quarta-feira, 1 de julho de 2026

O Café dos Homens Obscuros



O vapor que sobe da xícara é o mesmo para todos.

Na mesa ao canto, um homem de bigode rascunha telas que ninguém quer comprar; do outro lado, um jovem revolucionário de olhar firme planeja o colapso dos impérios; e, a poucos passos dali, um médico fita o vazio, tentando decifrar os mistérios da mente humana.

​Eles cruzam olhares por um breve segundo.

Não há faíscas, não há avisos.

Apenas o tilintar de colheres e o murmúrio de uma Viena que ignora o amanhã.

São apenas rostos na multidão. Homens obscuros, vestidos de anonimato.

​Ninguém ali sabe que carrega o peso do mundo nos bolsos.

Ninguém prevê que aquele silêncio banal é, na verdade, o olho do furacão.

​Assim vivemos nós, nos cafés do nosso próprio tempo.

Olhamos para o lado sem saber se o desconhecido na mesa vizinha permanecerá na penumbra até o fim de seus dias, ou se está prestes a ser empurrado, com violência ou glória, para o centro exato da história.

​O destino caminha sem pressa, disfarçado de cliente comum, esperando a hora de pagar a conta e mudar o mundo.

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