| Caricatura de Padre Mello feita por seu mais brilhante pupilo, Octacilio de Aquino |
São obras distintas em época, estilo e autoria, mas que, como rios convergentes, desaguam numa mesma imagem: a de um sacerdote profundamente ligado à vida cotidiana de sua cidade. Uma construção coletiva que ecoa a máxima de Liev Tolstói, de que o universal se alcança ao pintar, com fidelidade, a própria aldeia. E Bom Jesus, ao que parece, soube pintar a sua.
A primeira dessas homenagens remonta a 13 de agosto (de 1953), data da morte do pároco. Naquele dia, entre o luto e a reverência, inaugurava-se seu busto na Praça Governador Portela. O Colégio Rio Branco, onde Padre Mello lecionou, publicou uma coletânea de seus poemas, impressa pela Gráfica Gutemberg Ltda, cujos equipamentos hoje repousam como relíquias no Espaço Cultural Luciano Bastos, guardião da memória tipográfica local.
Era nessa mesma gráfica que se imprimia o jornal O Norte Fluminense, do qual o padre era colaborador. Ali, em sua coluna “Meu Campinho”, referência ao antigo nome da cidade, Campo Alegre, ele escrevia com a ternura de quem nomeia o mundo a partir do afeto. Para ele, Bom Jesus não era apenas um lugar: era pertença.
Entre suas trovas, permanece a delicadeza:
“Quem teve amores ao longe
teve saudades ao pé;
os olhos são regadores
se o amor falso não é.”
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| Contracapa da publicação |
Décadas depois, a segunda publicação surge como um coro de memórias. Em “Padre Mello, o imortal”, a dra. Nísia Campos reúne depoimentos de contemporâneos do sacerdote. Redatora do jornal A Voz do Povo e presidente do Instituto de Letras e Artes Dr. José Ronaldo do Canto Cyrillo, Nísia compõe um retrato humano, íntimo e vívido.
Entre os testemunhos, destaca-se o de Esio Bastos, fundador de O Norte Fluminense - em 25/12/1946 - que relembra a acolhida imediata do padre à sua família recém-chegada: um gesto simples que revela a grandeza de quem fazia da cidade uma extensão de sua própria casa.
"Foi um grande colaborador de “O Norte Fluminense”. Devo ressaltar que, nos idos de 1938 (junho), quando minha família aqui chegou, a primeira visita que recebemos foi do Padre Mello. Chegamos às 6h 30m e, às 7h, ele já estava em nossa residência para dar as boas-vindas aos meus pais e a nós, então crianças. Era, como se vê, um sacerdote que se preocupava com a vida da cidade. Um verdadeiro anfitrião".
Intelectual de projeção internacional, Delton mergulhou nos arquivos dos jornais locais para resgatar textos do padre, como quem escava luz em meio ao tempo.
Em “Flor de Luz”, o poeta convida:
“Vós que viveis nas montanhas,
Quereis a glória da luz?
Vinde passear à noite
Nas ruas de Bom Jesus.”
Aqui, a cidade deixa de ser cenário e se transforma em promessa, quase um estado de espírito, onde a luz não é apenas física, mas simbólica.
A quarta publicação, organizada pela Editora O Norte Fluminense, é uma obra coral: reúne textos, poemas e fragmentos colhidos ao longo de décadas. Um mosaico de vozes que reafirma a permanência de Padre Mello na memória coletiva.
Entre os achados, destaca-se “Moribunda”, poema publicado em 1906 no jornal Itabapoana, o 1º jornal de Bom Jesus fundado em 1º/08/1906, editado por Silvio Fontoura. Os versos, impregnados de melancolia e beleza, revelam um lirismo denso, quase crepuscular, como se o autor já pressentisse a eternidade que viria a ocupar:
“Quem a conhece? Quem dirá que outr’ora
Foi um primor de graça e de candura?...”
Assim, no meio de bustos, páginas e lembranças, Padre Mello permanece. Não apenas como figura histórica, mas como presença viva, impressa na linguagem, nos gestos e na identidade de uma cidade que, ao narrá-lo, narra também a si mesma.
E talvez seja essa a maior lição: em Bom Jesus, ao pintar sua aldeia, encontrou-se o universal.
MORIBUNDA
Quem a conhece? Quem dirá que outr'ora
Foi um primor de graça e de candura?
Cheia de vida, cheia de frescura,
E tão desfeita e desmerecida agora!...
Parece aquella flor que à luz da aurora
E ao sorrir da manhã serena e pura
A fronte inclina para a terra dura,
Murcha, definha, abrocha-se e descora.
Perto lhe vem os últimos momentos;
Vai desprender-se a divinal essência
Do débil organismo em rhytmos lentos.
Olhos que a vistes rindo na innocencia
Que lágrimas tereis, em vãos lamentos,
Para chorar tão longa e triste ausência?!...
31 - 7 - 906
Pe. Mello
RUMO AO MUNDO: UM NOVO LIVRO QUE PROMETE ULTRASSAR FRONTEIRAS
Em Bom Jesus do Itabapoana, onde já se registram quatro obras dedicadas à vida e ao legado de Padre Antônio Francisco Mello, um novo capítulo começa a ser delineado. O Professor Dr. Márcio Pacheco prepara um estudo que promete ultrapassar fronteiras geográficas e intelectuais, projetando a produção do pároco açoriano para o cenário nacional e internacional. Com uma abordagem inédita, a obra propõe uma leitura filo-sócio-linguística de fatos reais convertidos em sonetos, revelando, sob rigor acadêmico e sensibilidade estética, as múltiplas camadas de sentido presentes na escrita de Padre Mello.
Voltada especialmente ao público dos países lusófonos, com destaque para os Açores, terra natal do sacerdote, a obra resgata a trajetória de um homem que, desde sua chegada ao Brasil em 18 de junho de 1899 até seu falecimento em 13 de agosto de 1947, transformou o cotidiano em matéria de poesia e luz. Intitulado “Poesias e Reflexões de um Cotidiano”, o trabalho de Márcio Pacheco não apenas revisita essa herança literária, mas a amplia com o peso de uma trajetória acadêmica extensa e multifacetada, na qual filosofia, teologia e linguagem se entrelaçam para iluminar, com lirismo e precisão, a permanência de um pensamento que ecoa além do tempo.






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