Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia atualiza seu brasão oficial e reúne, em símbolos e cores, a fé, a história e as tradições religiosas de Bom Jesus do Itabapoana
Um brasão pode ser apenas um conjunto de cores, metais e figuras. Mas existem brasões que parecem guardar dentro de si a própria biografia de um povo.
É assim que se pode contemplar a atualização do brasão oficial do Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia, em Bom Jesus do Itabapoana. Mais do que uma composição heráldica, ele se apresenta como uma espécie de oração desenhada: cada cor recorda uma entrega, cada símbolo recupera uma tradição, cada elemento conduz a uma página da história religiosa bonjesuense.
O campo de goles, o vermelho, é a primeira voz desse conjunto simbólico. Na tradição heráldica eclesiástica, recorda o fogo da caridade divina, a presença do Espírito Santo, o amor generoso e o sangue do martírio. No brasão bonjesuense, porém, o vermelho parece adquirir uma força ainda mais próxima: conduz imediatamente ao Senhor Bom Jesus, à Paixão de Cristo, ao sacrifício daquele que, por amor, transforma a dor em redenção.
Ao centro ergue-se a Cruz de Ouro.
E nenhum outro símbolo poderia ocupar esse lugar.
A cruz atravessa séculos, gerações e famílias. Diante dela rezaram os antepassados; diante dela continuam rezando filhos e netos. O ouro, na linguagem heráldica, anuncia realeza, nobreza, pureza da fé e soberania divina. Assim, a cruz dourada parece dizer silenciosamente que muitas coisas passam pela história, mas determinadas raízes espirituais permanecem.
Ali também se encontram a Coroa Real e a Coroa de Espinhos, aproximando duas dimensões aparentemente opostas e profundamente cristãs: a glória e o sofrimento. O Senhor Bom Jesus é Rei, mas é o Rei coroado de espinhos; reina justamente porque transforma o sofrimento em amor.
E é nesse ponto que surge delicadamente Santa Rita de Cássia, Co-Padroeira da Paróquia.
A santa das causas impossíveis carrega em sua própria experiência mística a memória da Paixão. Segundo a tradição católica, recebeu na fronte o estigma de um espinho da coroa de Cristo. No brasão, portanto, Senhor Bom Jesus e Santa Rita encontram-se não apenas pela devoção do povo, mas pela linguagem comum da entrega, da dor e da esperança.
Há, contudo, símbolos que parecem nascer diretamente da alma bonjesuense.
A Coroa, o Cetro e a Pomba transportam para o brasão a secular Festa da Coroa e do Divino Espírito Santo, tradição que, segundo a descrição apresentada pela Paróquia, palpita na comunidade desde 1863.
Então a heráldica deixa quase de ser desenho e começa a adquirir som.
É possível ouvir novamente as bandas, os sinos, as procissões, as orações, as vozes das famílias e os passos de sucessivas gerações acompanhando a Festa do Divino.
E sobre essa memória voa a Pomba, representação do Espírito Santo, a poética “Alva Pomba” cantada no hino local. É símbolo de paz, mas também de continuidade. Porque certas tradições somente atravessam mais de um século quando deixam de pertencer a uma pessoa ou a uma geração para se tornarem patrimônio afetivo de toda uma comunidade.
Por fim, atrás do escudo ergue-se a Cruz Processional com Jóias, apresentada como distintivo próprio das armas paroquiais, indicando a dignidade, a estabilidade e a identidade eclesiástica da comunidade.
Eis aí a beleza maior desse brasão. Ele não foi concebido apenas para ser observado. Foi feito para ser lido.
Quem conhece Bom Jesus do Itabapoana poderá encontrar nele fragmentos de sua própria memória: o Senhor Bom Jesus, Santa Rita, o Divino Espírito Santo, a Coroa, a cruz, a festa, a tradição e aquela religiosidade transmitida silenciosamente entre gerações.
A descrição heráldica foi subscrita pelo pároco, Pe. Rogério Cabral Caetano, em 4 de junho de 2026, Solenidade de Corpus Christi. A atualização ganha significado ainda mais especial diante da nova condição da antiga Matriz, agora elevada à dignidade de Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia.
E assim um brasão se transforma em algo maior do que um brasão. Torna-se memória. Torna-se identidade. Torna-se uma pequena janela pela qual podemos contemplar mais de um século e meio de fé.
Algumas histórias são escritas em livros. E existem aquelas que um povo consegue escrever através de seus símbolos.
No coração de Bom Jesus do Itabapoana, no meio do vermelho da entrega, o ouro da fé, a coroa, o espinho, a cruz e a Alva Pomba, permanece gravada uma certeza:
o tempo passa, as gerações se sucedem, mas a fé de um povo encontra sempre uma maneira de perdurar.

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