domingo, 5 de agosto de 2012

Fazenda do Bonito: Patrimônio Histórico em Pirapetinga de Bom Jesus




                                  Antiga sede da Fazenda do Bonito


A Fazenda do Bonito, localizada no distrito de Pirapetinga de Bom Jesus, foi edificada na década de 1870, tendo como mola propulsora do desenvolvimento a produção do café.

Um dos seus primeiros proprietários foi João Catarina, que exerceu a presidência da Câmara Municipal de Itaperuna (RJ), no período de 1920/1923, e foi um dos que se dedicaram à luta pela segunda emancipação de Bom Jesus do Itabapoana. 


                                                            João Catarina

Posteriormente, a propriedade foi transferida para Aulo Machado. Com o falecimento deste, a viúva Nadir Costa casou-se com Fernando Costa, que implementou grande desenvolvimento à fazenda.

Conta o atual proprietário, Jacinto Seródio, que "a fazenda era café puro e ia até o distrito da Barra do Pirapetinga, chegando a ter 250 casas de colonos. Na fazenda  havia serraria, máquina de secar café, máquina de arroz e de luz, tudo tocado a água. Recordo-me, quando criança, de ter visto cerca de 300 a 400 burros carregando café pela fazenda. Entre 200 e 250 pessoas trabalhavam em volta do terreiro. A Fazenda do Bonito disputava, na época, com a Fazenda das Areias, de Chichico das Areias".



                   Quadro da Fazenda do Bonito, de Renan Dias dos Santos
                           (Acervo do Museu da Imagem de Pirapetinga)


FARMÁCIA e TERRA DE JARARACAS


Jacinto nos leva, então, a um compartimento do casarão onde chegou a funcionar uma "farmácia ". Quem nos dá maiores informações sobre ela é Marta Lopes de Freitas, residente em Pirapetinga de Bom Jesus e que já morou na fazenda: " foi Fernando Costa quem implantou a farmácia na fazenda. Ele mandava os empregados capturarem cobras jararacas, para que pudessem fazer remédios a partir do veneno das mesmas. Devido a este fato, ele passou a criar jararacas em caixas, sendo que o veneno era mandado para o Rio de Janeiro".


                                                    professormarcostorres.blogspot.com.br

              Do veneno de jararaca se produz remédio para combater a pressão alta


Continua Marta: "quando Fernando Costa resolveu vender a fazenda, preferiu soltar todas as jararacas. Por este motivo, a região está cheia destas cobras. Minha mãe foi picada sete vezes, mas sempre tratou o veneno com chá de quiabo, com êxito. Por outro lado, recentemente, meu neto, que trabalhou na região conhecida como Espelho, plantando arroz de morro, teve de matar várias dessas cobras, mas tem receio de continuar trabalhando por lá".



RELÍQUIAS DA FAZENDA DO BONITO

 

Jacinto Seródio explica que, quando adquiriu a fazenda, há cerca de 37 anos atrás, "um alpendre que existia ao lado do casarão tinha ido ao chão. Uma parte da ala superior do casarão também tinha desabado. Fiz, então, uma espécie de varandão. As outras partes continuam intactas", ressalta. 


                               Jacinto Seródio e o interior do casarão

José Luiz da Silva, que nos dias de folga ajuda Jacinto no cuidado com a fazenda, leva-nos ao local onde havia uma grande tulha, hoje caída ao chão. Conta José Luiz que era por ali que ficava localizado o tronco dos escravos.

José Luiz relata que "na tulha, havia uma serraria e uma máquina de beneficiar café. Infelizmente ela veio abaixo. À frente do casarão, havia também uma capela onde os capuchinhos vinham celebrar missas e casamentos. Hoje, só existe a base do prédio".




                "Carrocinha": rodas de madeira de lei da época da escravatura



Na Fazenda do Bonito há uma "carrocinha de madeira" da época da escravidão: "as rodas foram feitas de madeira de lei e estão em perfeito estado até hoje. Elas foram, na época, cobertas apenas por ferro", salienta José Luiz.

Adentrando no casarão, constatamos outra raridade do tempo dos escravos: "nesta panela cozinhava-se capado e fazia-se doce", revela Jacinto.



                                                  Caldeirão do século XIX


Na fazenda, Jacinto cria atualmente gado de corte e construiu uma casa a poucos metros acima de onde está situado o histórico casarão.

Preservar com sustentabilidade indica ser o lema de Jacinto Seródio. Com efeito, ele olha para os morros e mostra, com orgulho, a mata atlântica preservada ao redor dos mesmos, e de onde vem a água que abastece a região. Em seguida, mira, com idêntico orgulho, para o valioso patrimônio histórico que está sob seus cuidados. 

Cuidando da Fazenda do Bonito, Jacinto preserva a natureza e uma parte da história de Bom Jesus do Itabapoana.



 Jacinto Seródio e o ajudante José Luiz da Silva: preservando o patrimônio histórico



FILHA DE ESCRAVOS e HISTÓRIAS

 

Rosinda Pereira de Souza Freitas nasceu em Penha, localidade de Natividade (RJ), no dia 05/04/1910. Filha de escravos, com 102 anos de idade, mora em Pirapetinga de Bom Jesus, próximo à Fazenda do Bonito. Diz ela, com dificuldade, que seus pais vieram da África, tendo seu pai trabalhado na Fazenda do Bonito e na Fazenda das Areias: " meu pai, depois de liberto, continuou trabalhando em ambas as fazendas. Foi ele quem fez, juntamente com seus companheiros, as estradas que dão para Itaperuna (RJ) e para Bom Jesus do Itabapoana".

                             Três gerações: Marta, Rosinda e Oséias


Rosinda conta histórias do tempo da escravidão: " uma velha parteira dos escravos, conhecida como Tia Lúcia, contava que, certa vez, ela estava fazendo sabão no tacho. O capataz dos escravos brigou com uma escrava e acabou jogando-a dentro do tacho de sabão e mandou que Tia  Lúcia continuasse mexendo no tacho. E a escrava virou sabão, diante da horrorizada Tia Lúcia".

Outra história contada por Rosinda: "um outro capataz mandou, como castigo, que alguns escravos cavassem em um formigueiro. As formigas começaram a atacar os escravos que, revoltados, acabaram matando o capataz, jogando-o dentro do formigueiro. O escravo que matou o senhor fugiu para a Fazenda do Bonito, passando a usar um outro nome".

Rosinda foi casada com Marins Miniano Freitas, que trabalhava na roça branca, cultivando milho, arroz e feijão. Ele faleceu há 43 anos. Tiveram 8 filhos: Marta, Dalva e Emi, que moram em Pirapetinga de Bom Jesus, Ismael e Loidi, que residem em Bom Jesus do Itabapoana, e Osvaldo e Eni, que residem em Cabo Frio (RJ). O outro filho, Melquides, é falecido. Segundo Marta Lopes, “minha mãe possui mais de 100 netos, cerca de 50 netos e outros 50 tataranetos. Cuido dela com o mesmo carinho com que ela me cuidou. Construímos aqui um lar de paz”, completou.


Um comentário:

  1. Sou bisneto de JOÃO CATARINA. Minha falecida mãe, MARIA CATHARINA PINTO, nasceu na Fazenda, a que somos ligados por genealogia.

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