quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Pais São Arcos, Filhos São Flechas: a Antiga Sabedoria do poeta libanês Khalil Gibran

 


Há quase um século, Khalil Gibran escreveu palavras que continuam chegando ao presente como quem bate suavemente à porta de nossas certezas: “Seus filhos não são seus filhos. São os filhos e filhas da ânsia da Vida por si mesma.”

É uma dessas frases que o tempo não envelhece. Ao contrário: quanto mais os anos passam, mais ela parece encontrar novos significados. E talvez nunca tenha sido tão necessária quanto agora, numa época em que amar os filhos pode facilmente se confundir com vigiar cada passo, conhecer cada conversa, acompanhar cada localização e transformar o celular numa espécie de janela permanentemente aberta para uma vida que também precisa aprender a ter suas próprias cortinas.

Gibran escreveu sobre filhos em O Profeta, publicado em 1923. E sua imagem é belíssima: os pais são como arcos, e os filhos, flechas vivas lançadas em direção ao futuro. O arco sustenta, oferece força, dá direção inicial. Mas chega inevitavelmente o instante em que precisa permitir que a flecha voe.

Aí está uma das formas mais difíceis do amor.

Porque proteger é instintivo. Soltar exige coragem.

Os pais conhecem os perigos do mundo porque já caminharam por ele. Viram portas se fecharem, conheceram decepções, sofreram perdas, aprenderam que nem toda mão estendida traz amizade. Por isso desejam poupar os filhos das pedras nas quais um dia tropeçaram.

Mas há uma verdade delicada: ninguém aprende inteiramente a caminhar usando os passos de outra pessoa.

É preciso permitir pequenos erros. É necessário respeitar silêncios. Há conversas que pertencem aos filhos, amizades que precisam amadurecer longe dos olhos paternos, escolhas que somente ganharão significado quando forem feitas em liberdade.

Antes de abrir escondido o celular de um filho, talvez valha a pena abrir Gibran.

Não porque os pais devam abandonar o dever de orientar, proteger e estabelecer limites, sobretudo quando há riscos concretos. Cuidar continua sendo uma das mais profundas expressões do amor. Mas existe uma fronteira quase invisível entre proteção e invasão, entre acompanhar e controlar, entre estar presente e impedir que o outro construa seu próprio território.

Filhos precisam saber que existe uma casa para onde voltar. Precisam sentir que há braços capazes de acolhê-los quando o mundo doer. Mas também precisam descobrir que possuem asas.

A grande missão dos pais não é construir muros ao redor dos filhos, mas ensinar-lhes a reconhecer precipícios.

Não retirar todas as pedras do caminho, mas ajudá-los a aprender onde colocar os pés.

Não impedir todas as quedas, mas permanecer suficientemente perto para que saibam que poderão levantar.

Chega um momento em que o amor precisa trocar a mão que segura pela presença que acompanha.

E então compreendemos Gibran.

Os filhos passam por nós, recebem nosso nome, nossas histórias, nossos conselhos e parte de nossos sonhos. Sentam-se à nossa mesa, dormem sob nosso teto e durante algum tempo cabem inteiros dentro de nossos braços.

Até que crescem.

E o abraço que antes protegia precisa aprender a não aprisionar.

A mais bela vitória dos pais acontece naquele instante doloroso e sublime em que percebem que seus filhos já conseguem caminhar sozinhos.

Criamos raízes para que eles saibam de onde vieram.

E lhes damos asas para que descubram até onde podem chegar.




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