quinta-feira, 30 de abril de 2026

Nada impede que o herói de ontem seja o canalha de hoje

 


Há algo desconcertante na forma como o tempo reposiciona as pessoas. O herói de ontem, aquele que arrancava aplausos, que inspirava confiança, que parecia feito de uma matéria mais nobre, às vezes acorda, num dia qualquer, ocupando um lugar bem menos digno na memória coletiva. E não há anúncio, nem cerimônia de troca. Apenas acontece.

Talvez porque o heroísmo, quase sempre, seja um instante congelado. Um recorte bonito demais de uma história que ainda estava sendo escrita. A gente vê o gesto, a coragem, a entrega, mas não vê o que vem depois. Não vê as escolhas miúdas, os atalhos, os silêncios convenientes. E são justamente essas pequenas decisões, repetidas com descuido, que vão esculpindo outra versão da mesma pessoa.

Também há a nossa pressa em transformar gente em símbolo. Elevamos alguém ao posto de herói como se isso fosse definitivo, como se o caráter fosse uma fotografia e não um filme em movimento. Só que ninguém permanece no auge o tempo inteiro. E alguns, quando descem, não encontram o mesmo caminho de volta, ou simplesmente não querem encontrá-lo.

O mais inquietante é perceber que essa transição não exige grandes escândalos. Às vezes basta um desvio ético aqui, uma omissão ali, uma justificativa confortável acolá. Quando se percebe, o brilho virou sombra, e o que antes era admiração passa a ser um incômodo difícil de nomear.

Nada impede, de fato, que o herói de ontem seja o canalha de hoje. Mas talvez a crônica não seja sobre a queda dele, e sim sobre o cuidado que precisamos ter ao subir alguém alto demais. Porque quanto mais alto colocamos, maior é o estrondo quando a verdade resolve aparecer.

Bom Jesus do Norte: xeque à cultura, mate à memória!

Para a prefeitura, o brilho dos outros não conta. Interessa apenas aquilo que pode lhe conferir mérito imediato, visibilidade rápida, votos contáveis



Como se a história só tivesse valor quando rende fotografia, voto ou palco.

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O que leva uma prefeitura a ignorar a própria história? Talvez seja o receio do que não controla. Talvez a incapacidade de reconhecer grandeza onde não há holofotes. Uma cidade não se mede apenas por obras visíveis, mas pelas narrativas que escolhe preservar.

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A prefeitura, essa grande mestra das prioridades seletivas, parece ter preferido aplicar o xeque-mate do esquecimento.

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A caneta oficial decide o que merece memória.

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Ignorar um aniversário como esse não é apenas um descuido administrativo, é uma escolha simbólica. É dizer, ainda que em silêncio, que há histórias que não importam.

Há cidades que celebram fogos; outras, silenciosamente, celebram esquecimentos. Em Bom Jesus do Norte, ao que parece, a memória oficial tem prazo de validade, e curiosamente vence quando completa 30 anos.

Três décadas não são acaso. São períodos com silêncio concentrados, relógios suspensos sobre tabuleiros, jovens aprendendo que estratégia vale mais que pressa. São vitórias discretas, derrotas elegantes e um tipo raro de orgulho: aquele que não faz barulho, mas atravessa fronteiras. 

Em 1996, houve um lance eterno. O Clube de Xadrez, fundado em 30 de abril de 1996, nunca pediu desfile, banda ou palanque. Bastava um gesto simples: o reconhecimento de que ali, no meio de peças pretas e brancas, também se constrói a história da cidade.

Mas a prefeitura, essa grande mestra das prioridades seletivas, parece ter preferido aplicar o xeque-mate do esquecimento.

É curioso. O mesmo clube que leva o nome do município para além de suas ruas, que ecoa em competições e conversas pelo país, que já recebeu figuras cuja presença por si só legitima qualquer iniciativa cultural, torna-se invisível quando a caneta oficial decide o que merece memória. Como se a história só tivesse valor quando rende fotografia, voto ou palco.

Nesses trinta anos de existência do Clube de Xadrez de Bom Jesus do Norte, centenas de crianças e jovens puderam se desenvolver culturalmente, contribuindo para que a sociedade norte-bonjesuense se tornasse mais humana, mais sensível, mais consciente. Ainda assim, esse brilho parece passar despercebido pela prefeitura, que o ignora como se não fosse relevante. 

Para ela, o brilho dos outros não conta. Interessa apenas aquilo que pode lhe conferir mérito imediato, visibilidade rápida, votos contáveis.

Ignorar um aniversário como esse não é apenas um descuido administrativo, é uma escolha simbólica. É dizer, ainda que em silêncio, que há histórias que não importam. Que tradição não soma pontos. Que a cultura paciente, construída lance a lance, não compete com a urgência das agendas imediatas. E então fica a pergunta, pairando como um rei acuado no centro do tabuleiro: o que leva uma prefeitura a ignorar a própria história?

Talvez seja o receio do que não controla. Talvez a incapacidade de reconhecer grandeza onde não há holofotes. Ou talvez seja algo mais simples, e mais triste: a falta de visão para entender que uma cidade não se mede apenas por obras visíveis, mas pelas narrativas que escolhe preservar.

Enquanto isso, o Clube segue. Porque quem joga xadrez aprende cedo que nem todo movimento do adversário faz sentido, mas, ainda assim, o jogo continua.

E, ironicamente, continua vencendo.

Vida longa ao Clube de Xadrez de Bom Jesus do Norte. Três décadas de xeque, mate e, acima de tudo, vida!

O Olhar de Ricardo Soutto Mayor sobre a Usina Santa Maria

 

 Memórias da Santa Maria

​A imagem, tingida pelos tons sépia do tempo, não é apenas um registro geográfico; é um mapa afetivo de um mundo que palpitava ao ritmo das moendas. Olhar para a Usina Santa Maria dos anos 1960 é como ouvir o apito da fábrica ecoando pelo vale, chamando não apenas para o trabalho, mas para a vida que florescia em torno do açúcar e do suor.

​Ali, o progresso e a poesia caminhavam de mãos dadas.

A Geografia do Afeto

​No centro de tudo, a chaminé imponente, um dedo de concreto apontado para o céu, ditava o fôlego da vila. Mas o verdadeiro sangue da Santa Maria corria nas veias de suas ruas de terra:

O Sagrado e o Cotidiano: Entre o Cinema Antigo, onde os sonhos eram projetados em preto e branco, e a Padaria-Açougue, onde o cheiro do pão fresco se misturava ao aroma doce do melaço, a vida acontecia sem pressa.

O Alento Social: O Santa Maria Clube não era apenas um prédio; era o palco de bailes de gala e de encontros que definiram casamentos e amizades eternas. Ao lado, a Venda de Sr. Manoelzinho, com seu balcão de madeira, guardava o segredo das melhores prosas e o estalar das tesouras da barbearia.

O Futuro em Construção: No Jardim de Infância e no Grupo Escolar, as vozes infantis eram a promessa de que aquele império de cana-de-açúcar jamais feneceria.

Homens e Engrenagens

​A crônica da Santa Maria é escrita com nomes próprios. A foto nos lembra das casas de figuras como o Sr. Manoelzinho e o Sr. Zequinha. Eram mais que moradores; eram os pilares de uma comunidade onde todos se conheciam pelo sobrenome ou pelo ofício.

​Enquanto a Ponte Rolante transportava a cana pesada para o ventre das moendas e a Balança Ferroviária ditava o ritmo da exportação, nas Oficinas e Serrarias, o trabalho braçal transformava madeira e metal em sustento. Era um ecossistema perfeito: a usina alimentava a vila, e a vila, com seu amor e dedicação, mantinha a usina viva.

O Legado de Ricardo

​Graças à contribuição de Ricardo Souto Mayor, essa janela para o passado permanece aberta. Esta imagem não é apenas nostalgia; é um testemunho de uma era onde a "usina do meu tempo" era o centro do universo.

​Hoje, o melaço pode ter secado e o barulho das moendas silenciado, mas nas frestas desta fotografia, o tempo parou. Ainda podemos ouvir o riso das crianças no pátio e sentir o calor do sol de fim de tarde batendo nos telhados da Santa Maria.

A Usina Santa Maria não era feita de tijolos, mas de gentes. E enquanto houver memória, o seu apito continuará a soar em nossos corações.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A vida é um eco, você recebe o que emite, por Rogério Loureiro Xavier

 


Olá 🖐 pessoa amiga e do bem. 


*A vida é um eco, você recebe o que emite.*


Somos condutores de energia. Se desejamos o bem, o bem vem. Se espalhamos amor, o amor fica. Se sorrimos, sorrisos recebemos. Pode demorar. Pode não ser sempre. Mas se tem uma coisa que a vida faz é ser grata, desde que sejamos com ela. Se tem uma coisa que o universo faz é ser justo, desde que sejamos com o nosso próximo. As coisas acontecem. A bondade existe. O amor vence. E toda positividade precisa circular. Espalhe. 


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

UM AÇORIANO DE CORAÇÃO BONJESUENSE



A Programação do Sarau da Emoção:: A Chama da Cultura

 

Lá no Sarau da Emoção, 

vá, confirme de uma vez!

Terá teatro, canção 

e torneio de xadrez!


A praça será abrigo

para poesia e dança, 

trazendo, com cada amigo,

na bagagem, esperança. 

(Lúcia Spadarotto)




A Praça Governador Portela prepara-se para ser, mais do que um espaço geográfico, um território de afetos. No dia 16 de maio de 2026, o asfalto e as árvores darão lugar ao Sarau da Emoção, um convite para que a alma descanse os olhos nas belezas do espírito.

​A programação é um mosaico tecido com a delicadeza de quem entende que a cultura é o fio que une o passado ao presente.

O Despertar da Tarde

​Tudo começa às 15:00, quando a abertura oficial rompe o silêncio cotidiano, abrindo alas para o musical EmocionalMente. É a música, em sua forma mais pura, preparando o terreno para a literatura que segue logo depois. Às 17:00, as páginas de "As Aventuras de Guga e Bê", da escritora Lúcia Spadarotto, ganham o mundo, lembrando-nos que a infância é o lugar onde a imaginação nunca envelhece.

​A Palavra e o Pensamento

​Quando as sombras começarem a se alongar, às 17:30, as vozes se encontrarão na Roda de Conversa. Sob o tema "Emoção e Saúde", o microfone aberto será o canal para que o íntimo se torne coletivo, em um exercício necessário de cuidado e escuta.

​O Movimento das Horas

​A noite chega trazendo diferentes ritmos:

19:00: O silêncio estratégico do Torneio de Xadrez, onde a mente dança sobre o tabuleiro.

20:00: As luzes da cena na peça teatral "A Chama".

20:15: O reconhecimento carinhoso na homenagem "Cuidando de quem cuida", pelo Grupo MAR.

​O Ápice da Celebração

​A noite culmina na celebração da palavra escrita com a Premiação do Concurso Literário às 20:30. Para fechar as cortinas com a alma plena, o músico Válber Meireles e o cordelista Gogó Pacheco trazem a melodia e a rima que ecoam as raízes da nossa terra.

​No meio de oficinas e exposições o Sarau não é apenas um evento; é um abraço coletivo em Bom Jesus do Itabapoana. É a prova de que, quando a arte se encontra com a comunidade, a emoção deixa de ser um sentimento individual para se tornar o patrimônio de todos nós.


 


Varre-Sai no Degrau Mais Alto

 


Ouro no Pasto, Glória no Coração

​Há conquistas que não cabem apenas em troféus; elas transbordam pelos vales, ecoam pelas montanhas de Varre-Sai e se misturam ao cheiro do café e da terra úmida que tanto amamos. Hoje, o Brasil inteiro olha para o nosso pedaço de chão e descobre o que já sabíamos: aqui, a dedicação tem raízes profundas.

Alvaro José Pirozzi não apenas cria gado; ele cultiva uma linhagem de excelência. Ao ser coroado o 1º lugar no Ranking Nacional 2025 como o melhor criador de Guzerá Leiteiro, Alvaro transforma o suor do dia a dia em ouro líquido, em reconhecimento que atravessa fronteiras.

​"A pecuária é uma arte escrita no couro e no leite, um diálogo constante entre o homem e a natureza."

​Em Uberaba, sob o sol da EXPOZEBU, o nome de Varre-Sai será pronunciado com a reverência que merece. Ver um filho da nossa terra subir ao degrau mais alto do pódio nacional é sentir que cada pequeno produtor, cada sonhador dessas paragens, também recebe um pouco dessa medalha.

​É o triunfo da persistência. É a prova de que, quando o trabalho é feito com paixão e apoio, o destino não pode ser outro senão o topo.

Parabéns, Alvaro! Que seu rebanho continue sendo o espelho de um trabalho hercúleo e que o brilho dessa conquista ilumine ainda mais os caminhos do nosso querido Noroeste. Varre-Sai hoje não apenas caminha; ela galopa, orgulhosa, no topo do Brasil. 


terça-feira, 28 de abril de 2026

Convite de Rogério Loureiro Xavier para o Dia da Poesia Bonjesuense

 



A Estrela de Warlem: O Brilho que o Tempo Não Apaga

 


​Há luzes que não se acendem com eletricidade, mas com o óleo sagrado da memória e o pavio da devoção. Em Bom Jesus do Itabapoana, quando o bairro Santa Rosa se cala para ouvir o som da caixa e o lamento harmonioso da sanfona, é a história de uma linhagem que volta a caminhar.

​Tudo começou em 1981, num sopro de fé. O senhor Carlos Rodrigues de Ávila, avô e patriarca, não fundou apenas uma Folia; ele ergueu um altar itinerante fruto de uma promessa. Era a Folia Irmandade Estrela Guia nascendo do íntimo de um homem que sabia que a cultura, quando regada com espiritualidade, torna-se eterna.

​Mas o tempo, esse mestre às vezes severo, testou a chama. Com a partida do fundador, a bandeira repousou no silêncio. Passou por mãos herdeiras que não sentiram o mesmo chamado e por mãos amigas, como as de José Antônio, que guardaram o fogo para que ele não se extinguisse nas cinzas do esquecimento. A tradição, contudo, tem um magnetismo próprio: ela sempre volta para o sangue que a viu nascer.

​Há treze anos, o destino bateu à porta de Warlem Rodrigues Souza. Ao assumir o bastão, ou melhor, ao abraçar a Bandeira, Warlem não aceitou apenas um cargo de mestre; ele aceitou o diálogo com o seu passado. Ser Mestre da Estrela Guia é, para ele, um exercício diário de amor e resgate. É olhar para o céu de Santa Rosa e saber que, cada vez que o grupo entoa seus versos, o avô Carlos sorri de algum lugar onde a folia nunca termina.

​Sob a liderança de Warlem, a Irmandade não é apenas um grupo folclórico; é um organismo vivo. São treze anos de madrugadas, de poeira na estrada e de encontros de fé. Ele conduz seus foliões como quem carrega um tesouro de cristal: com a firmeza de quem conhece as raízes e a delicadeza de quem sabe que a cultura precisa de carinho para florescer nas novas gerações.

​Neste maio de 2026, a Estrela Guia volta a brilhar na quadra do Colégio Otília Viera Campos. E ali, no meio de fardas coloridas e o brilho dos instrumentos, veremos que a promessa feita em 81 continua sendo cumprida. Warlem é o guardião desse portal, o homem que transformou a herança do avô em um compromisso com o futuro. Porque, enquanto houver um mestre dedicado e uma estrela a guiar, a tradição de Bom Jesus do Itabapoana jamais conhecerá a escuridão.


Mensagens, amigos verdadeiros, vida, por Rogério Loureiro Xavier

 



Olá 🖐 pessoa amiga e do bem. 


*Mensagens, amigos verdadeiros, vida.*


O Tempo passa.

A vida acontece.

A distância separa..

As crianças crescem.

Os empregos vão e vêm.

O amor fica mais frouxo.

As pessoas não fazem o que deveriam fazer.

O coração se rompe.

Os pais morrem.

Os colegas esquecem os favores.

As carreiras terminam.

Os filhos seguem a sua vida como você tão bem ensinou.


MAS... os verdadeiros amigos estão lá, não importa quanto tempo e quantos quilômetros estão entre vocês.

Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo por você, intervindo em seu favor e esperando você de braços abertos, e abençoando sua vida!

E quando a velhice chega, não existe papo mais gostoso do que o dos velhos amigos... As histórias e recordações dos tempos vividos juntos, das viagens, das férias, das noitadas, das paqueras... 


Ah!!! tempo bom que não volta mais... Não volta, mas pode ser lembrado numa boa conversa debaixo da sombra de uma árvore, deitado na rede de uma varanda confortável ou à mesa de um restaurante, regada a bom vinho, não com um desconhecido, mas com os velhos amigos. 


Quando iniciamos esta aventura chamada VIDA, não sabíamos das incríveis alegrias ou tristezas que estavam adiante, nem sabíamos o quanto precisaríamos uns dos outros.


*"Amigos ajudam a dar sentido à vida."*


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O Ineditismo da JEMAJ: um Torneio de Xadrez que Nasceu da Música

 


​Haverá um dia em que as notas musicais, cansadas de flutuar entre as cordas de um violino e as teclas de um piano, decidirão repousar sobre as casas pretas e brancas de um tabuleiro. Esse dia tem data marcada em Bom Jesus do Itabapoana. Sob o selo do "Sarau da Emoção", a Escola de Música JEMAJ propõe algo que, à primeira vista, soa como um acorde dissonante, mas que revela uma harmonia profunda: um torneio de xadrez.

​É curioso e poético. Geralmente, de uma escola de música, espera-se o barulho sagrado, o ensaio, a melodia que preenche o vazio. No entanto, o xadrez é a música do silêncio. Cada movimento de um peão é um semitom; cada xeque é um crescendo que acelera o peito. Ao organizar esse torneio, a JEMAJ nos lembra que a matemática da música e a lógica do tabuleiro bebem da mesma fonte: a busca pela beleza através da estrutura.

​Na Praça Governador Portela, o tempo não será marcado por metrônomos, mas pelo tique-taque frenético do relógio de Blitz. Cinco minutos. É o tempo de uma canção curta, mas intensa. Os jogadores, como maestros de um exército de madeira, precisarão de dedos ágeis e mentes afinadas. Não haverá partituras, mas sim aberturas e finais, coreografados pela urgência do tempo.

​O ineditismo reside nesse abraço cultural. Ver o apoio da Lei Aldir Blanc e de órgãos públicos unindo o fomento às artes com o esporte da mente é um alento. Mostra que a cultura não é uma gaveta estanque, mas um rio que transborda.

​Quem diria que, entre uma canção e outra, a melhor jogada seria um sacrifício de Rainha? No dia 16 de maio, a música não será apenas ouvida, será jogada. E, ao final, o maior prêmio não será a medalha ou o kit de madeira, mas a percepção de que, seja no palco ou no tabuleiro, a vida é a arte de saber o momento exato de agir, respirar e, finalmente, encantar.



Lira Santa Cecília de Varre-Sai comemora 109 anos de história



Na tarde  em que a Lira Santa Cecília de Varre-Sai celebrou seus 109 anos, a música dividiu espaço com a memória e a tradição. A comemoração reuniu não apenas a comunidade local, mas também sete liras e bandas da região, que se uniram em um encontro marcado por dobrados, reencontros e reverência à história musical de Varre-Sai.

No meio das apresentações, um momento em especial silenciou o público: a homenagem ao personagem tão conhecido quanto querido da cidade, Antônio Alberto Monteiro, o Coim. Foi pelos versos da escritora Isabel Menezes que a celebração ganhou contornos mais íntimos e emocionais.

Em forma de crônica lírica, o poema resgatou não apenas a figura de Coim, mas sua essência dentro da história da banda. Descrito como “guardião da Lira”, ele foi lembrado como presença constante, daqueles que não apenas acompanham, mas sustentam o espírito coletivo. Mesmo diante de limitações, evocadas com delicadeza, sua permanência era movida por um vínculo profundo com a música e com a instituição.

A homenagem também destacou seu papel como incentivador de jovens músicos, alguém que, com gestos simples, ajudava a formar talentos e fortalecer laços. Mais do que memória individual, tratava-se do reconhecimento de um legado vivo, construído no cotidiano.

O prefeito Lauro Fabri, presente na celebração, anunciou a intenção de ampliar o alcance da data. Segundo ele, o objetivo é transformar o aniversário da Lira em um evento de caráter nacional, reunindo corporações musicais de diferentes regiões e consolidando Varre-Sai como referência nesse cenário, em respeito à trajetória histórica da instituição.

Já a secretária de turismo Shoraya Alonso Ridolphi destacou o envolvimento coletivo para a realização da festa. De acordo com ela, todos os órgãos da administração municipal contribuíram para a organização do evento, que já se firmou como uma das celebrações mais tradicionais do calendário local no mês de abril.

Dr Silvestre Gorini,  ex-prefeito e ícone  de Varre-Sai, esteve presente, e se emocionou ao relembrar sua trajetória na Lira Santa Cecília. Lembrou que o avô de Baden Powel foi o primeiro maestro da Lira Santa Cecília. 

Emocionante também foi a homenagem a Giuseppe Tupini, fundador da Lira Santa Cecília. A homenagem foi endereçada à Tia Lúcia Tupini, que representou a família e foi coroada como Rainha da Lira.

A respeito de Giuseppe Tupini, o jornal O Norte Fluminense traz aqui um depoimento de seu neto, o saudoso Orlando Tupini, que viveu seus últimos anos em Bom Jesus. 

 "ENTREVISTA HISTÓRICA COM ORLANDO TUPINI

Os avós italianos de Orlando Tupini, Giuseppe Toppini e Enrica Moscaroli Tupini, viajaram no Vapor Colombo, desde a Itália até o porto do Rio de Janeiro, chegando ao Brasil no dia 3 de abril de 1896.

Giuseppe relatava que, durante a viagem ao Brasil, os italianos se dedicavam a entoar canções de esperança, como a seguinte: 

"Noi, italiani lavoratori,

Allegri andiamo nel Brasile

E voi altri, d'Italia signore

Lavoratelo il vostro badile

Se volete mangiare" 

Segundo informa Orlando, "alguns italianos foram para Minas Gerais. Meus avós, contudo, foram até o Porto de Santos, permanecendo em São Paulo por cerca de um ano. Posteriormente, um emissário de Varre-Sai (RJ) foi a São Paulo contratar italianos para trabalharem na plantação de café. Meu avô concordou com a proposta e veio trabalhar na Fazenda Paraíso, de propriedade dos antepassados de minha esposa Margessi".

Os imigrantes vieram de trem para a região Noroeste Fluminense, onde havia uma estação em Natividade (RJ). A partir daí se deslocaram para Varre-Sai a pé, em lombo de burros ou mesmo em carros de boi.

Giuseppe Tuppini fixou-se, em primeiro lugar, na região da Cruz da Ana, exercendo as atividades de ferreiro e lavrador.

Apaixonado por música e por sanfona, Giuseppe Tupini fundou a banda de música Lira Santa Cecília de Varre-Sai".

Ao final da comemoração, no meio de discursos, músicas e lembranças, prevaleceu a sensação de continuidade. A Lira segue, fortalecida pelo passado e impulsionada pelo presente. E, como ressaltou a poetisa em sua homenagem, figuras como Coim não se despedem, permanecem, conduzindo, mesmo em silêncio, cada nova nota que ecoa pelas ruas de Varre-Sai.

O Guardião da Lira

(Poesia em homenagem ao  Coim (Antônio Alberto Monteiro), feita a pedido do professor de música  Gabriel Rampazio)


Hoje o silêncio se curva em respeito,

e a música, ainda que toque, chora baixinho.

No compasso da saudade, lembramos de você, Coim,

não com tristeza da ausência, mas com muito carinho.


Ia à frente, como quem abre portas invisíveis,

anunciando a nossa banda, anunciando alegria.

E cada passo seu, firme ou já cansado,

era coragem vestida de melodia.


Mesmo quando o corpo pedia descanso,

sua alma insistia em permanecer.

Quantas vezes a fraqueza o alcançou,

mas nunca foi capaz de te vencer.


Guardião das chaves, não só da sede,

mas do coração da Lira inteira.

Carregava no peito um orgulho bonito,

de quem guarda um tesouro e o reverencia.


Incentivador dos pequenos sonhos,

acolhia cada menino com olhar de luz.

E no elogio simples, sincero,

semeava pautas, plantava músicos.


Sentia-se dono, e era, de certo modo,

pois só pertence assim quem ama de verdade.

Um menino eterno, num corpo de homem,

feito de pureza, afeto e lealdade.


Lembro de suas mãos cheias de livros,

espalhando minha poesia no centenário da Lira 

E no gesto generoso, multiplicava cultura,

fazendo da arte sua eterna vida.


Pelas ruas de Varre-Sai, era guia, era abrigo,

um anjo atento no centro da cidade.

E entre perguntas sobre novos livros,

me ensinava, sem saber, o valor da simplicidade.


Mas quando à frente da Lira se colocava,

já não era apenas o menino sonhador:

era um pequeno grande homem, sério e altivo,

batendo o bumbo, com o peito inflado de amor.


Hoje, teu bumbo repousa, mas não silencia,

tua foto sorri, mas não se despede.

Porque quem viveu como você viveu, Coim,

não parte: permanece.


E neste encontro, entre notas e memórias,

a Lira Santa Cecília te eterniza assim:

não como alguém que se foi cedo demais,

mas como alguém que ficou para sempre em nós.

Descansa, guardião.

A banda segue… mas agora, guiada por ti.

(Isabel Menezes - Professora e Historiadora de Varre-Sai)