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Em plena Trezena de Santo Antônio, acompanhei o Dr. Gino, Paulino, André e Isac, da TV Alcance, um canal que realiza importante trabalho de valorização da cultura e da história do Noroeste Fluminense, em uma visita à comunidade da Jacutinga. O objetivo era registrar, para a memória regional, os trabalhos ligados à colheita do café durante a safra de 2026.
Na comunidade, encontramos muito mais do que lavouras. Conhecemos o Café Jacutinga, produzido por João Antônio e Margarida. O nome é uma homenagem ao pássaro jacutinga, abundante na região em tempos passados e considerado um importante disseminador de sementes nas matas locais. Foram justamente essas matas que os primeiros colonizadores italianos, vindos no navio Atività, começaram a desbravar ao subir a Serra da Sapucaia até alcançarem as terras que hoje formam a comunidade.
Visitamos também o Café LG, de Luís Grilo, além de diversas propriedades que produzem tanto cafés especiais quanto café tradicional em larga escala. A economia local se fortalece ainda com a pecuária leiteira e de corte, a criação de suínos, aves e outros cultivos agrícolas.
Tivemos a alegria de conversar com representantes das gerações mais antigas das famílias que ajudaram a construir a história da Jacutinga: o senhor Geraldo Grilo, esposa América Pirozzi(em memória)e a senhora Catarina Rodolphi, esposo Sr. Damasino Rodolphi(em memória). Com evidente emoção, seu Geraldo falou sobre os filhos:
“Tenho muito orgulho deles. Cada um possui dois ou três tratores. Se não gostassem de trabalhar, para que tantos tratores? Ensinei que o trabalho deve ser sério, sem prejudicar ninguém, pagando corretamente os empregados e mantendo a religiosidade que herdamos de nossos antepassados.”
Cada filho administra mais de vinte alqueires de terra, onde trabalha e vive com dignidade com suas famílias e até filhos casados e netos. As propriedades bem cuidadas, as casas acolhedoras e os jardins floridos revelam um modo de vida que valoriza o esforço, a família e a beleza.
João Antônio resumiu esse sentimento com simplicidade e sabedoria:
“Não tivemos muito estudo, mas temos cultura suficiente para oferecer qualidade de vida às nossas famílias. Sabemos cuidar da terra e sabemos apreciar o que é bom.”
Devoto de Santo Antônio, ele contou uma história que arrancou risos de todos:
“Um dia fui a Aparecida e vi uma imagem enorme de Santo Antônio. Cheguei perto e falei: ‘Uai, Santo Antônio, o senhor está fazendo o que aqui? O senhor não é lá da Jacutinga?’ O padre que estava comigo morreu de rir.”
A devoção ao santo é tão presente que muitos se referem ao lugar como “Santo Antônio da Jacutinga”. E essa fé se traduz em ação. A comunidade está mobilizada para concluir ainda este ano as obras da bela igreja local, sob a liderança do pároco.
“Fazemos leilões por família, e é uma disputa saudável”, explicou João Antônio. “Cada dia uma família traz as prendas. Ninguém deixa sair barato; todos querem ajudar mais. Assim nos divertimos, fortalecemos nossa amizade e contribuímos para a igreja. E, se o padre precisar de ajuda para alguma obra daqui, estamos sempre prontos.”
Ao final da visita, ficou claro que a Jacutinga produz muito mais do que café. Produz exemplos de união, fé, trabalho, respeito às raízes e amor à terra. Uma comunidade onde tradição e progresso caminham juntos, mantendo viva a herança dos antepassados e construindo um futuro de prosperidade para as novas gerações.
(Isabel Menezes, professora, escritora e historiadora)









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