sábado, 29 de agosto de 2026

Maria Beatriz Silva, a Guardiã da Memória de Laje do Muriaé

 

Aos 13 anos, o Centro Cultural Maria Beatriz mantém viva a história de uma cidade e planta nas crianças a certeza de que preservar o passado é também construir o futuro.

Maria Beatriz Silva pertence à estirpe de pessoas que impedem que a história da cidade passe e desapareça.

Escritora, poeta, educadora e ativista cultural, ela transformou o amor por Laje do Muriaé em missão. Durante anos, recolheu fotografias, documentos, livros, objetos, relatos e lembranças que poderiam ter desaparecido silenciosamente com o passar das gerações.

Até que, em 21 de agosto de 2013, durante o 4º Circuito Cultural Arte Entre Povos, um antigo sonho ganhou endereço e existência: nascia o Centro Cultural Maria Beatriz, CCMB.

Treze anos depois, aquele sonho continua de portas abertas.

Mais do que isso: tornou-se um lugar onde Laje do Muriaé encontra a própria Laje do Muriaé.

Atualmente instalado na Rua Alferes Bastos, 132, altos, o Centro Cultural reúne biblioteca, fotografias antigas, documentos históricos, objetos, pinturas retratando a Laje de outros tempos, a Sala Cândido Portinari e diferentes testemunhos da trajetória cultural do município.

Mas Maria Beatriz não criou um depósito de antiguidades.

Criou uma ponte.

De um lado estão aqueles que viveram antes de nós.

Do outro, as crianças que estão chegando.

E sobre essa ponte caminha a memória.

“Esta história também é minha”

É justamente quando fala das crianças que os olhos de Maria Beatriz parecem traduzir o sentido maior de sua obra.

- É uma felicidade receber crianças neste espaço.

O Centro Cultural mantém parceria informal e permanente com as escolas. Maria Beatriz acompanha projetos, sugere atividades, auxilia na elaboração de roteiros, visita estabelecimentos de ensino e realiza palestras.

Participa de iniciativas como “Saberes do Nosso Chão”, da Secretaria Municipal de Educação, para a qual chegou a compor uma música; “O Chão que Conta e Encanta”, do Jardim de Infância; e “Potência da Mulher”, projeto estadual desenvolvido no CIEP.

Criou ainda o sugestivo “Pequeno Guardião da História”.

Não poderia existir nome mais apropriado.

Maria Beatriz sabe que preservar documentos é importante, mas formar pessoas que compreendam o valor desses documentos é ainda mais importante.

Seu desejo é que cada criança, depois de visitar o Centro Cultural, possa olhar para tudo aquilo e pensar:

“Esta história também é minha.”

Nesse instante nasce o pertencimento.

E quem aprende a pertencer aprende também a preservar.


Uma boneca de palha e mais de um século de memória



Entre os objetos guardados no Centro Cultural existe uma pequena peça capaz de resumir toda essa filosofia.

Uma boneca de palha de milho.

Foi doada, segundo Maria Beatriz, por Dona Maria Clara, a Dona Clarinha, figura importante da história do município, ligada à Educação e à Cultura e já falecida.

A história transmitida junto com a peça impressiona.

Segundo esse relato familiar, a boneca teria sido confeccionada por uma mulher escravizada que viveu com a mãe de Dona Clarinha. Se confirmada a tradição oral e sua cronologia, o objeto ultrapassa um século de existência.

Quantas mãos tocaram aquela boneca? Quantas casas conheceu? Quantas pessoas que a contemplaram já partiram?

A palha sobreviveu.

E sobreviveu porque, em algum momento, alguém percebeu que aquilo não era simplesmente um brinquedo velho.

Era memória.

Dona Clarinha também destinou ao Centro Cultural documentos de seu acervo, acrescentando novas páginas à história que Maria Beatriz procura preservar.

Cultura mantida pela própria comunidade

Há, contudo, um aspecto dessa história que deveria provocar reflexão.

O Centro Cultural não conta com estrutura financeira pública permanente.

Para pagar aluguel, água, luz e demais despesas, realizam-se rifas. Há voluntários. Há colaboração da comunidade. Há pessoas que compartilham aquilo que podem.

E há, sobretudo, a persistência de Maria Beatriz.

É com esse esforço que permanece funcionando aquele que ela aponta como o único espaço cultural dessa natureza no município.

Existe algo ao mesmo tempo belo e inquietante nessa realidade.

Uma comunidade faz rifas para ajudar a manter viva a própria memória.

A beleza está na solidariedade.

A inquietação está em perceber como iniciativas fundamentais para a identidade de uma cidade ainda dependem tanto do sacrifício pessoal de quem decidiu não desistir delas.


Duas paixões: Saúde e Cultura


Santa Beatriz Silva é patrona do CCMB

Maria Beatriz não vive apenas entre livros e documentos.

Há 42 anos é servidora pública e atua na área de regulação municipal e planejamento da Saúde.

Quando resume sua trajetória, menciona duas paixões: a Cultura e a Saúde.

Elas estão mais próximas do que parece.

A Saúde cuida da continuidade da vida.

A Cultura cuida da continuidade daquilo que dá sentido à vida.

Uma preserva pessoas.

A outra preserva aquilo que as pessoas construíram, sonharam, amaram e deixaram como herança.


Quando Laje virou “Felicidade”



A literatura também ocupa lugar central nessa caminhada.

Poeta e escritora, Maria Beatriz define a poesia como uma maneira de conversar com a alma. Seus textos transitam pela fé, esperança, amor, sentimentos e experiências transformadoras.

E existe uma curiosa ligação entre Laje do Muriaé e a literatura brasileira que ela gosta de recordar.

O escritor Domingos Pellegrini esteve em Laje durante cerca de uma semana e encontrou no município inspiração para uma de suas narrativas, A Árvore que dava dinheiro", dando à cidade ficcional o nome de Felicidade.

É difícil imaginar nome mais literário.

Toda cidade que consegue preservar suas histórias conserve também alguma forma de felicidade.


O sonho de não ser a última guardiã



Mas existe uma preocupação que atravessa as palavras de Maria Beatriz.

Depois de 13 anos, ela deseja ampliar o Centro Cultural. Quer que a população valorize ainda mais o espaço. Sonha em vê-lo consolidado como verdadeiro polo de cultura e memória.

Acima de tudo, deseja continuidade.

Ao O Norte Fluminense, resumiu:

 - Nesses 13 anos consegui colaborar com o resgate de nossa história. Alegria maior é transmitir para as crianças. Gostaria de ampliar porque temos cultura grandiosa. Hoje eu faço. Gostaria que alguém surgisse para dar continuidade ao trabalho.

A frase merece ser ouvida com atenção.

Porque todo guardião da memória carrega uma inquietação: quem guardará depois de mim?

Essa é a pergunta que Maria Beatriz silenciosamente entrega hoje a Laje do Muriaé.

Ela recolheu fotografias.

Guardou documentos.

Preservou objetos.

Ouviu os mais velhos.

Pesquisou histórias.

Escreveu.

Fez palestras.

Foi às escolas.

Recebeu estudantes.

Criou projetos.

Abriu portas.

E continua abrindo.

Mas patrimônio cultural somente permanece verdadeiramente vivo quando deixa de ser missão de uma pessoa e passa a ser compromisso de uma comunidade.


O chão onde a história cria raízes



Maria Beatriz chama Laje do Muriaé de “meu rincão”.

É uma palavra pequena para uma relação imensa.

Ela sabe que uma cidade não é apenas o conjunto de ruas, prédios, praças e casas que conseguimos enxergar.

Uma cidade também é feita daquilo que já não vemos.

Das vozes que se calaram. Dos costumes que desapareceram. Das famílias que partiram. Das histórias contadas pelos avós. Dos retratos amarelados guardados em gavetas. Dos objetos cuja utilidade ninguém mais conhece. Das cartas que alguém quase jogou fora.

Tudo isso forma aquilo que somos.

Por isso é possível resumir toda a obra de Maria Beatriz numa sequência:

MEMÓRIA → IDENTIDADE → PERTENCIMENTO → EDUCAÇÃO → LITERATURA → CRIANÇAS → CULTURA → FUTURO.

No final, voltamos à pequena boneca de palha de milho.

Ela atravessou décadas silenciosamente.

Sobreviveu às pessoas que a conheceram, às casas onde esteve, às mudanças da cidade e ao próprio tempo.

Até encontrar abrigo no Centro Cultural.

Ali, deixou de ser simplesmente uma boneca.

Transformou-se em testemunha.

É exatamente isso que Maria Beatriz Silva vem fazendo há 13 anos: dando voz às testemunhas silenciosas da história de Laje do Muriaé.

Para que o passado não desapareça. Para que as crianças conheçam suas raízes. Para que a cidade reconheça a própria identidade. E para que, muito depois de nós, alguém ainda possa olhar para aquele chão e compreender:

ali não estão apenas as marcas daqueles que partiram.

Ali estão as raízes daqueles que ainda virão.
















































Entrevista com Maria Beatriz Silva 


Quem é Maria Beatriz Silva?

Sou Maria Beatriz Silva, escritora, poeta e ativista cultural de Laje do Muriaé. Minha trajetória sempre esteve muito ligada à educação, à cultura, à literatura e à valorização das pessoas e das histórias da nossa terra. Sou formada em Letras e Pedagogia e, ao longo dos anos, fui descobrindo que a literatura e a cultura poderiam ser instrumentos para aproximar as pessoas e preservar aquilo que muitas vezes corre o risco de ser esquecido.

Como surgiu a ideia de criar o Centro Cultural?

​O Centro Cultural nasceu de um desejo muito profundo de preservar a memória de Laje do Muriaé. Percebi que muitas histórias estavam guardadas apenas na lembrança das pessoas, principalmente dos mais velhos. E aquilo que não é registrado pode desaparecer com o tempo. Então comecei a reunir fotografias, livros, objetos, documentos, histórias e lembranças da nossa comunidade. O Centro Cultural foi crescendo junto com esse sonho. (amor, memória, pertencimento, preservação)

Qual é a principal missão do Centro Cultural?

​Eu costumo dizer que o Centro Cultural não é apenas um lugar onde estão guardadas coisas antigas. É um espaço para preservar, ensinar e compartilhar. Quero que uma criança entre ali e descubra que a história de sua cidade também faz parte da história dela.

O que podemos encontrar no Centro Cultural?

​Temos uma biblioteca, exposição permanente de quadros com pinturas da nossa Laje antiga, fotografias antigas, sala Cândido Portinari, objetos e documentos relacionados à história e à cultura de Laje do Muriaé. Também procuramos valorizar artistas e escritores da nossa região. É um espaço simples, mas construído com muito amor e dedicação.

Por que preservar a história de uma cidade pequena é tão importante?

​Porque uma cidade não é feita apenas de ruas e prédios. Ela é feita de pessoas, lembranças, costumes, histórias, sonhos e acontecimentos. Quando conhecemos nossas raízes, compreendemos melhor quem somos. Uma cidade sem memória perde sua própria identidade.

Como o Centro Cultural trabalha com as escolas?

​Uma das coisas que mais me emociona é poder receber as crianças. Tenho participado e colaborado de projetos das escolas como “Saberes do Nosso Chão”, projeto da Secretaria Educação, levando os estudantes a conhecerem a história e a cultura do município. Trabalhamos também com propostas como “O chão que conta e encanta” projeto do Jardim de Infância, Potência da Mulher, projeto da SEEDUC desenvolvido no CIEP e o “Pequeno Guardião da História” que é um projeto meu. Acredito que a criança precisa conhecer sua cidade desde cedo para aprender a amar cuidar e respeitar.

O que significa ser uma “guardiã da memória” de Laje do Muriaé?

​É uma expressão que recebo com muito carinho, mas também como uma responsabilidade. Ser guardiã da memória é ouvir, pesquisar, registrar e compartilhar. É olhar para uma fotografia antiga e perguntar: Quem são essas pessoas? Que história existe por trás dessa imagem? É tentar impedir que essas histórias desapareçam.

A senhora também é escritora. Como a literatura entrou nessa história?

​A literatura sempre caminhou comigo. Escrever é uma forma de registrar sentimentos, pensamentos e experiências, mas também é uma maneira de tocar o coração de outras pessoas. A poesia me permite transformar aquilo que sinto em palavras. E acredito que a literatura pode abrir portas dentro de nós que, muitas vezes, nem sabíamos que existiam.

​O que a poesia representa para a senhora?

​A poesia é uma forma de conversar com a alma. Às vezes escrevemos aquilo que não conseguimos dizer numa conversa. Minha poesia fala muito de sentimentos, esperança, amor, fé, vida e também das experiências que nos transformam.

​O Centro Cultural recebe apoio público?

​Não. O Centro Cultural é mantido principalmente através de muito trabalho voluntário e dedicação. Não é simples manter um espaço cultural sem uma estrutura financeira permanente. Mas existe algo que não tem preço: a vontade de fazer acontecer. Cada pessoa que visita, cada criança que aprende alguma coisa, cada história que conseguimos preservar faz todo o esforço valer a pena.

​Qual é o maior sonho para o Centro Cultural?

​Meu maior sonho é que esse trabalho tenha continuidade. Que outras pessoas compreendam a importância de preservar nossa memória e possam continuar esse caminho. Quero que o Centro Cultural seja cada vez mais um espaço de encontro entre memória, literatura, educação e cultura.

​O que a senhora gostaria que as crianças aprendessem ao visitar o Centro Cultural?

​Gostaria que elas saíssem daqui pensando: Esta história também é minha. Que tenham orgulho de suas raízes e entendam que cada fotografia, cada objeto, cada história de uma pessoa mais velha pode ensinar alguma coisa.

​O que Laje do Muriaé representa para a senhora?

​Laje do Muriaé é o meu rincão. E o chão onde nasci e vivo guarda muito mais do que aquilo que os olhos conseguem enxergar. Guarda grandes histórias, pessoas, afetos, lutas e conquistas. Por isso gosto tanto da expressão "Saberes do Nosso Chão".

​MEMÓRIA \rightarrow IDENTIDADE \rightarrow PERTENCIMENTO \rightarrow EDUCAÇÃO \rightarrow LITERATURA \rightarrow CRIANÇAS \rightarrow CULTURA \rightarrow FUTURO.

Maria Beatriz, que mensagem você gostaria de deixar?

​Eu acredito que cada cidade possui tesouros que nem sempre estão nos museus. Eles estão nas lembranças das pessoas, nas fotografias antigas, nos livros, nas histórias contadas pelos nossos avós e nos costumes que recebemos de nossos antepassados. O meu desejo é ajudar a preservar esses tesouros e entregá-los às novas gerações. Porque o chão onde a gente nasce não é apenas o lugar onde nossos pés pisam. É o lugar onde nossa história cria raízes.





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