segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Agora é dia ou noite?

 


Gino Martins Borges Bastos 

Uma das primeiras perguntas que eu costumava dirigir aos meus alunos de Física, logo ao entrar em sala de aula, era simples e, à primeira vista, despretensiosa:

- Agora é dia ou noite?

Eu perguntava a cada aluno, um por um. As respostas vinham seguras, rápidas, quase orgulhosas de si. Todas únicas, todas categóricas, todas vestidas da certeza que só a evidência imediata é capaz de produzir. Para eles, tratava-se de uma verdade absoluta, dessas que dispensam reflexão.

Eu anotava cada resposta no quadro, com paciência quase ritual. Ao final, vinha o silêncio expectante. Então eu dizia, para espanto geral:

- Vocês todos estão errados.

O choque era imediato. Os olhares se cruzavam, as sobrancelhas se erguiam, e a pergunta retornava em coro, agora invertida:

- Por que erramos?

Era ali que a aula começava de verdade.

Explicava, então, que o tempo não é esse objeto rígido que o senso comum imagina. Ele é relativo. Enquanto ali, naquele instante, podia ser dia no Brasil, naquele mesmo segundo era noite no Japão. A pergunta “agora é dia ou noite?” não admite resposta sem antes exigir outra, essencial: em relação a que lugar?

A simplicidade da questão escondia sua potência. Aquela pequena dúvida abria a porta para o vasto território da relatividade, não apenas do tempo, mas do movimento, da observação, do ponto de vista. A Física, aos poucos, deixava de ser um conjunto de fórmulas para se tornar uma forma de olhar o mundo.

Em seguida, entrávamos nas leis de Newton. Três princípios aparentemente sólidos, quase intuitivos, mas que, postos à prova em experiências simples e impactantes, revelavam uma verdade desconcertante: o senso comum, tantas vezes, está equivocado quando confrontado com a realidade.

A moeda que cai, o corpo que insiste em permanecer em repouso, o movimento que só se explica pela força, tudo ali ensinava mais do que Física. Ensinava desconfiança das certezas fáceis.

Levar aos alunos os princípios da Ciência era, no fundo, conduzi-los a algo maior: o exercício da consciência crítica. Não apenas para compreender fenômenos físicos, mas para aprender a perguntar antes de afirmar, a situar antes de julgar, a duvidar antes de aceitar.

Porque, assim como o dia e a noite, muitas verdades da vida também dependem do lugar de onde se olha.

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