O Populismo em Duas Rodas
Enquanto o "político padrão" se isola em blindados e comboios, Plenário pedala. A bicicleta não é apenas um meio de transporte; é um instrumento de marketing estético. Ao surgir montado no selim, ele tenta comprar uma indulgência imediata. Ele quer dizer: "Vejam, sou como vocês. Sou o homem comum, o pedestre, o vizinho que vai à padaria". É a tentativa desesperada de camuflar o ouro com a ferrugem, de esconder a politicagem sob o suor do esforço físico.
O Contraste que Delata
Porém, o lirismo da cena reside no fracasso dessa camuflagem. A bicicleta, que deveria ser o emblema da vida simples, acaba por realçar a sujeira. A cada pedalada, o movimento do corpo faz o dinheiro saltar dos bolsos. É uma contradição ambulante:
O Meio é a bicicleta (humilde, sustentável, do povo).
A Carga é o erário (vultuoso, ilícito, desviado).
Plenário pedala para parecer "gente", mas o dinheiro que sai do bolso prova que ele é, na verdade, uma engrenagem que mói a confiança pública. A simplicidade, nele, é uma máscara que não adere ao rosto; é uma fantasia de "homem do povo" vestida por quem já não sabe o que é o povo.
A Dieta do Silêncio
Quando ele chega à praça e oferece a "carne de graça", a bicicleta ainda está ali, encostada, servindo de testemunha muda. O convite para que o povo "morda a própria língua" é o desfecho final dessa peça de teatro. A bicicleta trouxe o político até as pessoas, mas a sua alma de político as expulsa com um insulto.
No fim, a pedalada de João Plenário nos ensina que não basta usar o transporte do povo para ter o coração do povo. O dinheiro que sai dos bolsos pesa mais que o metal da bicicleta, e a única coisa que ele realmente transporta é a certeza de que, para o seu tipo, a simplicidade é apenas mais um produto em liquidação na prateleira do populismo.

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