quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Balbino Miguel Nunes: o homem que faz a beleza do passado atravessar o tempo

 

Móveis, memórias e café: o mundo encantado de Balbino


Balbino e o ofício de salvar a beleza do esquecimento


Balbino sempre imaginou sua loja à beira da pista, aberta aos viajantes, quase como uma estação onde quem passa pelo presente pode fazer uma parada no passado


Depois de tantas décadas sob o nome do arcanjo Miguel, Balbino continua encontrando São Miguel pelos caminhos.



Balbino: o guardião das coisas que o tempo não levou

Balbino: preservar o passado é construir o futuro

Balbino Miguel Nunes pertence à  categoria de pessoas que oferecemn às pessoas as raras oportunidades de comprarem antiguidades e tocarem a História.

Em seu antiquário, cada móvel, cada imagem, cada objeto que atravessou décadas parece guardar uma voz. Graças a Balbino, a beleza que poderia desaparecer no silêncio de uma casa antiga encontra novos olhos, novas mãos e um novo endereço. E a História, em vez de terminar, recomeça.

Nascido em 4 de dezembro de 1955, na Fazenda Primavera, em Mimoso do Sul, Balbino carrega na própria origem uma mistura de povos e histórias. É filho de José Miguel de Souza, descendente do português Manuel Miguel de Souza, e de Iolanda Nunes, cuja ancestralidade reunia raízes italianas, mineiras e indígenas puris. Na memória familiar permanece a história da bisavó indígena que deixou a mata para viver com seu companheiro, mas cuja adaptação ao mundo urbano nunca foi completa. Permanecem também as lembranças simples e afetivas da avó, dos pudins e das delícias preparadas em casa.

Balbino cresceu entre seis irmãos: João Batista de Souza, já falecido, Sebastião, Nazário, Leni e Elizabeth. Mas, entre tantas heranças familiares, havia uma que parecia ter nascido exclusivamente dentro dele: a paixão pelas coisas antigas.

“Nasci com alma velha”, costuma dizer.

E talvez nenhuma frase o defina tão bem.

Aos dez anos, quando entrava na casa de alguém, seus olhos infantis eram atraídos pelos móveis e objetos antigos. Não era inveja. Era encantamento. Era como se o menino já percebesse aquilo que muitos adultos jamais percebem: um móvel antigo não ocupa simplesmente um espaço, ele guarda o tempo.

O menino olhava aquelas peças e fazia silenciosamente uma promessa a si mesmo:

“Um dia vou trabalhar, ganhar dinheiro e comprar esses móveis antigos.”

E comprou.

Quando começou a trabalhar como professor de alfabetização, passou a adquirir as peças que lhe ofereciam. No início, não pensava em comércio. Colecionava. Guardava. Admirava. Preservava. Era quase uma missão intuitiva, muito antes de saber que aquela paixão se transformaria em um caminho de vida.

Aos quatro anos, Balbino mudou-se com a família para São Pedro do Itabapoana. Primeiro, seus pais adquiriram uma chácara nas proximidades da Praça da Rodinha, na Rua das Táboas. Depois, a família foi para um sítio na Maravilha. Mais tarde, retornou a São Pedro, onde os pais compraram uma casa com grande quintal.

É nessa residência que Balbino mantém um verdadeiro universo de móveis e peças históricas. A casa tornou-se muito mais que moradia. É território de memória. Foi ali que seus pais foram velados. E Balbino, falando com a naturalidade de quem compreende a vida como continuidade, manifesta o desejo de que também seja ali a sua despedida.

Há cerca de quarenta anos, começou a vender antiguidades naquele local.

A trajetória do antiquário se entrelaçou, depois, à própria preservação cultural de São Pedro do Itabapoana. Balbino esteve entre os que apoiaram a criação do Museu de São Pedro. Ao lado de Lilian Santana e Carlos Miranda, levou a ideia ao poder público, iniciativa que culminou, em 2002, na criação do museu. Em razão dessa colaboração, recebeu em comodato, por intermédio da Diocese e da paróquia, um cômodo localizado abaixo do museu.

Ali também se projetou o Antiquário São Miguel.

O nome não poderia ser mais simbólico. Miguel faz parte do próprio nome de Balbino e São Miguel Arcanjo é o santo de sua devoção. História, fé e identidade passaram, assim, a caber na mesma placa.

Hoje são três unidades do Antiquário São Miguel: duas em São Pedro do Itabapoana e outra às margens da estrada entre Bom Jesus do Norte e Apiacá. Esta última representa a realização de um antigo desejo. Balbino sempre imaginou sua loja à beira da pista, aberta aos viajantes, quase como uma estação onde quem passa pelo presente pode fazer uma parada no passado.

Há cerca de dois anos, concretizou o projeto.

E resume o resultado com a simplicidade de sempre:

“Foi uma decisão acertada. Está ótimo. Muito bom.”

Para manter renovado o acervo, Balbino tornou-se frequentador assíduo de leilões. Participa normalmente de um ou dois por semana, alguns chegando a durar quatro dias. Para ele, as grandes peças tornaram-se cada vez mais difíceis de encontrar fora desse universo.

“Peças boas, atualmente, só se encontram em leilão.”

E ele procura. Pesquisa. Disputa. Compra. Transporta. Recomeça.

Recentemente, em meio a essas buscas, adquiriu uma peça que possui significado especial:

“A propósito, acabei de comprar em leilão uma bela peça de São Miguel.”

É difícil não enxergar poesia nessa aquisição. Depois de tantas décadas sob o nome do arcanjo, Balbino continua encontrando São Miguel pelos caminhos.

Sua personalidade ajuda a explicar uma trajetória construída muito mais pela ação que pela espera.

“Sou explosivo. Quando surge uma ideia que domina meu coração, faço tudo para realizá-la imediatamente. Detesto planos longos. Sou imediatista. Deixo a vida me levar.”

Mas a vida que o leva encontra um homem disposto a caminhar.

Por isso Balbino  elaborou, ao longo dos anos, uma pequena filosofia feita não de tratados, mas de experiências. Ao olhar para as dificuldades que enfrentou, afirma:

“O veneno que me jogaram serviu de imunidade.”

Depois acrescenta:

“Deus escreve certo por linhas tortas.”

E conclui com outra sentença digna de ser guardada:

“As topadas são que ajudam a caminhar.”

São frases de alguém que aprendeu a transformar adversidade em movimento. Balbino faz consigo mesmo aquilo que realiza diariamente com seus móveis antigos: recupera, preserva e dá novo significado às marcas deixadas pelo tempo.

Sua fé aparece constantemente em suas palavras. Com voz firme, mas sem abandonar a extrema humildade e a simplicidade que o caracterizam, afirma:

“Nunca estou sozinho. Estou com Deus. Sinto-me protegido especialmente por São Miguel.”

Há também um Balbino comunitário. Recentemente, foi parceiro da segunda edição da Festa da Praça da Rodinha, justamente o lugar próximo ao qual sua família se estabeleceu quando chegou a São Pedro. O círculo parece se completar: o menino que chegou àquela região retorna décadas depois para colaborar com a preservação de suas festas, lembranças e vínculos.

E sentencia:

“Podem contar comigo enquanto vida eu tiver.”

Entrar em um dos antiquários de Balbino, contudo, não significa apenas procurar um móvel. O visitante pode encontrar café, conversa, histórias e gracejos. Os possíveis compradores são recebidos como se ingressassem numa antiga casa de roça, onde o café não é simples bebida, mas cerimônia de acolhimento.

Entre uma peça e outra, Balbino conversa. Conta casos. Ri. Recorda. Filosofa.

Ele próprio procura afastar de sua vida aquilo que considera negatividade. Guarda uma frase que ouviu certa vez de um padre, segundo a qual pessoas que vivem falando apenas de coisas negativas acabam transmitindo maus fluidos. Balbino adotou a conclusão como princípio: é preciso tomar cuidado para não permitir que o pessimismo alheio contamine a alegria de viver.

Por isso até situações difíceis terminam convertidas em histórias bem-humoradas. Certa vez, um profissional da medicina lhe comunicou:

- Você está com coronavírus.

Balbino respondeu:

 - Mas eu não estou com ele!

No dia seguinte, retornou. Novo exame. Resultado negativo.

O episódio passou a integrar o repertório de histórias que conta com aquele sorriso de quem parece manter permanente negociação com a própria vida.

Em sua trajetória. Balbino declara:

“Meu coração está sempre em São Pedro. Amo São Pedro, mas não vivo em São Pedro.”

Viver em um lugar não significa apenas dormir dentro de suas fronteiras. Vive-se também onde permanecem nossos afetos, nossas obras e aquilo que ajudamos a preservar. Balbino está em São Pedro nas peças que salvou do desaparecimento, no museu cuja criação ajudou a impulsionar, no antiquário instalado sob ele, na Praça da Rodinha, nas casas, nos móveis e nas histórias que continuam circulando graças à sua paixão.

Balbino não vende simplesmente coisas velhas. Ele disponibiliza História.

Cada cristaleira, cômoda, mesa, cadeira, imagem ou objeto que chega às suas mãos recebe a possibilidade de continuar existindo. Aquilo que poderia terminar esquecido em algum depósito encontra alguém disposto a reconhecer seu valor e outra pessoa disposta a levá-lo para casa.

Eis aí a dimensão mais bela do trabalho de Balbino Miguel Nunes.

Em uma época marcada pela velocidade, pelo descarte e pela substituição permanente, seu antiquário ensina silenciosamente que nem tudo aquilo que envelhece perde valor. Algumas coisas tornam-se mais preciosas justamente porque sobreviveram.

Graças a Balbino, as pessoas podem compreender a História não apenas lendo-a, mas tocando-a, contemplando-a e levando um pedaço dela para dentro de casa.

Seus móveis antigos falam do passado, mas não pregam nostalgia estéril. Ao contrário: apontam para o futuro. Recordam que um mundo novo não precisa nascer da destruição de tudo o que veio antes. Pode ser construído juntando memória e esperança, tradição e criatividade, passado e amanhã.

E assim, no meio de um café servido, uma gargalhada, um leilão disputado e uma nova peça de São Miguel que chega ao acervo, Balbino segue fazendo aquilo que começou a sonhar aos dez anos.

O menino de “alma velha” cresceu.

Mas não abandonou o encantamento.

E é  por isso que, aos seus olhos, as coisas antigas continuam eternamente novas.


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