domingo, 4 de janeiro de 2026

Quando o Jazz Me Encontrou

 Por Gino Martins Borges Bastos



Houve um tempo em que o jazz passava por mim como um idioma estrangeiro. Na juventude, eu o ouvia sem realmente escutar. Achava o ritmo disperso, quase indecifrável, e me perguntava, com certa arrogância juvenil, como alguém poderia gostar daquilo. O jazz me parecia um labirinto sem mapa.

O tempo, no entanto, tem o hábito elegante de nos desmentir.

Recentemente, ao ouvir algumas músicas de jazz com mais atenção, talvez mais silêncio interior, algo mudou profundamente em mim. Descobri que o jazz não se oferece de imediato; ele espera. E quando finalmente nos permitimos entrar, revela-se como um verdadeiro tesouro para a alma.

São sons que não gritam, mas convidam. Chamam à interiorização, à paz que não é vazia, mas cheia de sentidos. O intelecto é convocado sem esforço, quase como um jogo delicado: identificar variações, improvisos, diálogos invisíveis entre instrumentos que parecem conversar entre si. O jazz não se impõe, ele propõe.

Percebi então que o jazz é exercício. Exercício da alma que aprende a escutar, e do intelecto que aprende a sentir. Cada nota parece carregar a liberdade de quem sabe exatamente onde pode se perder.

Há ainda o visual, esse detalhe que não é detalhe. As capas dos álbuns, os títulos cuidadosamente escolhidos, a estética que envolve a música como um abraço silencioso. A arte visual não compete com o som; ela o completa. Tudo ali forma uma obra humana profunda, marcante, quase confessional.

Hoje, olhando para trás, sorrio da minha antiga incompreensão. E a pergunta que antes era cética tornou-se admirada:

como pode haver pessoas que não gostam de jazz?

Talvez ainda não tenham sido encontradas por ele.

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