terça-feira, 23 de junho de 2026

Apiacá e os Açores: O Dia do Imigrante Açoriano

 


Há um mistério antigo nas coisas que cruzam o oceano. Quando os primeiros açorianos aportaram por estas bandas, trouxeram nos baús pouca roupa, mas uma bagagem pesada de saudade, misturada ao cheiro de sal e terra molhada. O tempo passou, os navios de outrora viraram silhuetas na memória, mas o cordão umbilical entre as ilhas de bruma e o solo capixaba nunca se rompeu. Ele permaneceu atado pelo nó mais forte que existe: a herança do afeto.

​Hoje, Apiacá acorda com um sotaque diferente no vento. Não é apenas o calendário que marca o Dia do Imigrante Açoriano; é a própria alma da cidade que se enfeita de azul, branco e vermelho para celebrar trinta e seis anos de um milagre diário: transformar nostalgia em arte. Trinta e seis anos em que o Grupo Musical Amantes da Arte traduz o invisível em música, provando que cantar é, antes de tudo, um ato de fincar raízes no vento.

​Quando a noite cair e os relógios marcarem sete e meia, a Casa dos Açores abrirá suas portas não para um evento formal, mas para um reencontro de tempos. Ali, sob o teto da memória viva, o Coral Vozes do Tempo do CRAS de Apiacá vai misturar o ontem e o hoje em uníssono, provando que a idade da alma é eterna quando ela se põe a cantar.

​E então, far-se-á o silêncio mais bonito da noite. Um homem, Francisco Borba Gonçalves, tomará o violão nos braços como quem acolhe um pedaço da própria pátria. Seus dedos tocarão as cordas e, de repente, as paredes desaparecerão. Apiacá será mar. O salão será névoa. Pelas frestas das notas musicais, as Ilhas de Bruma emergirão diante de nós, desenhadas não por mapas, mas pela poesia dedilhada. Cada acorde será uma onda batendo nas rochas dos Açores; cada pausa, o suspiro de quem lembra de onde veio para saber exatamente para onde vai.

​Presididos pelo olhar atento de Dr. Nino Moreira Seródio e costurados pelo zelo da Professora Maria Cristina Borges, esses laços se renovam. O convite está feito, mas não é um chamado apenas para assistir. É uma convocação para sentir. Para entender que a distância entre duas terras distantes se apaga completamente quando o coração bate no compasso de uma mesma canção.

​Venham. Há um mar de histórias esperando por nós logo ali, na Casa dos Açores.


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