quinta-feira, 11 de junho de 2026

Chuva, Jovens e Xadrez: A Noite Viva no Clube de Bom Jesus do Norte




A chuva lá fora insiste em batizar as calçadas de Bom Jesus do Norte, vestindo a noite com aquela umidade melancólica que costuma convidar ao recolhimento. Mas há recantos onde o inverno da alma não faz morada. Sob o teto acolhedor do CXBN, Clube de Xadrez Bom Jesus do Norte, delimitado por colunas que parecem erguer mais do que uma estrutura física, erguem a própria resistência do tempo, o mundo exterior silencia para dar lugar a outro tipo de tempestade: a cerebral, a poética, a das ideias em movimento.

​Ali, trinta anos de história não pesam; flutuam. O professor Fabio Sousa Vargas, feito um artesão paciente, não lapida apenas o trajeto de peões e cavalos nas mentes daquela juventude; ele costura a própria identidade da nossa aldeia. Olhar para aquelas mesas coloridas, o rosa vibrante que contrasta com a seriedade do tabuleiro, o azul que emula o céu que a chuva escondeu, é testemunhar o desabrochar de uma força que não pede licença para existir.

​Os jovens, de olhares concentrados e testas franzidas pelo peso das escolhas, são o retrato de uma cultura que finca suas raízes no próprio chão. Não há aqui o barulho oco das modas alienígenas, nem a pressa artificial dos algoritmos que tentam ditar o que devemos ser. Há, sim, o palpitar compassado de um relógio analógico de xadrez, marcando o tempo sagrado da reflexão. Uma menina apoia o rosto na mão, desenhando no silêncio a sua próxima jogada; à sua frente, o adversário estuda o tabuleiro verde e branco como quem decifra o mapa de um tesouro antigo.

​Não importa a ausência de grandes holofotes ou o alarde dos palcos vazios de sentido. O que realmente importa corre nas veias dessa nova geração culta e altiva, que nasce sem alarde, mas com a solidez de uma rocha. Entre uma defesa siciliana dragão, um ataque stonewall, e um xeque-mate sonhado, a vida em Bom Jesus do Norte viceja, teimosa e esplêndida, provando que a maior revolução da nossa terra ainda se faz em silêncio, de casa em casa, de trinta em trinta anos, na ponta fina de um peão que ousa caminhar para a frente.


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