quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A MALDIÇÃO E OS MILAGRES DO PADRE NEGRO



Obs: A reportagem abaixo foi publicada em O Norte Fluminense no dia 6 de julho de 2007


PE. JOÃO MENDES RIBEIRO - O PADRE NEGRO



Maldições e Milagres


Multidão acompanhou cerimônia de traslado dos restos mortais do Padre João Mendes Ribeiro

A história do Padre João Mendes Ribeiro, que viveu no distrito de Calheiros, no século passado, foi, repentinamente trazida ao conhecimento de toda a sociedade bonjesuense, como uma comoção, através da informação do traslado dos seus restos mortais para a Capela de Santo Antônio, naquele distrito, no dia 15 de junho passado. Trata-se de uma história impressionante que, mesclada com notícias de milagres e de maldição, causou profunda emoção a todos que afluíram  ao túmulo do Padre para acompanharem o referido traslado. 

 
Antigo túmulo do Padre João Mendes



 
Placa do antigo túmulo afixada em 2003


PERÍODO ESCRAVOCRATA


Padre João Mendes era negro e veio para Calheiros em 1867, segundo o historiador Francisco Camargo Teixeira, em seu livro "BOM JESUS DO ITABAPOANA", portanto, quando ainda vigia a escravatura, que só restou extinta no Brasil, oficialmente, em 1888, com o advento da Lei Áurea. Deflui daí que, antes de ser Padre, João Mendes era um negro forro, isto é, tinha obtido sua liberdade através da alforria. O instituto da alforria tomou forma no Brasil principalmente a partir da exploração do ouro. Constam os registros históricos que, no ano de 1735, de um total de 96.541 escravos, 1.420 eram forros. Cerca de 35 anos depois, os forros alcançaram o percentual de 35% da população negra. A explicação para esse fenômeno se dá pelo fato de os negros terem sido levados para as lavras diamantíferas em Minas Gerais e, assim, acumulavam importância necessária para a compra de sua liberdade. No caso específico de Barbacena, cidade mineira de onde veio Pe. João Mendes, o desenvolvimento da cidade se deu a partir da vinda da família real ao Brasil, em 1808. A então Vila de Barbacena se situava em uma das três vias de abastecimento para a Corte, o que a tornou altamente próspera, com intenso comércio e até atividade de exportação.

Segundo o inglês Johann Emanwel, em seu livro "VIAGEM AO INTERIOR DO BRASIL" em (1817 - 1821), nesta época já havia na cidade mineira 265 negros livres para um total de 2.724 escravos homens. Portanto, o panorama sócio-político de Barbacena (incluindo a localidade de Remédios, onde teria nascido o padre), era de prosperidade, com negros  obtendo a alforria e alcançando ascensão social.


O PRECONCEITO RACIAL


Tela do artista plástico Javerson Spadarotti Bullus retratou a ação do preconceito racial contra o Pe. João Mendes


Dentro, ainda, dos limites dos fatos históricos, é certo que Pe. João Mendes, ao chegar a Calheiros, não foi aceito pelos moradores que cultivavam a mentalidade escravocrata. Relata o Padre José Paulo, da Paróquia de Nosso Senhor Crucificado e Imaculado Coração de Maria, e que presidiu a cerimônia diante do túmulo, que seu avô João Paulo Fonseca, que morava em Itaperuna (RJ), mandou registrar os primeiros filhos em Calheiros, que era um dos lugares mais desenvolvidos da região. 

Assim, seu avô ouviu a história de que um grupo de ricos não aceitava o Padre João Mendes, acusando-o de celebrar uma "missa preta". Recusavam participar da mesma, exclamando: "vamos para a missa branca!". 

Segundo relato da funcionária da Câmara de Vereadores de Bom Jesus do Itabapoana, Elma Soares Cardoso Abreu de Oliveira, o Pe. João Ribeiro fora impedido de morar em Calheiros, e por isso, residiria em Pedral, pertencente à localidade capixaba de  Airituba, em São José do Calçado, do outro lado do rio, onde diariamente tinha de atravessá-lo para realizar suas atividades religiosas.

Sebastião Alves Campos, 79 anos, atestou que a discriminação contra o padre ocorreu inclusive após sua morte, uma vez que ele foi enterrado "no meio do pasto e não no local do cemitério". José Carlos Abreu, conhecido com Sargento Abreu, hoje na reserva, também presente à solenidade, manifestou sua satisfação com o desfecho que presenciava. Lembrou, contudo, que há cerca de 5 anos atrás, publicou um artigo no jornal A Voz do Vale com o título "O PADRE PRETO DE CALHEIROS". Neste artigo, após relatar o preconceito racial sofrido pelo pároco, assentou: "Ao concluir esta narrativa, permito-me perguntar a Calheiros, a Bom Jesus do ltabapoana, à Igreja, às entidades de defesa do negro e de combate à discriminação racial: - O que devemos fazer com referência ao pioneiro Padre Negro? Deverá continuar eternamente sepultado naquele local ermo fora do cemitério de Calheiros? Deve ser enterrado dignamente no cemitério como o são seus semelhantes? Ou devem seus restos mortais ser trasladados para sua terra natal (Barbacena)?"


MILAGRE

Local do rio onde teria ocorrido o milagre


Um relato milagroso é contado por toda a comunidade. Certo dia, os escravocratas, desejosos de se livrarem do Padre João Mendes, conduziram-no à força até o bote, lançando o mesmo rio adentro, sem remos, na expectativa de que a correnteza levasse o Padre até a Cachoeira da Fumaça, onde teria morte certa. Conta Magno Campos de Oliveira, morador de Calheiros que, para surpresa de todos "um vento forte levou o bote para a margem do rio, salvando o padre, o que foi considerado como um milagre". No livro "BOM JESUS DO ITABAPOANA", de Francisco Camargo Teixeira, o milagre é contado da seguinte maneira: "...(O padre) foi abordado  por um grupo de moradores, após celebração da Santa Missa. Forçaram-no a entrar numa canoa, sem remos. Abandonando-a no meio do rio sem poder remar até a outra margem ou evitar a cachoeira que estava próxima. Padre João não se perturbou: sentou-se e abriu seu livro de orações, pondo-se a rezar. A canoa tranquilamente teria seguido para o outro lado e novamente voltado à margem de origem. O povo que tudo assistira o recebeu de volta, aceitando a vontade de Deus". A orientadora pedagógica da Escola Municipalizada Coronel Luiz Vieira, Sheila Brasil Spadarotti Bullus, expôs que, há cerca de dois anos, foi implantado, na comunidade, o seu projeto de resgate da história de Calheiros e da própria Escola. Na ocasião, os alunos da escola realizaram uma peça teatral sobre a vida do Padre João Mendes. Além disso, seu esposo, o artista plástico Javerson Spadarotti Bullus, realizou a pintura de um quadro retratando o conhecido milagre, o qual decorou a Capela de Santo Antonio no dia da celebração do traslado. 


MALDIÇÃO


De acordo, contudo, com forte tradição oral, durante os 120 anos decorridos da morte do Padre João Mendes, uma maldição teria incidido sobre Calheiros, por causa da discriminação racial feita ao Pároco. Clóvis Rosa, 79 anos, atualmente morador do distrito de Rosal, atesta que sempre ouviu falar que, por retaliação ao racismo sofrido, "o Padre teria jogado uma praga na comunidade".

Padre José Paulo menciona que, antigamente, ouvia as pessoas comentarem que Padre João Mendes, revoltado com a discriminação, teria dito: "agora vocês vão ver a coisa ficar preta!". Tempos depois, teria ocorrido uma peste bulbônica na região e "só escapou quem fugia daqui". Desde então, a peste teria sido associada à suposta maldição. Elma Soares Cardoso Abreu de Oliveira relata que ouviu as pessoas comentarem que Padre João Mendes teria jogado uma praga, dizendo que Calheiros "não iria pra frente". Conta ela que, depois disso, ocorreu uma ''chuva de granizo que derrubou os prédios, seguida da varíola 'bexiga preta' que teria matado a maioria dos habitantes". Maria José Tiradentes, 67 anos, moradora atualmente em Bom Jesus do Itabapoana, conta que, na época, "Calheiros era uma região mais desenvolvida que Bom Jesus, mas após a doença que matou quase todo mundo, a região regrediu". 


SANTO


Maria José de Souza, também residente em Bom Jesus do Itabapoana, narra, por outro lado. que, quando jovem, testemunhou um fato extraordinário: " vi várias vezes, o vulto do Padre João sobre o seu túmulo". Sebastião Alves Campos, morador do distrito, mencionou que a comunidade, no ano de 2003, tentou apaziguar a suposta maldição: "Fizeram um novo túmulo para o Pe. João Mendes, e cercaram a área, para ver se Calheiros desenvolvia". Com efeito, na placa constante do túmulo do pároco, aposta no ano de 2003, consta o seguinte escrito: "Pe. João Mendes Ribeiro, nomeado 1°. Vigário do Arraial em 1867 interceda a Jesus pelo povo de Calheiros. Janeiro 2003". Na esteira desta concepção, José Ronaldo Ribeiro da Silva, 38, afirma que "pessoas que visitam o túmulo dizem que receberam graças, por intermédio do Pe. João Mendes. Há pessoas devotas do padre".


PETIÇÃO E  SENTENÇA PARA TRASLADO DOS RESTOS MORTAIS



Magistrado dr. Luiz Alberto Nunes autorizou o traslado dos restos mortais do Padre João Mendes




 O fato é que durante todos esses 120 anos que sucederam a morte do Padre José Mendes Ribeiro até os dias atuais, tudo o que de ruim ocorresse na comunidade, era atribuído à "praga do padre preto", conforme um texto assinado em nome da comunidade de Calheiros, solicitando a transferência dos restos mortais do Padre para a Capela de Santo Antonio, como meio de reparar a injustiça e acabar com a "maldição". O Pároco da Paróquia do Senhor Bom Jesus, Vicente Osmar Batista Coelho encampou o desejo da comunidade e aforou um pedido de Alvará Judicial, através do advogado dr. Ademir Monteiro da Silva, ao Juiz da 1a. Vara da Comarca, dr. Luiz Alberto Nunes da Silva, pleiteando o referido traslado. Na petição, restou assinalado que "as pessoas daquele Distrito - em sua maioria cristã - encarregadas de promover a paz e a harmonia ali têm dificuldades de lidar com esses fatos e, por conseguinte, pretendem contribuir para seu desfecho, porém, de maneira solidária e cristã, desejam dar ao padre e aos seus restos mortais uma sepultura digna". Em sua sentença que deferiu o pedido, o Magistrado assinalou: "Não se enganem tampouco fiquem surpresos, porque este juiz também já ouviu falar sobre esses fatos... Ao encerrar, este juiz se associa, cumprimentando os moradores de Calheiros neste pleito que é, sem sombra de dúvida, o resgate, a mensagem, a testemunha dos tempos, a luz da verdade, a mestra da vida, a mensageira de sua fé inabalável, desembocando provavelmente num legítimo, autêntico e puro resgate da vontade de seus ancestrais que circunstancialmente não tiveram tempo de promovê-lo. Ante o exposto, acolho, por sentença, o pedido inaugural e, por conseguinte, autorizo a transferência dos restos mortais do várias vezes mencionado Padre José Mendes Ribeiro, do local onde se encontram, para dentro da Capela de Santo Antonio. de propriedade da Igreja Católica, na Vila de Calheiros, 2°. Distrito do Município de Bom Jesus do ltabapoana".





A CERIMÔNIA

Padres Vicente Osmar e José Paulo

Com a autorização judicial, a comunidade de Calheiros distribuiu um convite à comunidade, lembrando que o Pe. João Mendes fora vítima de 'preconceito racial" e que o traslado objetivava prestar uma 'justa homenagem ao Pe. João Mendes Ribeiro, mineiro de Barbacena, negro, zeloso cumpridor de seus deveres, bondoso pastor do rebanho do Senhor, dedicado a esta comunidade, nomeado em 1879  1'. Pároco do então Arraial de Santo Antonio". Para o presidente da Associação de Moradores de Calheiros, João Luís Carreiro, que lançou o livro "A Praga do Padre Preto", e que idealizou o traslado dos restos mortais, atuando para a realização do evento, trata-se de um "movimento justo, para pedir perdão em nome dos antepassados, pois o padre só fez o bem e, no entanto, foi maltratado". Jussara Miranda, do Movimento Negro de Pesquisa e Cultura Negra de Bom Jesus do Itabapoana, acentuou "a importância deste fato histórico e a mobilização da comunidade para romper estigmas e preconceitos". Assinalou, ainda que, "a cor da pele não quer dizer nada" e que este acontecimento contribuiu para a superação da exclusão do passado". Jailton da Penha, escritor e repórter da TV Câmara, assentou que "hoje se faz justiça, após tantos anos... o racismo hoje é mais velado, antes, era violento, explícito, como se comprovou com a história do Pe. João Mendes. Hoje, vários movimentos negros se organizam, avançando na valorização da raça negra, que tem em Zumbi dos Palmares, o herói general da causa negra". Dejair Decimoni, 71 anos, administrador do 2°. Distrito, por sua vez, estava contente com a cerimônia: "É um papel bonito para a Igreja!", exclamou. Eraldo Saluto de Rezende, líder da comunidade, reconhece o fato como uma "reparação histórica, em que a Igreja reconhece o valor do Padre João Mendes, ao mesmo tempo em que Deus estende a mão à comunidade que reconhece o erro, reparando o mal do passado".

Pastor João Lopes: "Pe. João Mendes é ministro e tem de ser respeitado"


 O pastor João Lopes, ministro da Igreja Assembleia de Deus, Convenção Geral, atuando há cerca de 16 anos em Calheiros, fez questão de estar presente ao evento, e aprovou o traslado: "Pe. João Mendes é ministro e tem de ser respeitado", assinalou. Padre José Paulo considerou o acontecimento uma "grande oportunidade para a reflexão sobre a caridade e o respeito à pessoa consagrada, assim como para a correção do erro". Padre Vicente Osmar salientou a relevância do fato de "o povo de Deus reconhecer o trabalho do Pe. João Mendes, um homem chamado por Deus, ao mesmo tempo em que se faz a reparação à injustiça cometida". 


A ESCAVAÇÃO












Antes do início da escavação do túmulo, o Padre José Paulo realizou uma cerimônia religiosa, diante de uma multidão que se aglomerava ao redor. Neste momento, o Padre Vicente Osmar também anunciou que pretende propor às autoridades municipais a construção, no local onde se encontrava o túmulo, de uma capela mortuária.

Luciano Bastos, Diretor de O Norte Fluminense, esteve presente ao evento



Igor, Marcelo Almeida e Jailton da Penha da TV Câmara registraram a solenidade


A escavação teve início por volta das 10h:30min, com a participação do Delegado de Polícia Dr. Renato Peres, que agilizou os procedimentos técnicos necessários, com sua equipe. 






Cada golpe de enxadão que atingia a terra era acompanhado com extrema atenção por todos. Após alcançarem o subsolo, os 4 trabalhadores indicados para a escavação se defrontaram com cerca de 11 pedras de médio porte, o que aguçou ainda mais a curiosidade dos presentes. Após a retirada das mesmas, os golpes de enxadões foram feitos com cuidado para não danificarem os restos mortais eventualmente encontrados. Momentos depois, encontrou-se o primeiro objeto, que indicava ser um pequeno pedaço da alça de caixão, fato este que se deu por volta das 11 horas. Prosseguindo a escavação, encontraram-se dois pequenos objetos que sugeriam ser adornos do caixão. Em seguida, alguém gritou que encontrara uma baleba no túmulo. Todos atentaram-se para a descoberta. Realmente havia uma baleba, mas descobriu-se que a mesma fora jogada para dentro da cova por uma das crianças que assistia ao desaterro.

Dente encontrado às 11h 20min
 
Por volta das 11h:20 min encontrou-se finalmente o primeiro resto mortal de Pe. João Mendes: um dente em perfeito estado de conservação. Posteriormente outro dente e, em seguida, algo semelhante a uma arcada dentária. E foi só. Os 120 anos que se passaram, consumiram o resto. Era como se o tempo informasse que apenas a palavra do Padre José Mendes permanecia presente. Os restos mortais do Pároco foram acondicionados em um recipiente de madeira e levados à Capela de Santo Antônio, onde restou celebrada a Santa Missa, antes da consumação do traslado. Após o encerramento da celebração, a Professora Maria Terezinha Fontes de Oliveira usou da palavra para agradecer, em nome da comunidade de Calheiros ao Juiz de Direito da Comarca, dr. Luiz Alberto Nunes da Silva, presente à solenidade, pela sentença proferida, que proporcionou as condições de um novo tempo para a comunidade. Em continuação, foi distribuída a "ORAÇÃO PELA ALMA DO PADRE JOÃO MENDES RIBEIRO", que reproduzimos a seguir. "Ó Deus Onipotente e Eterno, concedei pela santa intercessão da alma santa do Padre João Mendes Ribeiro o perdão dos nossos antepassados que praticaram injustiça contra esse ser humano que, minutos antes celebrava a Santa Missa renovando o sacrifício da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e distribuiu a Sagrada Comunhão aos fiéis. Faça Divino Mestre, que a oração feita por ele na sua aflição vendo que estava perdido nas águas do rio Itabapoana numa canoa sem remo, o salvou da morte naquela hora de tribulação, venha salvar o povo de Calheiros que implora o perdão e a misericórdia, por Cristo Nosso Senhor Amém. Pai Nosso, Ave Maria e Glória". 


O NOVO MILAGRE


Os restos mortais de Pe. João Mendes encontram-se, doravante, em local reconhecidamente sagrado. O exemplo observado neste dia, de união entre as raças e as religiões pode ser considerado mais um milagre do Padre João Mendes Ribeiro.



Cerimônia


Os restos mortais do Padre João Mendes estão perenemente na Capela de Santo Antônio




































































3 comentários:

  1. excelente trabalho. parabéns a todos que contribuiram para a reparação de tamanha injustiça; não sei se é um santo, mas com toda certeza foi um mártir, uma vítima do preconceito e racismo absurdos que tanto em pobrecem a nossa história.

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  2. Cada palavra, cada texto que lia sobre ele, me arrepiava. Me falaram que ele tia sido morto na Cachoeira da Fumaça, mas pelo que li, ele foi salvo por Deus!
    então me veio a dúvida... como que ele morreu?
    Se alguém puder me esclarecer isso, agradeço!

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  3. Segundo informações, Pe. João Mendes teria morrido da varíola "bexiga preta". (NE)

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