Existem vitórias que revelam quem somos
Karpov levou consigo um presente extraordinariamente simples: um jogo de xadrez
O maior lance aconteceu longe do tabuleiro

Karpov dirigiu-se ao edifício central da polícia em Moscou

Durante décadas, Anatoly Karpov, e Garry Kasparov sentaram-se frente a frente separados por apenas 64 casas.
Talvez nenhum tabuleiro tenha suportado tanta tensão.
De um lado, Karpov: preciso, silencioso, paciente, capaz de apertar lentamente uma posição até que o adversário percebesse que já não havia saída. Do outro, Kasparov: tempestade, energia, cálculo, ataque, uma força que parecia querer incendiar o tabuleiro.
Foram adversários muito além do xadrez.
Seus confrontos pelo Campeonato Mundial transformaram-se em acontecimentos históricos. Entre 1984 e 1990, disputaram cinco matches e 144 partidas, construindo uma das maiores rivalidades que o esporte conheceu.
Durante anos, um estudou o outro procurando fraquezas.
Um preparou novidades para surpreender o outro. Um sonhou com a derrota do outro.
Até que chegou novembro de 2007.
E, naquele dia, não havia tabuleiro.
Kasparov já havia abandonado o xadrez profissional e mergulhado na oposição política ao governo russo. Após participar de uma manifestação em Moscou, foi detido e condenado a cinco dias de prisão.
A notícia correu pela Rússia.
E chegou a Anatoly Karpov.
Então aconteceu algo que nenhum livro de aberturas poderia prever.
Karpov decidiu visitar Kasparov na prisão.
O homem que tantas vezes atravessara salões para sentar-se diante de Kasparov como adversário atravessava agora Moscou para tentar encontrá-lo como ser humano.
E levou consigo um presente extraordinariamente simples.
Xadrez.
Karpov providenciou uma assinatura da revista 64 para que o antigo rival pudesse ler sobre o jogo que havia unido, e separado, suas vidas.
Há gestos cujo significado é muito maior do que o objeto oferecido.
Aquela revista parecia dizer:
“Podem existir grades entre você e a rua, mas ninguém pode aprisionar as 64 casas que carregamos dentro de nós.”
Karpov chegou ao centro de detenção.
Mas a porta não se abriu.
As autoridades impediram sua entrada, alegando razões burocráticas.
E então ocorreu talvez a imagem mais simbólica de toda aquela história.
Karpov ficou do lado de fora.
O antigo campeão mundial, tantas vezes apresentado como contraponto de Kasparov, permaneceu diante daquela porta fechada.
Naquele instante, alguma coisa extraordinária aconteceu.
O relógio de xadrez parou. Os reis deixaram de ser inimigos. As peças desapareceram. Não existia mais Karpov contra Kasparov. Existiam Anatoly e Garry.
Dois homens que haviam passado uma parte imensa de suas vidas procurando a melhor maneira de derrotar um ao outro descobriram que existem momentos em que o adversário deixa de ser adversário porque a vida coloca diante dos dois um tabuleiro muito maior.
Kasparov seria libertado.
E soube do gesto.
Aquilo o tocou profundamente.
Talvez porque conhecesse melhor do que ninguém o significado daquele homem ter ido até lá.
Um desconhecido poderia oferecer solidariedade.
Um amigo poderia oferecer solidariedade.
Mas quando ela vem daquele que durante tantos anos foi o seu maior rival, adquire outra dimensão.
O respeito entre grandes adversários possui uma beleza particular.
Eles conhecem nossas forças. Conhecem nossas fraquezas. Assistiram às nossas derrotas. Sofreram nossas vitórias.
E, sobretudo, sabem quanto custou chegar até ali.
Karpov e Kasparov haviam disputado campeonatos, títulos, prestígio e um lugar na História.
Mas naquela tarde de Moscou nenhum deles precisava provar quem era o melhor enxadrista.
A vida havia colocado diante de Karpov uma posição muito mais simples e, paradoxalmente, muito mais importante.
Havia apenas duas possibilidades:
ir ou não ir.
Karpov foi.
Certamente esse foi um dos movimentos mais belos de sua carreira.
Não aparece nas bases de dados. Não possui notação algébrica. Não recebeu exclamação nos livros de xadrez. Não foi jogado com torre, bispo ou cavalo. Foi realizado com algo muito mais difícil de movimentar:
o coração.
Os campeões envelhecem. Os títulos mudam de mãos. Os troféus acumulam poeira. Até as partidas imortais, um dia, passam a pertencer aos livros.
Mas determinados gestos perseveram.
E aquela porta fechada de Moscou acabou revelando uma porta muito maior que se havia aberto entre dois homens.
Depois de tantas batalhas, Karpov não conseguiu entrar na cela de Kasparov.
Mas conseguiu chegar até ele.
E essa é uma das mais belas lições que o xadrez pode oferecer à própria vida:
adversário não significa inimigo.
Podemos lutar com todas as nossas forças diante do tabuleiro e, terminada a partida, reconhecer a humanidade daquele que esteve do outro lado.
Existem vitórias que concedem títulos. Existem vitórias que entram para a História. E existem aquelas, raríssimas, que revelam quem somos.
Em novembro de 2007, Karpov não deu xeque. Não capturou nenhuma peça. Não venceu Kasparov. Fez algo maior:
foi ficar ao lado dele.
E assim, depois de 144 partidas entre dois reis do xadrez, um dos lances mais memoráveis de toda a rivalidade aconteceu justamente quando já não havia tabuleiro algum.
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