Por Gino Martins Borges Bastos
Bom Jesus do Itabapoana amanheceu diferente naquele 9 de agosto de 2015. Não era apenas mais um evento cultural. Havia no ar algo que não se mede em números ou protocolos, uma espécie de chamado silencioso da memória. Na Fazenda Mattinhos, no distrito de Serrinha, a inauguração do Museu da Cachaça Velha Matinha transformou-se em um encontro entre passado e presente, tradição e identidade.
O 3º Passeio Cultural, inserido no 6º Circuito Cultural Arte Entre Povos, reuniu visitantes, estudiosos e amantes da história regional. Após as boas-vindas de Luciano Nunes e a apresentação conduzida por mim, o cerimonialista Jailton da Penha conduziu os presentes por uma viagem no tempo, relembrando as origens da fazenda, fundada em 1850.
Guiados pelo engenheiro químico João Figueiredo Viana, os visitantes percorreram o alambique, onde cada etapa da produção da cachaça revelou não apenas técnica, mas herança. As engrenagens antigas, as peças de engenho do século XIX, vindas de países como Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos, não eram objetos inertes. Eram testemunhas.
Ao final, a degustação da caipirinha feita com a Cachaça Velha Matinha celebrou o presente, mas foi o passado que permaneceu ecoando.
A Fazenda Mattinhos carrega em suas paredes marcas profundas da história brasileira. Do “velho Mattos”, figura quase lendária, aos ciclos de prosperidade do café sob o comando de Manoel da Silva Motta e seu filho Lauro Motta, a propriedade já abrigou mais de 350 famílias e produziu milhares de arrobas por ano. Também guarda memórias difíceis: a escravidão, o tronco, a senzala, histórias de dor que resistem no silêncio das estruturas e nos relatos de antigos moradores como Ivan Linhares.
Há ainda as narrativas que atravessam o limite entre o real e o sensível, passos na escada, sons na noite, lembranças que Ana Maria Motta, filha de Lauro, carrega desde a infância. E há a cruz à beira do caminho, memória de um escravo que, diante da violência, escolheu o fim. Ali, o tempo não passa. Apenas se transforma em lembrança.
Mas, entre todos os presentes naquele dia, havia alguém que parecia ouvir essas vozes com mais intensidade.
Ademir de Souza chegou não apenas como convidado, mas como quem atende a um chamado íntimo. Escritor, poeta, compositor e cantor, ele trouxe consigo mais do que talento, trouxe saudade. Morador do Rio de Janeiro, encontrou naquelas terras não um lugar desconhecido, mas um território de pertencimento.
Seus olhos não viam apenas um museu recém-inaugurado. Viavam rastros. Ecos. Fragmentos de uma história que também era sua.
Ao caminhar pela fazenda, Ademir não apenas observava, ele reconhecia.
Há quem visite lugares. E há quem se reencontre neles.
Inspirado pela reflexão do bonjesuense Delton de Mattos, de que a vida humana é uma busca constante por suas origens - , Ademir transforma sua presença em gesto simbólico. Ele não veio apenas ver. Veio compreender. Veio sentir. Veio, sobretudo, lembrar.
E nesse movimento, silencioso e profundo, deixa uma lição que ultrapassa o evento, o museu e a própria fazenda: o ser humano só se realiza plenamente quando reconhece sua própria história, aquela que veio antes, aquela que se vive agora e aquela que ainda será contada.
Na Velha Matinha, no meio de tonéis, memórias e sombras do passado, Ademir de Souza não apenas participou de uma inauguração.
Ele reencontrou a si mesmo.
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| Luciano de Souza Nunes recepcionou os visitantes |
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| Jailton da Penha foi o cerimonialista |
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| Ana Maria Motta, filha de Lauro Motta: memória e rico acervo da Fazenda Mattinhos |
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| Ivan Linhares foi administrador da Fazenda Mattinhos |
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| Fazenda Matinha: um tesouro histórico em Bom Jesus do Itabapoana |









































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