sábado, 13 de agosto de 2016

Tenório Cavalcanti, o candidato derrotado por Badger Silveira


Tenório Cavalcanti, conhecido como o Homem da Capa Preta, foi o candidato derrotado por Badger Silveira, em 1962, para o governo do estado do Rio de Janeiro.



Em campanha em Bom Jesus do Itabapoana, terra natal de Roberto e Badger, ficou hospedado no Big Hotel. Indagado como se sentia disputando a eleição com o irmão de Roberto Silveira, preocupou-se em não atacar o adversário em seu município natal, limitando-se a responder: "Se tirassem o Pelé da seleção brasileira e colocassem o irmão dele, o time renderia a mesma coisa?".

Considerado como violento, Tenório Cavalcante esteve também na Fazenda Mattinhos, procurando o apoio do fazendeiro Lauro Motta que, contudo, lhe afirmara: "assumi compromisso com Badger Silveira". 

Em Bom Jesus, quatro seguranças acompanharam Tenório por onde fosse. Ele, por sua vez, levava sempre consigo uma "Lurdinha", uma submetralhadora alemã MP-40.

A antropóloga Luitgarde Cavalcanti, Doutora em Ciências Sociais e Pós Doutorada em Antropologia e Ciência das Lestras, além de professora aposentada da UFRJ e UERJ, que esteve em Bom Jesus do Itabapoana (RJ) por ocasião da inauguração do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, no dia 7 de agosto, é prima de Tenórico Cavalcanti e encaminhou a entrevista postada a seguir, dada a um aluno do mestrado da UERJ, que reproduzimos com sua autorização.

Claudio: Primeiro eu gostaria de te perguntar como você conheceu o Tenório e em que época você o conheceu?

Luitgarde: Eu sempre soube que o Dr. Natalício Tenório Cavalcanti, conhecido como deputado Tenório, era nosso primo. Eu vivia no sertão de Alagoas, em Santana do Ipanema, o município ao lado de  Palmeira dos Índios e lá eu sabia que vivia a mãe dele, dona Maria do Carmo. Eu tinha um tio mais novo,  irmão do papai, tio Nicodemos, em quem o Tenório tinha absoluta confiança. Tio Nicodemos morava em Palmeira e quando Tenório já estava no Rio ele é que cuidava dos interesses da dona Maria do Carmo. Tanto que quando a dona Maria do Carmo ficou muito mal,  tio Nicodemos avisou o Tenório e ele disse que não tinha coragem de ver a mãe dele morrer. Então meu  tio ficou ali segurando a mão dela, rezando, até ela morrer. Teve o enterro com todo o protocolo católico do sertão, dos beatos. Enterrou ela como os beatos enterravam, com todo o ritual, com sentinela, com velório, com tudo. Tenório foi  para Palmeira para a missa de sétimo dia já com tudo resolvido. Eu sabia da história dele, mas  não o conhecia  pessoalmente Em 1963 tio Nicodemos me apresentou ao Tenório.

Claudio: E isso, a morte da mãe dele,  foi em que época?

Luitgarde: Isso na década de 50, em Alagoas.

Claudio: Então ele já era o Tenório Cavalcanti?

Luitgarde: Já era o Tenório, conhecido e tudo. E eu vim para o Rio de Janeiro em 10 de janeiro de 63. Não me lembro qual era o dia da semana. Sei que no imediato fim de semana o tio Nicodemos me levou lá em Caxias para me apresentar a ele.. O Tenório acompanhava com muito interesse o destino da minha família porque dos primos dele, papai e o tio Nicodemos eram os mais próximos.  Antes de papai se aproximar dele teve umas tragédias, a UDN matando a minha família em 61 e  62  e em 62, 63, nós nos mudamos direto para cá e ele nos tomou sob sua proteção. Cada um de nós que chegava ia lá conhecê-lo e ele recebia a gente na “Fortaleza”[1].

Claudio: Então, a relação com ele aqui no Rio, em Duque de Caxias, começou a partir de 63?

Luitgarde: 61, 60. Em 1960 o tio Nicodemos já estava no Rio de Janeiro. Em 61 começou a trabalhar na “Luta Democrática”[2]. Ele cuidava do papel, entrada e saída do papel da Luta Democrática. Era um homem de confiança do Tenório.

Claudio: como era o nome completo do tio Nicodemos?

Luitgarde: Nicodemos Nobre Cavalcanti.

Claudio: E como é que era a personalidade do Tenório, no dia-a-dia. Como era o jeito dele de ser?

Luitgarde: Olha, quando conheci o Tenório gostei muito dele,  porque ele era um homem famoso, mas com a família ele era só intimidade. Por exemplo, o tio Nicodemos jamais o  chamou  de Tenório ou doutor ou Deputado. Era Natalício.

Claudio: O primeiro nome dele.

Luitgarde: O primeiro nome, Natalício, e ele só tratava meu tio como Nicodemos. Eu até fiquei muito espantada porque  conhecia muito o Tenório pela revista “O Cruzeiro”[3], as entrevistas da revista “O Cruzeiro”. Eu tinha lido a entrevista dele dada a Indalécio Wanderley, em que  ele aparece  mostrando os orifícios  e  as cicatrizes de bala no corpo, dizendo para  Indalécio - sem camisa, mostrando as cicatrizes - que recebeu mais de cinqüenta atentados na vida dele. E ele então mostrava aquilo e dizia ( ele era muito brincalhão): “vim pela estrada da vida de balaço em balaço”. Ele estava parodiando a música da moda, que era a Nora Ney quem cantava: “Vim pela estrada  tão longa, de fracasso em fracasso”. E ele cantava isso dizendo: “Vim pela estrada da vida de balaço em balaço”.

Claudio: Ele gostava de ostentar essa...

Luitgarde: Ele gostava de cantar! Ele gostava muito de contar histórias, de ouvir histórias. Gostava de violeiro do sertão. E as histórias do sertão para ele eram tudo. Ele tinha um culto muito grande pela cultura sertaneja. Na verdade, quando eu o conheci ele me abraçou e falou: “Minha filha! Eu estou vendo a minha tia Tetê”. Porque a minha bisavó, Tereza Tenório Holanda de Albuquerque Cavalcanti, era irmã do avô do Tenório. E o avô do Tenório morreu e deixou só o pai do Tenório. Morreu cedo o irmão da minha bisavó, a Tereza. E ela ficou protegendo o sobrinho. Esse sobrinho era muito aliado ao meu avô. Viviam muito juntos lá em Palmeira dos Índios, num lugar mais afastado chamado Rua Nova. Então ali vivia o pai do Tenório. O pai vivia na proteção da minha bisavó que tinha uma fazenda muito grande chamada “A Lagoa de João Francisco” e quando o meu avô, com os tios e irmãos já eram adultos, foi assassinado  o pai do Tenório Cavalcanti e o menino Natalício foi  morar na casa da minha bisavó Tetê.

Claudio: Você sabe o motivo do assassinato?

Luitgarde: Não sei o motivo do assassinato. Mas, depois a irmã do Tenório, Dona - a gente a chamava de Dona – ela contou, na casa do Tenório, em uma das vezes em que eu estava lá, que era luta porque... O senador Camboim, genro do Visconde de Albuquerque, estava tomando as terras da família. Ele também era da família e ficava anexando as terras dos parentes. E a minha bisavó dizia que não entregava a fazenda. E o pai do Tenório morava na fazenda. Então, mataram por luta de terra. Quer dizer, o lado mais rico da família, do senador Camboim, genro do Visconde, envolvido nas mortes para se apoderar das terras.

Claudio: O Tenório, então, fazia parte de um braço mais empobrecido da família?

Luitgarde: Mais empobrecido, que era o lado da minha bisavó. Embora o senador Camboim fosse padrinho dele de batismo. Tanto que o pai dele deu o nome ao filho, de Natalício, que é o primeiro nome do senador Camboim. E ele estava por trás dessas mortes. Mas, no sertão quando o sujeito não pega o mandante, pega os executantes. E o meu avô e os irmãos do meu avô executaram  a vingança. Mataram toda a raça dos pistoleiros que mataram o pai do Tenório. Tenório ficou morando com eles, depois a pressão foi muito grande em cima e eles se mandaram para São Paulo,  só ficando a minha bisavó na Rua Nova, com o neto menor, porque meu bisavô tinha falecido aí por 1901.. E o Tenório com 14 anos veio embora para o Rio de Janeiro. Ele contava que chegou aqui e foi trabalhar. Xavier da Silveira ou Miguel Lemos, um desses dois homens, eu não me lembro direito qual deles, contratou  Tenório para fazer a cobrança de impostos em Caxias e aí começou a fama. Ele já tinha trabalhado numa fábrica de cerveja e quando ele viu aquela convocatória: “precisa-se  de um homem que saiba ler etc”, ele se apresentou e se tornou fiscal de imposto cobrando em Caxias e ali ele fez a fama dele.

Claudio: Mas isso foi antes do trabalho dele na fazenda? Ele trabalhou na fazenda do Edgard de Pinho como capataz, não foi?

Luitgarde: Não. Ele trabalhou lá como camponês mesmo. Quando ele saiu, ele foi para esse (outro trabalho). Ele saiu lá (do emprego)  - o nome não era capataz, era administrador - Ele saiu da administração da fazenda porque viu no jornal esse emprego para ele.

Claudio: E isso foi em que época mais ou menos?

Luitgarde: Não, ele não dizia época. Ele contava a história dele muito miticamente. Não ficava precisando data. Principalmente porque entrava muita gente enquanto ele conversava. Eu me lembro uma vez que estava um jornalista lá e tinha muita gente conversando e ele contando as histórias - ele falava pelos cotovelos!. Nessa ocasião, contando a história de São João Batista, ele dizia: “Porque João Batista disse isso, aquilo e aquilo outro...”. Aí veio o tio Nicodemos falando: “Natalício, João Batista nunca disse isso!”.  Aí foi aquele suspense na mesa: Qual vai ser a reação do Deputado? Ele riu primeiro e falou: “Ora Nicodemos, ele não disse mas podia ter dito”. Para lhe dizer como era a personalidade dele, ele era muito brincalhão. 

Claudio: E ele, então, trazia fortemente essa cultura nordestina no jeito dele de ser?

Luitgarde: Cultuava! Tanto que ele vivia no Rio de Janeiro e  tinha uma sobrinha que era quem cozinhava a comida dele. Porque a mulher dele era descendente aí desses ricaços de Nova Iguaçu, não conheceu a cultura nordestina. E ele protegia a irmã,  Dona, que era muito pobre, tinha muitos filhos.  Ele trouxe Dona para Caxias – Dona sempre teve duas casas, morava numa casa em Caxias e tinha a casa dela de Palmeira dos Índios. Mas uma das filhas dela, que morava diretamente na “Fortaleza”, cozinhava a comida do Tenório e ele só confiava nela, porque ele tinha muitos inimigos, então ele não comia a comida de qualquer um.

Claudio: Com medo de colocarem veneno na comida.

Luitgarde: Exatamente. Comida e bebida quem trazia era a sobrinha dele. Que era casada com um rapaz chamado Luciano, que também era da família do Tenório. Ele cuidava, administrava a Vila São José[4]. Os aluguéis das casas, o povo que morava na estrada, o Tenório protegia muita gente. Chegava aquele sertanejo morrendo de fome, sem nada e ele botava para morar numa casa de graça, para todo mundo se empregar, se estabelecer e passar a poder pagar um aluguel para ele. Ele era muito solidário com a pobreza do Nordeste.

Claudio: E ajudando essas pessoas ele entrava em conflito com a elite política local?

Luitgarde: Os conflitos não eram só por isso. Era disputa de poder mesmo. O Tenório sempre disputou... dizia ele que disputava com o Amaral Peixoto, que praticava todas as atitudes contra ele, mas nunca aparecia. Quem aparecia era o Secretário de Segurança do Estado do Rio, Barcelos Feio.  Barcelos Feio era o braço armado do Amaral nessa inimizade com o Tenório Cavalcanti.

Claudio: E ele (Barcelos Feio) disputava votos, inclusive, com o Tenório em Duque de Caxias, né?

Luitgarde: Claro. Disputava votos, disputava poder. Segundo as más línguas disputava o dinheiro do jogo, enfim, o Tenório sempre acusou ele.

Claudio: E como o Barcelos Feio era do Partido Social Democrático (PSD)[5], usava a máquina do partido para se eleger. Já o Tenório, a princípio, se valia mais...

Luitgarde: O Tenório nunca teve máquina. A máquina era ele mesmo. Ele era um homem de um dinamismo...

Claudio: Você chegou a presenciar algum comício do Tenório? A relação dele com o povo de Caxias...

Luitgarde: A relação sim. Porque era um desfile de gente pobre vindo pedir coisa a ele. E Luciano, marido da sobrinha dele, ficava encarregado de encaminhar os atendimentos. A população contava com eles. Não era (só) dar dinheiro não. Quando o problema era dinheiro ele ajudava com dinheiro, quando o problema era vaga em hospital o Luciano ia... Tinha a rede médica que ele ajudou a formar, que ele protegia, protegia advogado, protegia gente da polícia da Central do Brasil. O próprio sobrinho dele, Manézinho Tenório – filho de Dona - era da Polícia Federal. Ele tinha um grupo de aliados muito forte em torno dele.
Quando ele chegava em Alagoas era um mito. Onde ele fosse falar a população ia atrás. Os nordestinos viam  Tenório como aquele mito do “o que eu vou poder ser”. Então, procuravam ele...
No tempo em que eu morava  em Alagoas ele  era o nordestino que veio para o Sul do país e venceu. E o Tenório venceu sem cortar os liames com o Nordeste, sem cortar os liames com a família. Como diz o sertanejo, ele era muito farofeiro. Eu me lembro do dia em que ele foi no lançamento do filme “O amuleto de Ogum”. O Nelson Pereira dos Santos era muito amigo nosso e foi fazer O amuleto de Ogum. Quem fazia o Amuleto era o Ney Santana, filho dele. E o Joffre Soares e o meu irmão, Emmanuel Cavalcanti, os dois faziam papéis coadjuvantes. E ele (Nelson Pereira dos Santos) desejava filmar na “Fortaleza” do Tenório. Meu irmão, Emmanuel, foi lá e pediu ao Tenório e ele franqueou a filmagem toda dentro da “Fortaleza”. Permitiu que a turma toda dele fosse figurante do filme. E aí, como homenagem – ele já era cassado, já não era mais deputado – o Nelson Pereira foi lançar o filme em Caxias. No filme tem cena da Anecy Rocha, irmã do Glauber, que foi a atriz principal do filme, descendo a escadaria da “Fortaleza” e o meu irmão, que fazia o advogado Baraúna, com uma taça de champagne na mão cantando para ela. Era uma cena dentro da “Fortaleza”.
Ele abria frenquentemente a “Fortaleza”. O casamento da filha dele, a Sandra - casou com  Hidecker  Freitas Lima - eu assisti o casamento. Aconteceu no deck da piscina. Foi um casamento lotado de gente, deputados... isso em 63. Depois ele também fez a festa do casamento de duas sobrinhas, filhas de Dona. Foi o casamento da Maria Helena e o casamento da Alba. Tudo na “Fortaleza”. Não, a Alba quando casou já foi na Vila São José. Eu fui a esses casamentos todos.
Mas no dia do lançamento do Amuleto de Ogum a multidão era muito grande para vê-lo. Ele estava cassado, mas estava com a guarda pessoal dele. E o público invadiu o cinema, a porta do cinema, para tocar nele. E veio a multidão que separou ele da guarda pessoal. Aí ele ficou, por um minuto, sozinho. Foi a hora que eu fui chegando, ele me abraçou e eu fiquei como escudo dele. Ele disse: “Prima! Você é a minha tia Tereza outra vez! Eu olho para você e vejo a sua bisavó! Você é uma legítima Tenório Cavalcanti!” Ele ficou fazendo esse discurso até chegar a guarda e ele ficar outra vez menos estressado. Aí ficamos com  Nelson Pereira, com todo mundo da turma filmando. Depois ele entrou no cinema, assistiu o filme.

Claudio: O Tenório acumulou muitos inimigos ao longo da vida. Mas e os amigos, quem foram os políticos ou as pessoas mais influentes na vida dele?

Luitgarde: Político não é amigo. Os amigos principais dele eram os parentes. Os parentes ficaram com ele até morrer.

Claudio: Os parentes que ele trouxe de Alagoas?

Luitgarde: Não, ele não trouxe. As pessoas vinham. Vinham, procuravam e ele testava. Se era gente de bem ficava com ele, ele empregava. E ele jamais usaria como pistoleiro alguém que não se oferecesse a ele para fazer (o serviço). Porque era muito comum o sujeito chegar: “Deputado! Eu estou com o senhor pra vida e pra morte! Se precisar acabar com um cabra ruim pode falar comigo que tô aqui!” Ele não precisava pagar ninguém, não precisava contratar ninguém. Ele tinha uma mítica tão forte que aqueles caras mais corajosos, que não tinham ética, não tinham respeito à vida humana, vinham se oferecer a ele pelo prazer de dizer que estava servindo ao deputado Tenório Cavalcanti.

Claudio: Ele também costumava sustentar o mito de que tinha o corpo fechado, né? Tanto é que essas cicatrizes que ele tinha...

Luitgarde: Pois é. Exatamente. Mas para a gente ele dizia que o corpo fechado dele era a retidão dos amigos fiéis. Porque se ele estivesse no meio de traidores ele já tinha morrido, mas ele sempre teve homens muito leais. Morreu muita gente em lugar dele. Muita gente serviu de escudo pra ele, voluntariamente. E aí ele protegia a viúva, os órfãos. Quando alguém morria por ele, ele assumia aquele compromisso, botava os filhos para estudar, empregava.. Então, ele teve um longo percurso. Era um homem muito inteligente, se formou em Direito. Ele enfrentava as elites,  não tinha medo. Primeiro que ele era um Tenório Cavalcanti e se sentia como classe dominante. Então, ele achava que não era nenhum Amaral Peixoto da vida, não era nenhum Barcelos Feio que ia dobrá-lo. Ele era um grande sertanejo, descendente dos Holanda de Albuquerque Tenório Cavalcanti. Ele enchia a boca com isso! Ele tinha um ego poderoso. Ele era um homem de um ego poderosíssimo. Muito inteligente! Ele recitava muito bonito, decorava as poesias do Castro Alves, declamava  tudo. Decorava trechos inteiros da constituição. Decorava capítulos inteiros do Direito Penal para fazer a própria defesa.

Claudio: E ele usava esse conhecimento dele de advogado para...

Luitgarde: Usava! Tudo dele era isso. E ele era cheio de tiradas inteligentes. Eu me lembro que um dia – a gente comentando a tragédia da minha família e a injustiça do mundo - ele passou a mão na minha cabeça e me disse - eu jovenzinha, 21 anos: “Minha filha! A justiça é uma bola de borracha que toma o formato da força da mão que a segura.” Ele foi vítima de todas as injustiças da vida, desde o assassinato do pai. E era grato ao meu pai e ao meu tio porque o meu avô vingou o pai dele. Era amável comigo porque a minha bisavó acabou de criá-lo. Então, era um homem cheio de princípios sertanejos: noção de homem de bem; não se mata para roubar, mas em legítima defesa se mata até um batalhão; Deus deu direito à vida e se você recebeu a vida de Deus, ele quer que você preserve ela a qualquer custo. Então ele tinha um discurso, como esse da bola de borracha, e ele dizia para mim assim: “Filha! Tenha medo de quem tem medo de você. O homem que lhe enfrenta olho no olho, a pessoa que lhe enfrenta cara a cara, nunca vai lhe  fazer uma traição, não vai lhe matar de emboscada. Porque um homem corajoso tem sangue no olho, um homem corajoso enfrenta os seus inimigos. Agora, os bandidos, os covardes, não vão lhe enfrentar nunca! Vão lhe fazer emboscadas, contratar pistoleiros, contratar advogados canalhas para inventar crimes contra você. Então, seja sempre um ser humano de bem. Respeite a sua raça!”

Claudio: Então, essa coisa da honra, do caráter nordestino, era muito presente nele, né?

Luitgarde: E muito! Tudo o que ele fazia, isso estava na frente. Ele sempre falava que o tio Nicodemos era o homem que ele mais respeitava no mundo, porque  tio Nicodemos nunca usou um canivete, usava umas medalhinhas do Padre Cícero penduradas no pescoço e, no entanto, interrompia ele para dizer: “Natalício! São João Batista nunca disse isso!” E ele ria. Ele ria da pureza do meu tio. Meu tio interrompia ele em público sem nenhum medo, porque era alguém que tinha vínculos de sangue, tinha vínculos de gratidão, tinha vínculos de lealdade. Então, viver com ele era muito fácil.

Claudio: O Tenório nasceu no dia de São Cosme e Damião.

Luitgarde: É. 27 de setembro.

Claudio: Ele costumava organizar uma festa. Você chegou a presenciar essa festa?

Luitgarde: Lógico! Todos os anos eu fui à festa de aniversário dele. Ele dava um alto banquete para a classe dominante que o visitasse e ele próprio vinha distribuir os doces de São de Cosme e Damião.

Claudio: Para a criançada.

Luitgarde: Para toda a criançada de Caxias! Nenhuma criança saía sem um pacote de bala, um pedaço de bolo. O Tenório fazia questão de pedir às crianças de Caxias para que fossem buscar dentro da casa dele. Tinha que ter presente para todas as crianças. Era o doce de Cosme e Damião e a festa do Natal.

Claudio: A festa do Natal também. Ele organizava uma grande festa?

Luitgarde: É. E ele gostava também de distribuir lápis e caderno para as crianças. Eu conheci o Tenório como sendo um homem comprometido com a grandeza do país. Um homem que tinha princípios éticos inquebrantáveis. Mas quando alguém botava uma tocaia nele, ele eliminava até o último cara da tocaia. Você sabe o que é tocaia?

Claudio: Sei. E em relação à UDN, como é que se deu a entrada dele na UDN? Você saberia me dizer por que ele escolheu a UDN?

Luitgarde: Porque o PSD era do Amaral Peixoto. O seu inimigo principal era o PSD. E desde que ele chegou  em Caxias que o PSD era o poder por lá, contra ele. E a UDN convidou ele para entrar (no partido) porque a UDN só tinha o Lacerda.

Claudio: Dentro da UDN em Caxias ele ficava isolado? Ele não tinha os aliados políticos, ele só tinha os inimigos?

Luitgarde: Não. Ele tinha os amigos dele dentro de Caxias. Por exemplo, eu me lembro que ele era muito amigo do deputado Getúlio de Moura. Getúlio de Moura sempre vinha na casa dele em Caxias. Ele tinha muitos deputados que freqüentavam a casa dele, que o admiravam.

Claudio: Então o que levou ele para a UDN foi mais essas relações de amizade?

Luitgarde: Relações de amizade pessoais. Nenhum partido do Brasil tem ideologia. Você escolhe o partido pelo caráter do sujeito. Isso quando  tinha sujeito de caráter.

Claudio: E ele tinha bastante contato com o Lacerda?

Luitgarde: Toda a UDN telefonava para ele no aniversário, telefonava no Ano Novo, telefonava no Natal. Ele era cortejado por todas as autoridades da UDN.

Claudio: Ele dava muito voto para o partido, né?

Luitgarde: Dava muito voto para o partido. E eu acompanhei muito comunista escondido na casa dele. Em 64, quando ele foi cassado, já não era mais da UDN.

Claudio: pois é, por que você acha que ele deu essa guinada tão radical na filiação partidária dele?

Luitgarde: Ele não deu guinada.

Claudio: Ele sai da UDN e vai se juntar à esquerda nacionalista, né? Vai apoiar o Jango...

Luitgarde: Não, não é isso. Ele sempre foi um lobo solitário. Quando ele achava alguma coisa, ele se comportava conforme aquela coisa. Ele não seguia linha partidária, estou dizendo a você. Ele era “tudo eu sozinho”.

Claudio: Mas o que você acha que explica...

Luitgarde: Ele era um nacionalista! E ele queria fazer crescer Caxias. Ele levou para lá a Fábrica Nacional de Motores. Ele foi lutar para levar para lá a REDUC[6]. Ele era a favor da Petrobrás. Ele era um nacionalista, não compactuava com o entreguismo udenista. Ele não tinha nada a ver com isso. Ele não gostava pessoalmente do Getúlio Vargas por causa das perseguições que ele sofria do genro dele[7]. E o grupo getulista era contra ele.

Claudio: No jornal Luta Democrática, desde 54[8], ele ataca bastante o Getúlio, o Amaral e sempre com aquele discurso udenista da corrupção no governo...

Luitgarde: Mas, vem cá: falar contra a corrupção é ser udenista?! E a corrupção no Fernando Henrique? E atualmente?

Claudio: Mas ele se encaixa naquele discurso.

Luitgarde: Não. Ele não se encaixa no discurso da UDN. A UDN era extremamente corrupta. Ele usa a sua coragem para denunciar a corrupção na era Vargas, que era muito forte. Ele era contra o Filinto Muller. Nesse sentido, ele era de um viés mais comunista. Ele combateu o ditador Vargas como o comunismo  combateu, como a esquerda combateu. E ele era de uma linha nacionalista do Brasil, não importa o partido a que ele estivesse filiado. Não importa.

Claudio: Você acha, então, que ele sempre teve esse discurso mais...

Luitgarde: Ele sempre teve uma visão popular. Ele sempre foi nacionalista. Ele sempre foi um homem do povo, no sentido de querer o melhor.

Claudio: Então o partido só teria dado o apoio necessário para que ele pudesse se tornar um político e mais nada?

Luitgarde: Não, mas ele não começou pela UDN.

Claudio: É. Antes do Estado Novo ele foi da União Progressista Fluminense (UPF).

Luitgarde: Pois é. Pronto.; se dizia até que ele foi da Aliança Nacional Libertadora (ANL).

Claudio: Mas então por que você acha que nas eleições de 60, a primeira eleição do Estado da Guanabara, quando ele já havia saído da UDN, ele não se filiou ao PTB, por exemplo?

Luitgarde: Porque o PTB do Jango tinha fraudado a eleição para ganhar o Badger da Silveira. Tanto que ele (Tenório) entrou com um mandato para mostrar a fraude da eleição e ele já era cassado quando o supremo deu ganho de causa a ele.

Claudio: Isso em 62, né? Nas eleições para o Estado do Rio.

Luitgarde: Pois é. Ele era rompido com quem o perseguia. O partido dele era quem ficasse do lado dele, quem o perseguisse ele era contra. Mas eu via na casa dele, além de comunistas escondidos - na radicalização da reforma agrária -, ele recebia o Francisco Julião. Na radicalização da reforma agrária eu via um cara, Paulo Valente. Paulo Valente Lima, que era alagoano, estava comandando a invasão da terra da fazenda do Capivari, aqui em Caxias. Ele foi cassado por isso, pela invasão das terras. Ele dava apoio e botava dentro de casa. Estou lhe dando o nome: Paulo Valente Lima. Era líder. Entrava com a liderança camponesa invadindo as terras do Estado do Rio. Eu me lembro como hoje o dia da invasão de Capivari. Eu estava na casa dele quando entraram. Ele achava até graça. Se invadissem a propriedade dos inimigos dele, ele ficava feliz da vida.

Claudio: Deixa eu voltar a essa questão do PTB, das eleições de 60. Nessas eleições ele se colocou entre o Lacerda e o Sérgio Magalhães, que era o candidato comunista.

Luitgarde: Ele não apoiou a UDN.

Claudio: Mas por que ele não apoiou o Sérgio Magalhães, que era do PTB e tinha o apoio dos comunistas?

Luitgarde: Porque ele queria se eleger. Eu não estou dizendo que ele era um sujeito muito consciente de si próprio? Ele achava que  tinha cacife para ganhar a eleição.

Claudio: E aí ele entrou num partido pequeno, que era Partido Social Trabalhista (PST).

Luitgarde: Claro! Aquilo não era para ajudar o Lacerda. Ele achou que  ganhava. Do mesmo jeito que o partido comunista achou que podia ganhar com o Sérgio Magalhães. Eu não estava aqui, mas a minha tia (esposa de tio Nicodemos)  encontrou  ele nessa eleição. Porque o meu tio não quis ficar ao lado do Tenório no Rio por causa da fama dele. Meu tio veio para o Rio sem avisar a ele. E ele ficou louco quando a irmã de Palmeira avisou: “Olha, o Nicodemos foi embora, tá aí no Rio”. E ele louco: “Por que o Nicodemos não me procura?” Porque o meu tio era avesso  a esses tiroteios, essas confusões o meu tio não queria e foi morar na Visconde de Pirajá e a minha tia foi no comício dele (Tenório) na Praça da Paz.  Ele lá avistou a minha tia e disse: “Maria! - Ele também tinha uma paixão pela minha tia porque tinha o mesmo nome da mãe dele – Maria do Carmo, me espera aí!” Aí mandou logo alguém ir lá pegá-la e levá-la para o palanque.  Quando acabou o comício ele já foi na casa do tio Nicodemos: “Mas você...eu nunca sou indiferente pra você! Vamos pra Caxias.” O meu tio nunca saia da Visconde de Pirajá, mas ele se entregou. – “Tenha pena de mim, Nicodemos! Eu estou sendo roubado, roubam papel da Luta! Roubam isso, roubam aquilo... Você é o meu homem de confiança!”. E  tio  Nicodemos foi. Largou o emprego que ele tinha na Santa Casa e foi trabalhar na Luta Democrática. E ficou de 60 até quando morreu, já na década de 70.

Claudio: Aproveitando o gancho, você acha que a Luta Democrática ajudou muito a popularidade do Tenório?

Luitgarde: Ajudou a popularidade do Tenório. O Dia daquele tempo era a Luta Democrática. Todo trabalhador - e também as elites que botavam o brasão comunista - só tinha espaço para publicar na Luta Democrática. Nelson Werneck Sodré teve um momento que só tinha espaço para publicar na Luta Democrática. Ele era um baluarte. Ele botava dentro de casa um comunista e não deixava a polícia entrar. Ele tinha uma coisa de grande senhor feudal: “se me procurou tem a minha proteção”. Uma vez, por exemplo, eu e meus irmãos – ele tinha o maior orgulho porque nenhum de nós nunca aceitou emprego dele, nenhum de nós jamais foi empregado por ele, nem trabalhou para ele em canto nenhum. Ele dizia: “Vocês querem fazer vida intelectual, têm a minha admiração”. Mas, ele foi a Alagoas e avisou: “Meus primos do coração estão no Rio! Mataram o irmão deles e os tios porque eu não estava envolvido, mas agora eles estão sob a minha proteção. Se tocarem num cabelo de um desses meninos, que estão lá só fazendo vida intelectual, eu venho aqui e mato até criança de peito!” Ele era assim. Falava com raiva: “Tão lá sob a minha proteção!”

Claudio: Depois ele foi cassado...

Luitgarde: Foi preso.

Claudio: Você acompanhou esse momento dele quando ele foi preso?

Luitgarde: Ele não foi tocado porque o genro dele era coronel. O  Coronel Fortes conseguiu que o Tenório, mesmo cassado, nunca fosse tocado. Então, logo vieram os advogados e  cercaram ele. Ele não voltou para a “Fortaleza”, ele foi viver na Vila São José porque lá ele estava mais protegido. Nessa hora os inimigos iriam se vingar dele e matá-lo, porque ele não tinha mais imunidade. Por isso, nesse momento, ele se fechou. Cercou-se de um cinturão de seguranças e até chegar a ele teriam que atravessar por muitas pessoas na Vila São José.

Claudio: E ele não tentou voltar para a política,  né?

Luitgarde: Não. Cassado é cassado.

Claudio: Mas depois da abertura....

Luitgarde: Ele já estava muito velho.

Claudio: Ele já não tinha mais espaço lá em Caxias?

Luitgarde: Não, ele não tinha mais saúde para tentar a vida política. Ele não tinha mais saúde, ficou muito doente, ficou muito debilitado. Parecia Mal de Parkinson, ele era muito trêmulo, estava muito quebrado. Aí ele não teve mais força.

Claudio: Então, a vida política dele acaba mesmo em 64 quando ele foi cassado?

Luitgarde: Quando ele foi cassado. Só os amigos fiéis e a família ficaram confortando  Os amigos mais fiéis é que ficaram com ele; não os amigos políticos.

Claudio: Aproveitando, o Getúlio de Moura se filiou ao PSD e se elegeu como deputado federal por esse partido. Mas ele sempre foi amigo do Tenório?

Luitgarde: Sempre foi amigo do Tenório. Eu conheci o Getúlio de Moura na casa do Tenório. Os inimigos dele eram do grupo do Amaral Peixoto.

Claudio: O Getúlio de Moura também era um político popular da Baixada?

Luitgarde: Também.

Claudio: Mas era no estilo do Tenório?

Luitgarde: Não. O Tenório era único. Ele era o Rei Momo da política brasileira.

Claudio: O Rei Momo da política (risos!).

Luitgarde: No sentido de primeiro e único. Ele foi o único. Enquanto ele vivia com a “Lurdinha”[9] ele enfrentava os caras dentro do Congresso, ele aprontava! Era um homem comum. Pra mim ele foi uma pessoa muito interessante. Ele me dava muita segurança. Eu sentia que estava perto de alguém que não queria o meu mal. Mas, eu nunca pensei em pedir apoio a ele. Ele botava  eu e meus irmãos para conversar sobre a faculdade. Nessa conversa sobre o mundo intelectual, ele gostava muito de Eça de Queirós. Discutia muito  Eça de Queirós com  meu irmão.

Claudio: Ele foi adquirindo uma boa cultura ao longo do tempo, né? Se formou como advogado...

Luitgarde: Foi. Ele tinha uma boa cultura jurídica.

Claudio: E você acha que isso o ajudou a se firmar no mundo da política ou não?

Luitgarde: Não! O mundo da política é muito pragmático. Ele era dono dos votos. Ele tinha voto. Então o partido queria  ele para escrever a legenda. 

Claudio: Para finalizar, poderíamos dizer que aquilo que mais foi valorizado pelo Tenório foi o caráter nordestino e a fidelidade dos amigos?

Luitgarde: Sim. Era o mais importante, o caráter do sertanejo e a relação com os amigos.

Claudio: Professora, muito obrigado pela entrevista.

Luitgarde: Disponha. E me chame para a defesa.










[1] Nome dado à casa construída em Duque de Caxias onde Tenório Cavalcanti passou a morar na década de 50. A moradia recebeu este nome, pois possuía portas e paredes revestidas com aço e diversas passagens secretas.

[2] Jornal fundado por Tenório Cavalcanti no dia 03 de fevereiro de 1954.
[3] Tradicional revista carioca, que chegou a editar e publicar o livro “Memórias de Tenório Cavalcanti: segundo narrativa a Arlindo Silva”, 1954.
[4] A Vila São José foi construída após as enchentes que assolaram a cidade de Caxias em 1958. É considerada a principal obra da carreira política de Tenório Cavalcanti.
[5] Agenor Barcelos Feio se elegeu deputado federal no Estado do Rio de Janeiro pelo PSD em 1954, quando obteve 22.682 votos (fonte: TSE). Na época o PSD controlava o governo do Estado, primeiro com Amaral Peixoto (51-55) e depois com Miguel Couto Filho (55-58).
[6] Refinaria de Duque de Caxias.
[7] O genro de Getúlio Vargas era Amaral Peixoto.
[8] Época em que era filiado  UDN.
[9] Lurdinha era o apelido da metralhadora que Tenório Cavalcanti carregava com freqüência em lugares públicos, inclusive dentro da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

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