segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O homem por trás do jaleco branco


A literatura realiza uma espécie de medicina da memória: impede que determinados instantes morram definitivamente




No dia 2 de setembro, em Nova Friburgo, o médico Rogério Seródio fará mais do que lançar um livro. Ao apresentar O homem por trás do jaleco branco, permitirá que o leitor atravesse uma fronteira que muitas vezes permanece invisível: aquela que separa o médico que todos conhecem do ser humano que poucos conseguem enxergar.

O jaleco branco tem uma força simbólica extraordinária. Diante dele chegam a dor, o medo, a esperança e aquela pergunta silenciosa que acompanha todo enfermo: “Será que ficarei bem?”. Quem o veste aprende a conviver com a fragilidade humana. Escuta corações, examina corpos, interpreta exames, acompanha recuperações e, algumas vezes, precisa permanecer de pé quando a própria alma gostaria de se sentar e chorar.

Mas existe um homem por trás daquele branco.

Um homem que também se cansa. Que tem família, lembranças, alegrias, angústias e saudades. Um homem que atravessou os dias levando consigo experiências que nenhum prontuário seria capaz de registrar. E isso ocorre quando o médico retira simbolicamente o jaleco e começa a contar sua própria história: descobrimos uma dimensão ainda mais profunda da medicina.

A imagem escolhida para acompanhar a obra parece resumir essa travessia: uma lamparina acesa.

Antes dos grandes hospitais iluminados, dos equipamentos sofisticados e da medicina cercada pela tecnologia, havia pequenas luzes enfrentando enormes escuridões. A lamparina não pretendia iluminar o mundo inteiro. Bastava-lhe iluminar alguns passos adiante.

Essa é uma das mais belas metáforas da medicina.

O médico também não possui todas as respostas. Não vence todas as enfermidades. Não consegue impedir todas as despedidas. Mas pode iluminar alguns metros da caminhada humana. Pode diminuir uma dor, prolongar uma existência, oferecer esperança e, sobretudo, segurar simbolicamente a mão daquele que atravessa a noite.

E existe ainda algo profundamente poético nessa história: Seródio transforma a memória em livro.

As experiências que poderiam desaparecer com o tempo passam agora para o papel. Pessoas, lugares, acontecimentos, dificuldades e alegrias ganham uma segunda existência através das palavras. A literatura realiza, assim, uma espécie de medicina da memória: impede que determinados instantes morram definitivamente.

O título da obra contém, portanto, uma delicada revelação. Por trás de cada profissão existe uma pessoa. Por trás do médico existe o homem. Por trás do jaleco existem sonhos.

E por trás de muitas histórias aparentemente comuns existem vidas extraordinárias esperando apenas alguém que tenha coragem de contá-las.

Na noite de setembro, no Café D’Art Bistro, em Nova Friburgo, haverá certamente livros sobre uma mesa, dedicatórias, abraços, fotografias e reencontros. Mas haverá também algo que nenhuma fotografia conseguirá registrar completamente: um homem entregando aos leitores parte da própria caminhada.

Os livros são exatamente isso.

Lamparinas deixadas acesas para que aqueles que vierem depois possam encontrar algum caminho na escuridão.

E Rogério Seródio, depois de tantos anos cuidando da vida com o jaleco branco, se dedica agora a outra maneira de cuidar dela: salvando-a do esquecimento pela palavra.






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