Uma melodia nos conduz a uma sala antiga; outra traz o rosto de alguém que já não podemos visitar
O homem apoia o violoncelo na neve, sob uma árvore que parece guardar todos os invernos. Ao longe, a torre de uma igreja emerge da neblina. Algumas janelas permanecem acesas, e o céu conserva uma faixa de luz alaranjada, como se a tarde demorasse a se despedir de alguém.
É uma paisagem que podemos imaginar ao ouvir esses adágios. O arco toca as cordas, e a primeira nota encontra dentro de nós um lugar que andava fechado.
Existem certos dias em que chegamos à noite carregando conversas interrompidas. Uma palavra que não dissemos, uma visita adiada, a lembrança de uma mão pousada sobre a nossa. Durante as horas de trabalho, quase conseguimos esquecer. Depois, a casa sossega, e tudo volta a ter voz.
O violoncelo sabe acompanhar esse regresso. Sua sonoridade grave se demora junto às lembranças, dá a cada uma o tempo de chegar. O piano responde com notas delicadas, espaçadas, semelhantes às luzes da aldeia atravessando a névoa.
Entre os dois instrumentos, há lugar para respirar.
Inspiradas no universo romântico de Rachmaninoff, essas composições originais abrem caminhos próprios pela melancolia. Podemos percorrê-los devagar. Uma melodia nos conduz a uma sala antiga; outra traz o rosto de alguém que já não podemos visitar. Por alguns instantes, quase ouvimos o ranger de uma porta, o tilintar de uma xícara, uma voz chamando pelo nosso nome.
A saudade tem esses pequenos sons.
Na paisagem imaginada, a estrada continua branca. Nenhum viajante aparece, mas o músico prossegue. Talvez alguém, atrás de uma daquelas janelas, interrompa a leitura para escutar. Talvez aproxime a cadeira do vidro e permaneça ali, com um livro aberto sobre os joelhos, enquanto a noite chega.
Também nós podemos ficar um pouco.
Deixar o telefone sobre a mesa, afrouxar os ombros, acompanhar a duração de uma nota. Sentir como ela cresce, vacila e se apaga. Aceitar o breve silêncio antes da próxima.
Quando a música termina, os problemas ainda nos esperam. Mas a respiração encontrou outro ritmo, e conseguimos olhar com mais ternura para aquilo que trouxemos do dia.
Lá fora, o último clarão se recolhe atrás da aldeia. Sob a árvore, o homem baixa o arco. Por um instante, antes que ele se mova, parece que a própria neve continua escutando.

Os dias são importantes para nos ensinar o valor do amor ❤️
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