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| Salim Tannus |
Em Bom Jesus do Itabapoana, um verso escrito há muitas décadas acaba de adquirir uma luminosidade inesperada: aquilo que nasceu como poesia e música parece ter aguardado pacientemente o momento de se transformar em realidade.
Foi o genial bonjesuense Raul Travassos, um dos nomes eternizados na história artística da Igreja Matriz Senhor Bom Jesus, quem percebeu a delicada coincidência histórica. Ao comentar a elevação da Matriz à condição de Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia, fez uma arguta observação:
“Como você pode ouvir, a música do querido Salim Tannus, consagrada pelo povo e tida como o Hino de Bom Jesus, já previa nos seus versos... o ‘santuário’...”
E previa mesmo.
Na célebre “Marcha a Bom Jesus”, Salim Tannus escreveu versos que sucessivas gerações aprenderam a cantar:
“Lá no alto do Calvário,
todos nós juntos, em prece,
veneramos o Santuário.”
Décadas depois, a palavra Santuário deixa o território exclusivamente poético para adquirir também significado eclesiástico e histórico.
É como se a canção tivesse chegado antes da história.
A “Marcha a Bom Jesus”, consagrada pela população e transformada em Hino Oficial do Município durante a administração do prefeito Oliveira Teixeira, em 11 de outubro de 1964, revelou-se, sob o olhar sensível de Raul Travassos, quase uma profecia poético-musical.
Salim Tannus cantou o que seus olhos contemplavam e seu coração sentia; o tempo, décadas mais tarde, encarregou-se de conferir novo sentido à sua inspiração.
O verso ganha ainda maior força porque o templo ao qual se refere não é apenas um edifício religioso. A história da Igreja Matriz confunde-se com a própria história de Bom Jesus do Itabapoana.
Inaugurada em 1880 pelo Padre Guedes Machado, a igreja atravessou gerações acompanhando o crescimento da comunidade e recolhendo, entre suas paredes, orações, promessas, casamentos, batizados, despedidas, lágrimas e agradecimentos. Há muito tempo, portanto, antes mesmo de qualquer decreto eclesiástico, aquele espaço já era santuário na memória afetiva dos bonjesuenses.
Em 1931, coube ao açoriano Padre Antônio Francisco de Mello promover sua remodelação, legando à cidade a imponente fachada que se tornaria uma de suas mais reconhecidas referências arquitetônicas. Ali permanece, diante das gerações, uma extraordinária herança açoriana gravada não em papel, mas em pedra, formas e beleza.
A monumental porta da Matriz também conta sua própria história. Foi esculpida pelos espanhóis Francisco Fernando Ciria, Armando Munhoz e Antonio Ruiz Lopes, a pedido de Monsenhor Ovídio Simon, pároco de Bom Jesus entre 1950 e 1956. Madeira, arte e fé encontraram-se naquela obra. Desde então, incontáveis mãos tocaram aquela porta e incontáveis pessoas a atravessaram carregando esperanças, aflições, gratidão e fé.
O interior do templo, por sua vez, recebeu posteriormente a marca do extraordinário devotamento que deixou marcas na história de Monsenhor Francisco Apoliano, seguida pela magistral intervenção artística de Raul Travassos, realizada durante a administração paroquial do Padre Vicente Osmar Batista Coelho.
Cada geração acrescentou alguma coisa.
Uns levantaram paredes. Outros criaram formas. Outros esculpiram madeira. Outros ornamentaram altares. Outros celebraram a fé. E milhares de pessoas, anônimas para os registros oficiais, fizeram a parte mais importante: rezaram.
Por isso, a elevação da Igreja Matriz à condição de Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia não representa apenas uma nova classificação eclesiástica. É também o reconhecimento de uma longa caminhada espiritual, histórica, artística e afetiva.
Padre Guedes Machado, Padre Antônio Francisco de Mello, Monsenhor Ovídio Simon, Francisco Fernando Ciria, Armando Munhoz, Antonio Ruiz Lopes, Monsenhor Francisco Apoliano, Raul Travassos e Padre Vicente Osmar Batista Coelho são nomes inscritos na construção material, artística e espiritual desse templo.
A eles se une agora, em lugar singular na história, Padre Rogério Cabral Caetano, sob cujo paroquiato a antiga Matriz alcança a histórica condição de Santuário Diocesano.
E, acima de todos os nomes, permanece o povo.
O mesmo povo que durante décadas cantou talvez sem imaginar toda a dimensão futura daqueles versos. O mesmo povo que subiu o Calvário, entrou pela grande porta, ajoelhou-se diante do altar e fez daquele templo sua casa espiritual.
Raul Travassos teve a sensibilidade de perceber aquilo que estava escondido à vista de todos: Salim Tannus colocou o Santuário na música antes que a história o colocasse oficialmente no nome da igreja.
E há nisso uma beleza quase inexplicável.
Em 1964, Bom Jesus oficializou uma canção como seu hino.
Em 2026, a história parece responder ao compositor.
O verso cantava:
“Veneramos o Santuário.”
Passaram-se décadas.
E o tempo, finalmente, respondeu:
Sim. Agora é Santuário.
Marcha a Bom Jesus
Salim Tannus
Oh! Bom Jesus!
Terra de hospitalidade,
Longe de ti,
Quase morro de saudade!
Oh! Bom Jesus!
Terra de hospitalidade!...
Longe de ti, oh! Bom Jesus,
Morro de saudade!
Tens os montes verdejantes,
Lá no alto do Calvário,
Todos nós juntos, em prece,
Veneramos o Santuário.
Tua garota é formosa e gentil
Oh! Bom Jesus!
Pedaço do meu Brasil!
GRUPO MUSICAL AMANTES DA ARTE


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