A pergunta decisiva não é quando começa a queda de uma sociedade. É outra: quando percebemos que ela começou a cair, de que lado escolhemos permanecer?
A Queda Começa na Alma
Sócrates e o Espelho de Nosso Tempo
Existem épocas em que uma sociedade não desaba de repente. Não se ouve o estrondo de suas paredes, não se vê poeira subindo das ruínas. Ela começa a cair silenciosamente, por dentro, quando os valores trocam de lugar. Quando a esperteza passa a valer mais que a honestidade; quando a aparência recebe aplausos e o caráter é deixado numa cadeira vazia; quando quem trabalha contempla, perplexo, a recompensa dos que aprenderam apenas a colher aquilo que nunca plantaram. As grandes decadências começam assim: não com terremotos, mas com pequenas inversões morais aceitas como se fossem naturais.
A imagem atribuída a Sócrates nos provoca justamente porque parece colocar diante de nós um espelho. Pouco importa, para a reflexão, que muitas frases que circulam nas redes sociais sejam atribuídas aos antigos sem comprovação histórica. O essencial está na pergunta que elas despertam: que sociedade estamos construindo quando o barulho dos insensatos consegue abafar a serenidade dos sábios? Há algo profundamente inquietante numa época em que falar alto pode parecer argumento, possuir seguidores pode parecer autoridade e repetir uma mentira muitas vezes pode conferir-lhe a aparência de verdade.
A decadência mais perigosa é aquela que consegue vestir-se de normalidade. É quando já não nos espantamos diante da falta de caráter; quando a deslealdade recebe nomes elegantes; quando a ingratidão é justificada como conveniência; quando o agressor encontra defensores e a vítima precisa explicar por que sofreu; quando alguém sobe ao púlpito para ensinar virtudes que jamais teve coragem de praticar. Nesse instante, a sociedade não perdeu apenas algumas referências: começou a perder a capacidade de sentir vergonha daquilo que deveria envergonhá-la.
E existe ainda uma tragédia mais delicada: o silêncio dos bons. Os tolos costumam possuir uma vantagem sobre os sábios, raramente duvidam de si mesmos. Gritam, sentenciam, condenam, distribuem certezas. Os sábios, ao contrário, conhecem a complexidade da existência e por isso ponderam, escutam, interrogam. Sócrates fez da pergunta um instrumento da filosofia. Por isso continua tão necessário num mundo apaixonado por respostas instantâneas.
Mas nenhuma sociedade está condenada enquanto ainda existirem pessoas capazes de se indignar. Enquanto alguém ensinar uma criança que honestidade não é ingenuidade; enquanto houver quem trabalhe sem transformar o próximo em degrau; enquanto uma pessoa preferir perder uma vantagem a perder a dignidade; enquanto alguém tiver coragem de permanecer decente mesmo quando a indecência parecer mais lucrativa, ainda haverá uma pequena chama acesa contra a escuridão.
Civilizações não são sustentadas apenas por prédios, leis, governos ou riquezas. São sustentadas por valores invisíveis: palavra empenhada, respeito, gratidão, compaixão, responsabilidade, coragem e caráter.
A pergunta decisiva não é quando começa a queda de uma sociedade.
É outra:
quando percebemos que ela começou a cair, de que lado escolhemos permanecer?

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