Uma cadeira, duas presenças
Certos convites chegam como quem abre uma janela. No meio de datas, nomes e indicações de lugar, deixam entrar uma claridade que vem de longe: a luz das pessoas cuja passagem pela vida continua a iluminar outros caminhos.
Assim é o convite para a posse de André Luiz de Oliveira na Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores. Na cadeira de número 179, uma presença acompanhará a sua: Luciano Augusto Bastos, escolhido por ele como patrono.
Uma cadeira acadêmica guarda um delicado paradoxo. Tem número, mas acolhe o que não se pode contar. Tem um ocupante, mas abriga muitas vozes. Nela se encontram quem chega, trazendo seus sonhos, e quem permanece, oferecendo à caminhada a memória de seus passos.
No próximo dia 19 de novembro, às 18 horas, no Centro Cultural Carlos Corrêa Loyola, em Valparaíso, na Serra, o encontro terá a solenidade das vestes, da comenda e do diploma. Entretanto, haverá um instante especialmente comovente: aquele em que André pronunciar o nome de seu patrono e trouxer para a reunião dos poetas a lembrança de Luciano.
Para quem o guarda no coração, esse nome tem a intimidade de uma voz conhecida. Tem também o rumor das páginas de O Norte Fluminense, jornal ao qual dedicou parte de sua vida. Na oficina cotidiana da palavra, no meio de notícias e acontecimentos de nossa terra, ficam marcas que o tempo não recolhe: um modo de olhar a cidade, de reconhecer suas pessoas, de participar de seu destino.
Agora, essa memória atravessará caminhos entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. Partirá simbolicamente de Bom Jesus do Itabapoana para encontrar acolhida numa casa de letras capixaba. A cultura conhece essas travessias. Leva consigo aquilo que os mapas não registram: afetos, exemplos, gratidão.
Ao escolher Luciano Augusto Bastos como patrono, André Luiz de Oliveira estabelece um vínculo que pede cuidado. Há beleza nessa escolha, porque ela transforma admiração em compromisso. Daqui em diante, ao lado de seu próprio nome, haverá outro nome a recordar, a apresentar às novas gerações, a manter próximo da conversa dos vivos.
Imaginamos o instante em que a pelerine repousar sobre seus ombros. O tecido terá seu peso discreto; a emoção, talvez, lhe altere por um momento a voz. Diante dele estarão os presentes. Dentro daquele instante, porém, caberão também os ausentes, tantos quantos a memória conseguir chamar.
Será na abertura do XXIII Congresso Brasileiro de Poetas Trovadores. E há algo de profundamente humano em reunir pessoas em torno da poesia e da arte: por algumas horas, escutar com atenção, celebrar uma trajetória, oferecer ao outro uma palavra que mereça permanecer.
Que André encontre nessa cadeira espaço para criar, coragem para dizer e companheiros com quem repartir a jornada. Que o nome de Luciano seja pronunciado com o afeto que sustenta as lembranças mais duradouras.
Quando a cerimônia terminar e as luzes do auditório se apagarem, cada convidado levará consigo alguma coisa daquela noite. Uma arte, um verso, um abraço, a emoção de um discurso.
E alguém, ao ouvir pela primeira vez o nome de Luciano Augusto Bastos, desejará saber quem ele foi.
Nesse desejo, a memória terá começado a florescer outra vez.

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