos gestos no coração das pessoas. Estes últimos constroem a fortuna mais duradoura.

Alex deixou parte dessa fortuna.

Não podemos mudar as grandes guerras do mundo. Mas podemos interromper algumas das pequenas guerras que travamos diariamente.

Podemos falar sem ferir.

Discordar sem humilhar.

Escutar antes de condenar.

Perceber que aquele que encontramos sorrindo pela manhã pode estar enfrentando, silenciosamente, uma noite dentro de si.

E podemos, sobretudo, tratar bem.

Alex fazia isso.

Que sua memória permaneça não como a memória de um gesto final, mas como a memória de uma vida inteira que existiu antes dele.

Um homem é infinitamente maior do que o instante de sua morte.

E se ainda houver uma justiça que os vivos possam oferecer aos mortos, que seja esta: não permitir que o esquecimento tenha a última palavra.

Justiça para Alex.

Que permaneça seu nome.

Que permaneça seu fino trato.

Que permaneça o bem que ofereceu às pessoas.

Quando alguém se recordar de sua gentileza, Alex continuará, de alguma maneira, caminhando entre nós.

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