sábado, 29 de agosto de 2026

Padre Mello: um santo? - Um chamamento aos leitores

 

Documentos, testemunhos e memórias abrem uma investigação sobre a antiga fama de santidade do sacerdote açoriano






Padre Mello: um santo?

Uma mensagem chegada ao Jornal O Norte Fluminense, vinda da cidade do Rio de Janeiro, trouxe uma pergunta que, embora formulada em poucas palavras, parece abrir uma porta para quase oitenta anos de história, fé e memória:

- A elevação da Igreja Matriz a Santuário teria alguma relação com Padre Mello?

E o remetente acrescentou uma observação ainda mais provocadora:

- Não me espantaria se começassem a aparecer milagres atribuídos a ele...

Depois, como quem percebe a dimensão da própria hipótese, completou:

 - Já imaginava! Quem sabe daqui a algum tempo se começa a juntar documentação comprobatória... Imagina o Bem-aventurado Padre Mello...

Não sabemos o que o futuro reservará a essa indagação.

É indispensável registrar, desde logo, que a elevação da Igreja Matriz à condição de Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia não significa qualquer reconhecimento eclesiástico da santidade de Padre Antônio Francisco de Mello.

Mas a mensagem recebida pelo jornal despertou outra pergunta, esta de natureza essencialmente histórica:

Padre Mello já era considerado santo pelo povo?

Para começar a procurar a resposta, é necessário voltar a uma tarde chuvosa de agosto de 1947.

“Santo Antônio Mello de Bom Jesus!”

Padre Mello faleceu em 13 de agosto de 1947.

Naquele momento de profunda comoção, seu pupilo Octacílio de Aquino escreveu para O Norte Fluminense um texto que hoje adquire extraordinário valor documental.

Não se tratava de alguém olhando para Padre Mello à distância de muitas décadas, envolvido pelas névoas que o tempo às vezes deposita sobre os personagens históricos. Octacílio escrevia praticamente diante do túmulo recém-fechado.

E escreveu:

“Mas o Padre Mello não morreu!”

Depois de afirmar que sua matéria retornara ao pó e que seu espírito demandara o verdadeiro lugar, concluiu com palavras impressionantes:

“Se da terra desapareceu um homem, surgiu no céu mais um santo: Santo Antônio Mello de Bom Jesus!”

A frase atravessou quase oito décadas.

E chegou até nós.

Naturalmente, Octacílio de Aquino não possuía autoridade para proclamar santo quem quer que fosse. Aquela era uma manifestação de admiração, fé e afeto de um homem profundamente tocado pela vida do sacerdote.

Mas, para o historiador, existe ali algo precioso: um documento praticamente contemporâneo à morte de Padre Mello empregando explicitamente a palavra “santo” para defini-lo.

E não apenas isso.

No mesmo texto, Octacílio escreveu que naquele sacerdote haviam se enraizado os ensinamentos de Jesus e que ele repartia com seus paroquianos as graças que, por sua bondade e suas virtudes, “alcançava dos céus”.

Não é prova de milagre. Não é processo de beatificação. Não é pronunciamento da Igreja.

Mas é história.

E história escrita no calor da despedida.

A pobreza do último quarto

Há ainda uma imagem que talvez diga sobre Padre Mello mais do que muitas páginas.

O sacerdote que ajudara a erguer uma das mais belas edificações de Bom Jesus terminou seus dias num pequeno imóvel ao lado da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes.

Um quarto.

Uma sala.

Um banheiro.

Pouco para um homem que havia realizado tanto.

Ou talvez imensamente significativo para compreender quem foi aquele homem.

Padre Mello morreu pobre em 13 de agosto de 1947.

Quem cuidou dele em seus últimos dias foi Francisca Menezes, a Chiquita Menezes.

Ruth Fragoso deixou registrado, em depoimento a O Norte Fluminense, que Chiquita era uma mulher profundamente caridosa. Cuidava dos doentes abandonados nas ruas, levava crianças ao catecismo, auxiliava a Igreja e permaneceu ao lado do velho sacerdote quando a doença chegou.

Outro depoimento, de Isabel Fragoso, ao O Norte Fluminense, acrescentou uma informação particularmente sugestiva: segundo ela, Chiquita dizia que Padre Mello tinha “ares de santidade”.

Mais uma vez, é necessário compreender exatamente o significado dessas palavras. São testemunhos de memória e de percepção religiosa popular, não declarações canônicas.

Mas os indícios começam a formar um desenho.

Octacílio de Aquino o chamou de santo em 1947.

Chiquita Menezes, segundo testemunho preservado, enxergava nele ares de santidade.

E sua memória religiosa não desapareceu com sua morte.

1947-1955: os anos que podem revelar uma fama de santidade

A pista mais importante da investigação talvez esteja agora na imprensa produzida entre 1947 e 1955.

Padre Mello morreu em 13 de agosto de 1947. Em 1953, apenas seis anos depois, houve inclusive a inauguração de seu busto e a distribuição de suas poesias.

Se surgiu espontaneamente entre os bonjesuenses uma fama popular de santidade, é bastante provável que algum vestígio tenha permanecido nas páginas daquele período.

Expressões como “santo sacerdote”, “santo padre”, “virtuoso sacerdote”, “graças”, “proteção”, “intercessão”, “milagre” ou referências a orações “junto ao seu túmulo” poderão ser pistas preciosas.

Às vezes, uma única palavra encontrada num velho jornal é capaz de iluminar décadas de silêncio.

Padre Mello: uma memória que permanece viva na fé popular

A memória do sacerdote continuou atravessando as gerações.

A Diocese de Campos registra sua presença histórica ligada à Festa da Coroa do Divino, tradição religiosa à qual Padre Mello esteve profundamente vinculado. O Vatican News, ao tratar da Festa do Divino em Bom Jesus, igualmente documenta a permanência das tradições de piedade popular introduzidas pelo sacerdote açoriano.

O homem morreu.

Algumas de suas tradições, não.

Do túmulo onde rezava ao túmulo onde se reza

Há um detalhe histórico fascinante que acrescenta outra dimensão a essa investigação.

O próprio Padre Mello tinha o hábito de rezar junto ao túmulo do sacerdote de Calheiros, Padre João Mendes Ribeiro, conhecido como Padre Preto.

Em carta datada de 5 de novembro de 1916, Padre Mello relata que, desde sua chegada a Bom Jesus, costumava ir, no Dia de Finados, às três horas da tarde, rezar junto à sepultura daquele sacerdote, lamentando o esquecimento de sua memória.

A imagem é extraordinária.

Um padre ajoelhado diante do túmulo de outro padre, recusando-se a permitir que o tempo apagasse sua lembrança.

Décadas depois, a história parece inverter delicadamente os papéis.

É o próprio túmulo de Padre Mello que se transforma em lugar especial de memória.

O túmulo que permaneceu entre o povo

Muitas pessoas morrem e lentamente desaparecem da paisagem.

Padre Mello fez o caminho inverso.

Seu corpo repousa dentro da própria Igreja Matriz, na Capela do Divino Espírito Santo.

Existe nisso uma das imagens mais belas de sua história.

O homem que durante décadas entrou naquela igreja para celebrar missas, ouvir confissões, rezar, aconselhar e conduzir seu rebanho se encontra nela depois da morte.

O pastor não foi embora.

Silenciou.

E ficou.

Gerações passaram diante daquele túmulo, na Capela do Cemitério e na Capela da Igreja Matriz. Crianças tornaram-se adultos. Adultos envelheceram. Famílias desapareceram e outras nasceram. Bom Jesus transformou-se.

E Padre Mello permaneceu.

Em 13 de agosto de 2024, quando uma Insígnia Autonômica de Reconhecimento dos Açores foi colocada junto ao seu túmulo e à Coroa do Divino Espírito Santo, aquele espaço demonstrou novamente que deixara de ser apenas o lugar onde repousam restos mortais.

Tornara-se também lugar de memória.

A Matriz também fala

Existe ainda outro testemunho.

Ele não está escrito em papel.

Está escrito em pedra.

É impossível contemplar a Igreja Matriz de Bom Jesus do Itabapoana sem encontrar Padre Mello.

O sacerdote açoriano trouxe para o coração da cidade uma espécie de poesia arquitetônica.

No ponto mais destacado da Praça Governador Portela, sua obra continua falando.

As torres parecem levantar os olhos da cidade para o céu. A fachada atravessa gerações. E cada detalhe recorda que, muito antes de sermos passageiros deste tempo, alguém sonhou que a fé poderia ganhar forma, altura, beleza e permanência.

Agora, a Matriz se prepara para uma nova etapa de sua história como Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia.

E eis que, justamente neste momento, uma mensagem chegada do Rio de Janeiro nos obriga a olhar novamente para o homem que tanto marcou aquele templo.

Coincidência?

Talvez.

A História também gosta de suas delicadas coincidências.

Faltam os milagres?

A pesquisa realizada até agora permite uma constatação fascinante, mas exige prudência.

Ainda não localizamos registro documental inequívoco de alguém afirmando:

“Pedi a intercessão de Padre Mello e alcancei esta graça.”

Também não encontramos notícia de processo formal de beatificação ou canonização.

Portanto, seria incorreto afirmar aquilo que os documentos ainda não nos permitem afirmar.

Mas encontramos algo diferente e historicamente importante: indícios de uma fama popular de santidade que remontam ao próprio momento de sua morte.

E é justamente aí que uma nova investigação deve começar.

Podem existir, guardados nas gavetas das famílias bonjesuenses, cartas, santinhos, fotografias, bilhetes e anotações.

Podem existir histórias que jamais chegaram aos jornais.

Pode haver idosos que ouviram de seus pais ou avós relatos sobre Padre Mello.

Podem existir lembranças de pessoas que visitavam seu túmulo, depositavam flores, faziam orações, cumpriam promessas ou pediam sua proteção.

A história oral, muitas vezes, dorme dentro das casas antes de chegar aos arquivos.

Talvez seja hora de acordá-la.

Padre Mello: um santo?

A Igreja Católica possui seus próprios caminhos, critérios e procedimentos para responder a uma pergunta dessa magnitude. A santidade canônica não nasce de uma crônica, de uma tradição afetiva nem simplesmente da admiração de um povo.

Mas existe também a história daquilo que o povo acreditou, sentiu, rezou e transmitiu.

E essa história merece ser investigada.

Quase oitenta anos depois daquela tarde de 13 de agosto de 1947, as palavras de Octacílio de Aquino continuam ecoando:

“Santo Antônio Mello de Bom Jesus!”

Não sabemos se algum dia a Igreja colocará diante do nome de Antônio Francisco de Mello o título de Servo de Deus, Venerável, Bem-aventurado ou Santo. Isso pertence a outro campo, a outro tempo e, para aqueles que creem, aos desígnios de Deus.

Ao jornal cabe tarefa diferente.

Procurar documentos.

Preservar testemunhos.

Ouvir os mais antigos.

Abrir arquivos.

Comparar fontes.

E impedir que a memória desapareça.

Talvez, portanto, a pergunta recebida do Rio de Janeiro não precise, por enquanto, de resposta.

Talvez precise apenas permanecer aberta.

Padre Mello: um santo?

A História começa a procurar.

E Bom Jesus talvez ainda tenha muito a contar.

Chamamento aos leitores

O Norte Fluminense convida as famílias e todos aqueles que possuam relatos antigos, documentos, fotografias, cartas, bilhetes ou testemunhos relacionados a graças alcançadas, orações, promessas, visitas ao túmulo ou à fama de santidade de Padre Antônio Francisco de Mello a entrarem em contato com o jornal pelo endereço eletrônico onorteflumimense@hotmail.com.

Também são especialmente importantes as memórias transmitidas oralmente por pais, avós e outros familiares ao longo das gerações. Mesmo um relato aparentemente simples, uma oração, uma visita ao túmulo, uma promessa, uma graça atribuída ao sacerdote ou uma história ouvida na infância, poderá representar uma peça preciosa para a reconstrução dessa memória histórica e religiosa.

Porque a memória de um povo não vive apenas nos arquivos. Vive também naquilo que as famílias guardam, geração após geração, no coração.


Pequeno imóvel ao lado da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, onde Padre Mello morreu pobre: um quarto, uma sala, um banheiro 


Ruth Fragoso 

Francisca Menezes, conhecida como Chiquita Menezes  

Isabel Fragoso 

Dr. Nino Moreira Seródio, a Insígnia Açoriana, Padre Mello, a Festa do Divino e Bom Jesus do Itabapoana: “juntos para sempre”, como bem definiu o Dr. José Andrade, Diretor Regional do Governo dos Açores

Octacílio de Aquino 


O açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves diante do túmulo de seu conterrâneo, Padre Antônio Francisco de Mello, na Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus 





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