O xadrez é minha maneira de continuar em movimento
Envelhecer sem permitir que envelheça a vontade de fazer o próximo movimento
A idade pode avançar; a paixão não precisa se aposentar
Sempre que existir uma casa para onde mover uma peça, haverá também uma razão para acreditar que a partida da vida ainda não terminou
Manuel Álvarez é daquelas pessoas que envelhecem contando movimentos.
Aos 104 anos, quando seria compreensível que observasse a vida apenas pela janela das lembranças, ele ainda se senta diante de um tabuleiro de xadrez. E ali, entre 32 peças e 64 casas, parece dizer ao tempo que ainda existe uma partida em andamento.
Sua história com o xadrez começou quando a própria História mostrava uma de suas faces mais cruéis. Nascido em Madri, Manuel tinha cerca de 16 anos quando o irmão mais velho lhe ensinou os primeiros movimentos, em plena Guerra Civil Espanhola. Enquanto bombas caíam sobre a cidade, um jovem aprendia que havia outro tipo de batalha possível: aquela em que reis tombam sem sangue, exércitos desaparecem sem mortos e, terminada a luta, os adversários podem apertar as mãos.
Aí está uma das mais belas metáforas do xadrez.
Manuel atravessou guerras, mudanças políticas, revoluções tecnológicas, alegrias familiares, despedidas e transformações que alteraram profundamente o mundo. Conheceu pessoalmente Alexander Alekhine, um dos gigantes da história do jogo, e décadas mais tarde ainda enfrentaria fortes enxadristas soviéticos.
Mas a grande vitória de Manuel não está registrada em nenhuma súmula.
Está no sábado.
Todos os sábados, às 10 horas da manhã, ele segue para o Clube de Xadrez Valdebernardo, em Madri.
Esse detalhe aparentemente simples é, talvez, o mais comovente de sua história.
Porque chegar aos 104 anos é uma façanha da natureza. Continuar tendo um lugar para onde se deseja ir aos sábados é uma façanha da alma.
Manuel vai encontrar amigos. Vai pensar. Vai calcular variantes. Vai cometer erros, descobrir possibilidades, mover cavalos, avançar peões e talvez sorrir diante de alguma combinação inesperada.
Vai, sobretudo, continuar pertencendo ao mundo.
Seu rating, em torno de 1.720 pontos, torna-se quase um pormenor diante de outro número infinitamente mais poderoso: 104.
E quando lhe perguntam sobre o peso dos anos, ele não desafia a realidade. Reconhece que o tempo cobra seu preço. Mas acrescenta uma frase que deveria estar afixada nas paredes dos clubes de xadrez:
o xadrez é sua maneira de continuar em movimento.
Que extraordinária definição!
Existem movimentos que não se fazem com as pernas.
Movemo-nos quando aprendemos alguma coisa nova. Quando encontramos um amigo. Quando procuramos uma solução. Quando ensinamos aquilo que sabemos. Quando ainda somos capazes de nos surpreender.
E Manuel continua se movimentando.
Casou-se, teve três filhos, vieram os netos e depois os bisnetos. Agora, aquele adolescente que aprendeu xadrez enquanto Madri ouvia o estrondo das bombas transmite os segredos do tabuleiro às crianças de sua própria família.
Há algo profundamente poético nisso.
As mãos que atravessaram mais de um século agora mostram às pequenas mãos dos bisnetos como se movimenta um cavalo.
E assim o tempo fecha um círculo.
Daqui a muitos anos talvez algum desses bisnetos se sente diante de um tabuleiro e, ao tocar uma peça, recorde daquele homem de 104 anos que lhe ensinou que o xadrez não serve apenas para ganhar partidas.
Serve para fazer amigos. Para exercitar a paciência. Para manter acesa a curiosidade. Para aproximar gerações. Para permanecer vivo dentro da própria vida.
No xadrez, costuma-se dizer que o peão sonha chegar à última fileira para se transformar.
Manuel parece ter realizado o caminho inverso: depois de atravessar quase todo o tabuleiro da existência, conserva alguma coisa daquele menino de 16 anos que um dia aprendeu a jogar com o irmão.
Esse é o segredo.
Envelhecer sem permitir que envelheça a vontade de fazer o próximo movimento.
No próximo sábado, às 10 horas, haverá novamente um tabuleiro esperando por Manuel Álvarez.
As peças estarão imóveis.
O relógio estará marcando o tempo.
E um homem de 104 anos se sentará diante delas para ensinar, mais uma vez, uma silenciosa lição:
a idade pode avançar; a paixão não precisa se aposentar.
Sempre que existir uma casa para onde mover uma peça, haverá também uma razão para acreditar que a partida da vida ainda não terminou.

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