"Em nosso tempo, promover o xadrez entre crianças e jovens assume quase a dimensão de uma obrigação moral" (Leontxo García)
Em uma época marcada pela velocidade, pela dispersão e pelo consumo de conteúdos cada vez mais breves, ensinar uma criança a parar, observar, refletir e somente depois mover uma peça pode representar muito mais do que ensinar um jogo. Pode significar ensinar a pensar.
É justamente essa reflexão que ganha força nas palavras de Leontxo García Olasagasti, uma das maiores referências mundiais do jornalismo enxadrístico. Jornalista, escritor, conferencista e comentarista espanhol, García trabalha na cobertura do xadrez desde 1983 e escreve para o jornal El País desde 1985. Antes do jornalismo, foi jogador semiprofissional e alcançou o título de Mestre FIDE. Hoje é conselheiro sênior da Comissão de Xadrez na Educação da Federação Internacional de Xadrez (FIDE). Segundo a própria FIDE, já participou da formação de mais de 30 mil professores em 31 países para a utilização pedagógica do xadrez. É também autor de Ajedrez y ciencia, pasiones mezcladas e recebeu importantes reconhecimentos por sua contribuição à difusão do jogo.
Em artigo publicado no El País em 22 de agosto de 2026, Leontxo lança uma provocação particularmente oportuna. Segundo ele, há “sérios indícios de que cada vez mais gente pensa menos”, enquanto o xadrez, respaldado por estudos e experiências educacionais, amplia sua presença como instrumento educativo e exercício mental. O jornalista recorda ainda a presença do jogo na vida de personalidades do esporte, da política e das artes, mostrando como as 64 casas continuam atravessando gerações e diferentes campos da atividade humana.
A reflexão de Leontxo conduz a uma conclusão poderosa: em nosso tempo, promover o xadrez entre crianças e jovens assume quase a dimensão de uma obrigação moral. Não porque todos devam tornar-se campeões, mas porque todos deveriam ter a oportunidade de desenvolver a capacidade de pensar com autonomia, avaliar consequências, exercitar a paciência e compreender que decisões exigem responsabilidade.
É nesse horizonte que ganha significado especial o trabalho desenvolvido pelo Colégio Estadual Padre Mello, em Bom Jesus do Itabapoana.
O Colégio Estadual Padre Mello demonstra compreender a diferença entre transmitir conteúdos e perceber que possui uma missão ainda maior: preparar seres humanos para pensar, escolher, perseverar e construir o futuro.
É nesse terreno que o xadrez encontra espaço para lançar raízes.
Sob a condução da diretora Nathyara Teixeira dos Santos e da diretora adjunta Renata Pacheco Francisco, com a atuação do coordenador pedagógico Dr. Marcos Cândido Mendonça e o trabalho do professor Fabio Sousa Vargas, o educandário compreende uma verdade essencial: nenhuma grande construção começa pelo alto. Sem base não existe pirâmide, e o primeiro e mais importante elo dessa construção é a escola.
O xadrez educativo não deve ser compreendido apenas como caminho para descobrir futuros campeões, mestres ou grandes jogadores. Antes de formar enxadristas, pode ajudar a formar cidadãos. Diante do tabuleiro, a criança aprende que toda decisão produz consequências; que é necessário pensar antes de agir; que perder não significa desistir; que vencer exige respeito; e que paciência, concentração, disciplina e perseverança são conquistas que ultrapassam as fronteiras das 64 casas.
A própria Comissão de Xadrez na Educação da FIDE sustenta essa concepção ao apresentar o jogo como uma poderosa ferramenta educacional para o desenvolvimento de capacidades intelectuais e competências importantes para a vida dentro e fora da escola.
É essa dimensão humana que torna particularmente significativa a iniciativa do Colégio Estadual Padre Mello. Ao abrir espaço para o xadrez, a escola não está simplesmente colocando tabuleiros diante dos alunos. Está colocando possibilidades diante deles.
Cada peça movimentada pode despertar uma descoberta. Cada partida pode ensinar uma lição. Cada derrota pode ensinar a recomeçar. E cada criança que aprende a pensar alguns lances adiante no tabuleiro talvez comece também a enxergar alguns passos adiante em sua própria existência.
Existe uma verdadeira visão de futuro nessa proposta: um xadrez que chegue justamente aonde mais pode fazer diferença; que abra portas; que acolha; que revele talentos, mas que jamais se limite à procura dos vencedores. O maior título conquistado pelo xadrez escolar nunca será gravado em um troféu. Ele estará na formação de jovens mais atentos, responsáveis, criativos, perseverantes e preparados para enfrentar os desafios da vida.
Nesse sentido, merece reconhecimento a comunidade dirigente e pedagógica do Colégio Estadual Padre Mello. Nathyara, Renata, Dr. Marcos e Fabio representam diferentes funções reunidas em torno de uma mesma obra: direção, organização pedagógica, compromisso educacional e conhecimento enxadrístico colocados a serviço das novas gerações.
Quando gestores e educadores acreditam numa ideia e trabalham conjuntamente para concretizá-la, uma sala deixa de ser apenas uma sala. Pode transformar-se em laboratório de inteligência, cidadania e sonhos.
E está aí a imagem mais bonita de todas: enquanto, sobre os tabuleiros, pequenos peões avançam casa após casa, dentro da escola uma geração inteira também começa a avançar.
As grandes transformações raramente começam sob os refletores dos grandes campeonatos. Começam silenciosamente numa sala de aula, diante de uma criança, de um professor e de um tabuleiro.
Os pódios consagram campeões.
Mas é a escola que ensina a pensar, e constrói o futuro.


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