Há luzes que não se acendem com eletricidade, mas com o óleo sagrado da memória e o pavio da devoção. Em Bom Jesus do Itabapoana, quando o bairro Santa Rosa se cala para ouvir o som da caixa e o lamento harmonioso da sanfona, é a história de uma linhagem que volta a caminhar.
Tudo começou em 1981, num sopro de fé. O senhor Carlos Rodrigues de Ávila, avô e patriarca, não fundou apenas uma Folia; ele ergueu um altar itinerante fruto de uma promessa. Era a Folia Irmandade Estrela Guia nascendo do íntimo de um homem que sabia que a cultura, quando regada com espiritualidade, torna-se eterna.
Mas o tempo, esse mestre às vezes severo, testou a chama. Com a partida do fundador, a bandeira repousou no silêncio. Passou por mãos herdeiras que não sentiram o mesmo chamado e por mãos amigas, como as de José Antônio, que guardaram o fogo para que ele não se extinguisse nas cinzas do esquecimento. A tradição, contudo, tem um magnetismo próprio: ela sempre volta para o sangue que a viu nascer.
Há treze anos, o destino bateu à porta de Warlem Rodrigues Souza. Ao assumir o bastão, ou melhor, ao abraçar a Bandeira, Warlem não aceitou apenas um cargo de mestre; ele aceitou o diálogo com o seu passado. Ser Mestre da Estrela Guia é, para ele, um exercício diário de amor e resgate. É olhar para o céu de Santa Rosa e saber que, cada vez que o grupo entoa seus versos, o avô Carlos sorri de algum lugar onde a folia nunca termina.
Sob a liderança de Warlem, a Irmandade não é apenas um grupo folclórico; é um organismo vivo. São treze anos de madrugadas, de poeira na estrada e de encontros de fé. Ele conduz seus foliões como quem carrega um tesouro de cristal: com a firmeza de quem conhece as raízes e a delicadeza de quem sabe que a cultura precisa de carinho para florescer nas novas gerações.
Neste maio de 2026, a Estrela Guia volta a brilhar na quadra do Colégio Otília Viera Campos. E ali, no meio de fardas coloridas e o brilho dos instrumentos, veremos que a promessa feita em 81 continua sendo cumprida. Warlem é o guardião desse portal, o homem que transformou a herança do avô em um compromisso com o futuro. Porque, enquanto houver um mestre dedicado e uma estrela a guiar, a tradição de Bom Jesus do Itabapoana jamais conhecerá a escuridão.

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