quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O Norte Fluminense homenageia Jorge e Nara, os jornaleiros de Bom Jesus


Na Praça Governador Portela, a notícia encontra o povo



Neste 30 de setembro, Dia do Jornaleiro, o jornal O Norte Fluminense, representado por André Luiz de Oliveira, entregou um certificado de reconhecimento aos jornaleiros bonjesuenses Jorge de Araújo Sampaio e Nara Pimentel do Carmo Sampaio, em homenagem à dedicação com que mantêm viva, em Bom Jesus do Itabapoana, uma das mais tradicionais e importantes profissões ligadas à comunicação.

Durante gerações, o jornaleiro ajudou o Brasil a despertar. Antes que a notícia coubesse na tela de um telefone e atravessasse o mundo em poucos segundos, ela precisava de mãos, passos e vozes. Precisava de alguém que a carregasse pelas ruas, enfrentando o frio das madrugadas, o calor das calçadas e a pressa das cidades.

O jornaleiro era o primeiro mensageiro do dia.

Muito cedo, quando as janelas ainda permaneciam fechadas e a cidade começava lentamente a respirar, ele já estava de pé. Recebia os jornais ainda perfumados pela tinta fresca, organizava os exemplares e saía para anunciar aquilo que o mundo havia vivido enquanto os outros dormiam.

Seu grito atravessava praças, esquinas e avenidas:

- Olha o jornal! As notícias do dia!

A profissão teria surgido no Brasil há cerca de 150 anos. Nos primeiros tempos, a distribuição era realizada por negros escravizados, que percorriam as ruas anunciando as principais manchetes para despertar a atenção dos transeuntes. Em 1858, A Atualidade tornou-se o primeiro jornal vendido avulsamente no país.
Era a notícia deixando os salões e as assinaturas particulares para encontrar o povo nas ruas.

No início do século XX, alguns jornaleiros passaram a utilizar cavalos, encurtando distâncias e acelerando a circulação das informações. Homem e animal atravessavam as ruas levando notícias políticas, fatos policiais, anúncios comerciais, acontecimentos esportivos e histórias da vida cotidiana.

Cada exemplar entregue de mão em mão parecia conter um pedaço do mundo.
Muitos jornaleiros eram imigrantes italianos. Inicialmente, acomodavam os periódicos sobre caixotes cobertos por tábuas. Foi o italiano Carmine Labanca, no Rio de Janeiro, quem construiu um dos primeiros pontos fixos destinados à venda de jornais. De seu sobrenome teria nascido a palavra “banca”, que atravessou o tempo e se incorporou definitivamente ao vocabulário das cidades brasileiras.

Os caixotes ganharam estruturas de madeira. Mais tarde, sobretudo a partir da década de 1950, surgiram as bancas de metal. Algumas cresceram, receberam iluminação, ventilação, pisos revestidos e novas mercadorias. Apesar das transformações, continuaram guardando sua essência: eram pequenas casas da palavra, vitrines abertas para o conhecimento e pontos de encontro entre leitores.

Na banca, comprava-se muito mais do que papel.

Comprava-se o jornal que ajudava a compreender a política; a revista que mostrava lugares distantes; a publicação esportiva que alimentava paixões; o gibi que despertava a imaginação das crianças; e a coleção que, semana após semana, construía pequenas bibliotecas dentro dos lares.

Houve um tempo, porém, em que muitos desses mensageiros eram meninos. Para vender mais exemplares, caminhavam pelas ruas até altas horas e, não raramente, dormiam nas calçadas. Foi para acolhê-los que surgiu, em 1940, a Casa do Pequeno Jornaleiro, principal projeto da Fundação Darcy Vargas.

A instituição oferecia abrigo noturno e permitia que aqueles jovens frequentassem aulas e cursos profissionalizantes sem abandonar imediatamente o trabalho que lhes assegurava a sobrevivência. Com o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990, sua missão foi transformada, passando a oferecer reforço escolar e atividades complementares às crianças e aos adolescentes.

Até as palavras guardam a memória dessa profissão.

“Jornal” deriva do latim diurnalis, ligado ao dia e ao registro cotidiano dos acontecimentos. O “gazeteiro”, como também era chamado o vendedor de jornais, acabou emprestando seu nome ao estudante que faltava às aulas para permanecer diante das bancas, encantado com jornais e revistas. E “gazeta” remonta à gazetta, antiga moeda veneziana relacionada ao preço das primeiras publicações.

Assim, a história do jornaleiro também permanece escrita na língua que falamos.

Uma homenagem aos jornaleiros de Bom Jesus

Em Bom Jesus do Itabapoana, essa tradição permanece viva pelas mãos de Jorge de Araújo Sampaio e Nara Pimentel do Carmo Sampaio, que há quatro anos exercem seu ofício na Praça Governador Portela, coração da cidade.

Ali, por onde diariamente passam trabalhadores, estudantes, aposentados, visitantes e famílias, Jorge e Nara mantêm aberta uma pequena janela para o mundo. A praça muda de luz, as árvores acompanham as estações e as pessoas atravessam seus caminhos apressadamente. Eles, contudo, permanecem em seu posto, acolhendo os leitores com atenção, cordialidade e dedicação.

Jorge e Nara não entregam apenas jornais e revistas. Entregam informação, cultura e conhecimento. Em cada publicação colocada nas mãos de um leitor, ajudam a preservar o antigo e precioso hábito da leitura impressa: esse encontro silencioso entre os olhos, o papel e o pensamento.

Sua presença na Praça Governador Portela já integra a paisagem humana e afetiva de Bom Jesus do Itabapoana. Eles testemunham o despertar da cidade, acompanham seu movimento cotidiano e ajudam a manter viva uma profissão que atravessou gerações e resistiu a profundas mudanças tecnológicas.
Hoje, as notícias chegam instantaneamente. As manchetes iluminam pequenas telas antes mesmo que o sol alcance as janelas. Muitas bancas desapareceram, e o silêncio ocupou esquinas onde antes havia vozes, conversas e páginas sendo folheadas.

Nenhuma tecnologia, entretanto, apagará a importância daqueles que fizeram, e ainda fazem, a informação circular.

O jornaleiro não vende apenas jornais. Ele distribui consciência, cultura, imaginação e cidadania. É testemunha das transformações de sua cidade, conhece seus leitores e sabe qual publicação cada um espera. Em sua banca, o cotidiano encontra a história; e a história, ainda guardada no papel, passa de suas mãos para as mãos do povo.

Neste 30 de setembro, a homenagem de O Norte Fluminense alcança todos os jornaleiros do Brasil, mas repousa especialmente sobre Jorge de Araújo Sampaio e Nara Pimentel do Carmo Sampaio, dignos representantes dessa valorosa profissão em Bom Jesus do Itabapoana.

Que a Praça Governador Portela continue sendo não apenas o coração geográfico da cidade, mas também o lugar onde a notícia, a leitura e a amizade se encontram.







Italian Music


 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

The Four Preps


 

UM ABRAÇO APERTADINHO... por Rogério Loureiro Xavier

 


Olá 🖐 pessoa amiga e do bem.


*UM ABRAÇO APERTADINHO...*


Abraço...

É demonstração de afeto, carinho e muito amor. É saudade e lágrima, mas também é calor. Abraço é amar, é querer aconchego. É sentir um amigo com todo o seu apego. Podemos abraçar uma causa, uma pessoa. Abraço é abraço: É cingir e cercar, é não sentir espaço. Abraçar uma causa é o que nos faz sentir que quem luta acredita e nunca irá desistir. Abraçar uma criança é transmitir-lhe carinho, é dizer-lhe com os braços que nunca estará sozinho. Abraçar um amigo com toda a fraternidade é como dizer estou aqui! Para a toda a eternidade. Abraçar um grande amor com toda a compreensão é desatar todos os nós e fazer laço de união. Vamos assim abraçar uma criança, uma causa, um amigo e o nosso amor? Custa tão pouco abraçar... Acredita, não dá dor!


*“Se pudéssemos ter consciência do quanto a nossa vida é passageira talvez pensássemos duas vezes antes de deixar fora as oportunidades que temos de ser e de fazer os outros felizes!”*


*✍️ ... Rogerio Loureiro Xavier*

Kaliningrado: uma ilha de terra cercada pela História

 



Existem lugares que pertencem a um país, mas parecem viver separados de sua própria pátria. Kaliningrado é um deles: fragmento da Rússia lançado às margens do Mar Báltico, entre a Polônia e a Lituânia, como uma ilha de terra cercada não pelas águas, mas pelas fronteiras e inquietações da História.

Antes de se chamar Kaliningrado, foi Königsberg. Em suas ruas antigas, erguidas à sombra de muralhas e torres, caminhou Immanuel Kant, o filósofo que perscrutou os limites da razão e jamais precisou viajar para encontrar a vastidão do mundo. Talvez nenhuma cidade pudesse representar melhor as contradições humanas: ali, onde um homem procurou compreender a paz, os séculos acumularam guerras, conquistas e despedidas.

Fundada em 1255 pela Ordem Teutônica, Königsberg tornou-se o coração da Prússia Oriental e um importante centro da cultura alemã. Mas a Segunda Guerra Mundial passou sobre ela como uma tempestade de ferro. Ao final do conflito, a cidade foi conquistada pelo Exército Vermelho e incorporada à União Soviética. Em 1946, recebeu outro nome: Kaliningrado. A antiga população alemã partiu de sua terra natal, enquanto novos habitantes soviéticos chegaram para ocupar casas que ainda guardavam as sombras, os objetos e os silêncios daqueles que haviam partido.

Mudaram-se os nomes das ruas, as bandeiras e a língua. Entretanto, as pedras permaneceram. E as pedras, quando sobrevivem aos homens, tornam-se testemunhas.

Hoje, Kaliningrado é uma sentinela russa no coração da Europa Oriental. Seu porto de Baltiysk, livre do gelo no inverno, abriga a Frota do Báltico. Navios, radares e instalações militares convivem com os vestígios de igrejas, fortalezas e ruínas de outro tempo. Próximo dali encontra-se o estratégico Corredor de Suwałki, estreita faixa territorial observada com apreensão por estrategistas e governos.

Tudo em Kaliningrado parece carregar um duplo significado. O mar tanto aproxima quanto separa. O porto pode ser abrigo ou ameaça. As fronteiras protegem, mas também aprisionam. A cidade pertence à Rússia, embora esteja fisicamente apartada dela; situa-se na Europa, mas vive sob o peso de uma permanente tensão entre o Oriente e o Ocidente.

Talvez Kaliningrado seja mais do que um território estratégico. É uma metáfora do próprio mundo: habitamos o presente, mas continuamos cercados pelas decisões do passado. Sob os edifícios modernos repousam os alicerces de Königsberg; sob o nome russo ainda palpita a memória prussiana; sob a aparente tranquilidade do Báltico movem-se correntes profundas, invisíveis aos olhos apressados.

No céu de Kaliningrado, as gaivotas atravessam as fronteiras sem apresentar passaporte. Voam sobre navios de guerra, monumentos soviéticos e antigas construções alemãs, indiferentes aos mapas desenhados pelos homens.

Naquele pedaço de terra a História nunca terminou de passar.

Muchacho e o saxofone que fala à alma


Muchacho pertence ao grupo dos raros músicos que não apenas tocam: conversam com o silêncio, despertam lembranças e fazem o coração acompanhar cada nota.

Sob as luzes azuis do palco, o saxofone reluz em suas mãos como se fosse feito de ouro e luar. Muchacho se inclina suavemente sobre o instrumento e, por alguns instantes, o mundo ao redor desaparece. Permanecem apenas o músico, a respiração e aquela voz metálica e aveludada que nasce do peito antes de ganhar os caminhos da música.

Cada nota parece carregar uma história. Há nela o rumor das noites festivas, o encanto dos antigos bailes, a emoção dos reencontros e a saudade daqueles que partiram, mas continuam vivendo nas canções. O saxofone ora canta, ora chora, ora se eleva alegremente, como se soubesse traduzir todos os sentimentos que as palavras não conseguem alcançar.

Muchacho toca com a serenidade de quem conhece os segredos da música. Seus dedos percorrem as chaves do instrumento, enquanto a melodia se espalha pelo ambiente e envolve cada pessoa. Quem o escuta não permanece indiferente: alguma memória desperta, algum sonho retorna, algum sentimento adormecido volta a respirar.

No palco, ele não precisa de muitas palavras. Sua mensagem viaja pelo sopro. E o sopro, transformado em música, chega ao coração de quem ouve como uma brisa luminosa. Sob os refletores, entre o azul da noite e o brilho dourado do saxofone, Muchacho se torna parte da própria canção.

Quando a última nota finalmente repousa no silêncio, algo permanece no ar. É a sensação de que a música não terminou, apenas encontrou abrigo dentro de cada pessoa.

Quando Muchacho toca, o saxofone deixa de ser somente um instrumento. Torna-se voz, memória, emoção e poesia.

Johnny Tillotson