Por Gino Martins Borges Bastos
Em 2015, percorri a curva silenciosa das montanhas do Noroeste Fluminense, onde o tempo parece caminhar mais devagar entre pastagens e lembranças, e fui ao encontro da Fazenda Bela Vista, que permanecia erguida como um relicário vivo da história rural do interior do Rio de Janeiro. Ali, cada parede, cada varanda e cada porteira pareciam guardar vozes antigas que o vento insistia em não deixar morrer.
Foi em 28 de abril de 1892 que o Coronel Balbino Rodrigues França adquiriu, por 60 contos de réis, a imponente propriedade situada na então zona rural de Natividade, distrito de Itaperuna. A terra fértil e extensa logo se transformaria em símbolo de prosperidade e trabalho, moldada pela força do café, o ouro escuro que desenhou o destino econômico de tantas famílias brasileiras.
Cinco anos depois, vindos de uma Europa marcada pela fome e pelas incertezas, chegaram os italianos. Traziam nas malas quase nada; nas mãos, a coragem; e nos olhos, o sonho obstinado de recomeçar. Entre eles estavam Ludovico Gorini, Ângelo Rodolphi e Antônia Delceti, que primeiro se instalaram na região conhecida como Paraíso, depois nas proximidades da sede da fazenda, até seguirem rumo às terras que dariam origem à identidade de Varre-Sai.
Foi dali, das encostas da Bela Vista, que muitos italianos partiram para colonizar o pequeno município serrano de Varre-Sai. Levavam consigo não apenas ferramentas e sementes, mas uma cultura moldada pelo sacrifício, pela disciplina e pela esperança. Com a capacidade de sonhar mesmo diante das dificuldades, transformaram terras íngremes em lavouras produtivas, fizeram brotar riqueza onde antes havia apenas mata e silêncio, e ajudaram a construir uma das histórias mais emblemáticas da imigração italiana no Estado do Rio de Janeiro.
Décadas depois, Varre-Sai se tornaria a capital estadual do café, reconhecida pela qualidade de sua produção e pela força de um povo que aprendeu a cultivar a terra como quem cultiva a própria vida. Das mãos calejadas dos imigrantes nasceram também tradições que atravessaram gerações, como a produção artesanal do vinho de jabuticaba, bebida que se tornou símbolo cultural e afetivo do município, preservando o sabor da memória italiana em solo fluminense.
Na Fazenda Bela Vista, o café dominava a paisagem e o cotidiano. Em 1975, uma frase escrita na parede da secretaria traduzia o espírito de uma época inteira: “O café é o soldado permanente da batalha econômica do Brasil”. A sentença permanecia ali não apenas como um lema, mas como uma espécie de oração civil, repetida silenciosamente pelos homens que acordavam antes do sol para trabalhar a terra.
Na época, restavam poucas mudas de café na propriedade. O verde dos cafezais cedeu espaço à criação de gado de corte, acompanhando as transformações inevitáveis do campo brasileiro. Ainda assim, a alma da fazenda continuava intacta. Conservada com zelo por sucessivas gerações da família França, passando pelas mãos de Francelino França e chegando, na época, aos cuidados de Luís França, a propriedade preservava mais do que construções antigas: preservava memórias.
Os imóveis impressionavam pela conservação rigorosa. Havia no casarão, nas janelas largas e nos corredores de madeira, uma sensação rara de permanência. Como se o passado não tivesse ido embora, apenas escolhido permanecer em silêncio.
Pela antiga área da serraria, um aviso resistia ao desgaste do tempo: “O tempo gasto em conversa é roubado ao trabalho”. Mais adiante, próximo à sede, outra inscrição parecia resumir a ética simples e profunda das antigas gerações rurais: “Tem o direito de criticar o que tem coragem de ajudar”.
E entre tantas frases que atravessaram décadas, talvez a mais delicada fosse a que homenageia alguém cuja ausência ainda habitava a fazenda: “Abrigo Yeda França”. Pequena placa, grande memória.
A Fazenda Bela Vista não é apenas uma propriedade centenária. É um marco silencioso da formação cultural e econômica de Varre-Sai. Um lugar onde o passado ainda respira entre montanhas, lembrando que cidades não nascem apenas de estradas e construções, mas sobretudo do esforço anônimo de homens e mulheres que tiveram coragem de partir, trabalhar e acreditar.
| Cangas das antigas tropas |
| Capela da Fazenda Bela Vista |
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