sexta-feira, 5 de junho de 2026

Sob as Janelas do Casarão: A Infância das Meninas em Pirapetinga, por Adalto Boechat Jr.



Há uma mística sutil nos fins de tarde em que o chão batido e o paralelepípedo parecem suspender o próprio correr das horas. O cenário se desenha como uma pintura viva da memória afetiva de nossas pequenas cidades, onde o passado e o presente não duelam, mas se abraçam no mesmo espaço de terra.

​Ao fundo, ergue-se o casarão imponente. Suas linhas antigas, as janelas emolduradas em tons de azul e o telhado colonial carregado de histórias testemunham, em silêncio, a passagem das gerações. Ele repousa sobre a sólida muralha de pedras, como um guardião de eras idas, assistindo à eterna renovação da vida que acontece logo ali no pátio. A mata densa que coroa o morro abraça a arquitetura e a sntiga sede, trazendo o frescor da terra para o enredo urbano.

​Mas a alma da imagem não reside na estática beleza das paredes centenárias; ela palpita no movimento livre da infância. Três meninas guiam suas bicicletas pelo chão úmido, desafiando a gravidade e o próprio tempo. Uma delas, vestindo um casaco rosa vibrante, dita o ritmo da vanguarda, pedalando firme rumo ao horizonte que se abre. Logo atrás, o milagre do equilíbrio compartilhado: duas amigas dividem a mesma bicicleta. A que vai na garupa estende as pernas para os lados, em um voo ensaiado de chinelos de dedo, as asas invisíveis de quem confia plenamente em quem segura o guidão.

​Há uma poesia tocante nesse contraste. O casarão antigo representa a raiz, a solidez daquilo que permanece e resiste aos anos. As meninas e suas bicicletas representam a asa, a efemeridade de um instante de pura leveza que amanhã já será saudade. O vento que bagunça os cabelos escuros da infância é o mesmo que, séculos atrás, secou a argamassa daquelas janelas azuis.

​Resta-nos contemplar a imagem e perceber que a felicidade, muitas vezes, não exige grandes palcos. Ela se contenta com um chão aberto para rodar, uma amiga para compartilhar o peso do caminho e a doce certeza de que, enquanto houver infância riscando o chão de nossas vilas, a história continuará viva, leve e em movimento.


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