quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Hipnose em Aula de Física?


Gino Martins Borges Bastos

Naquela manhã, a sala de aula não sabia, mas seria levemente deslocada de seu eixo. Quando fui professor de Física, no meio de quadros, fórmulas e a rotina previsível do giz, inseri um elemento inesperado: o hipnotismo. Não como espetáculo, tampouco como truque, mas como provocação, daquelas que despertam o pensamento e desafiam certezas antigas.

À primeira vista, a pergunta parece fora de órbita: o que tem o hipnotismo a ver com a Física? A resposta, no entanto, repousa no coração da própria ciência. Desde Newton, a Física nos ensina que o mundo não se move segundo aquilo que parece óbvio. As três leis que regem o movimento dos corpos, a Inércia, a relação entre força, massa e aceleração e o princípio da Ação e Reação, romperam, em seu tempo, com o senso comum. Revelaram que a intuição, sozinha, é frágil; que é preciso experimentar, testar, duvidar.

É justamente aí que o hipnotismo encontra seu lugar. Assim como a Física, ele desestabiliza certezas. Sob hipnose, alguém pode escrever a primeira palavra aprendida na infância, balbuciar a primeira que aprendeu e outros sons esquecidos pelo tempo, atravessar a pele com uma agulha sem sentir dor ou obedecer a uma ordem simples, como procurar um livro inexistente. O que parecia impossível torna-se experiência concreta. O que parecia óbvio se dissolve.

Sigmund Freud, antes de trilhar os caminhos definitivos da Psicanálise, lançou mão do hipnotismo como instrumento terapêutico. Não é a teoria freudiana que interessa aqui, mas o gesto científico: utilizar um método que desafia explicações fáceis e obriga o observador a rever conceitos sobre consciência, vontade e corpo.

Tanto nos experimentos físicos quanto nas demonstrações hipnóticas, o valor não está no efeito imediato, mas no que ele provoca depois: a inquietação. A pergunta que permanece. A suspeita de que a realidade é mais complexa do que aparenta.

Ensinar Física, afinal, não é treinar alunos a decorar fórmulas, mas convidá-los a adotar um modo de pensar, crítico, experimental, atento às armadilhas do senso comum. Ao inserir o hipnotismo em sala de aula, a intenção não foi mistificar, mas iluminar: mostrar que o espírito científico nasce quando somos capazes de duvidar do óbvio e aceitar que o mundo, assim como a mente humana, obedece a leis que nem sempre se revelam à primeira vista.

No meio de forças invisíveis e reações inesperadas, a Física segue cumprindo seu papel mais nobre: ensinar a pensar, tarefa de extrema relevância nos dias de hoje, em que grupos que se devoram exigem adesão cega ao pensamento do seu próprio lado.




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