Há dias em que se tem a impressão de que uma das maiores carências de nosso tempo não é material, mas espiritual. Falta-nos, cada vez mais, o sentimento de dignidade. Não da dignidade inscrita nas leis ou proclamada nos discursos, mas daquela que habita o íntimo de cada pessoa e lhe recorda que possui valor próprio, que merece respeito e que não deve negociar sua consciência em troca de aplausos, vantagens ou conveniências. A dignidade é uma espécie de luz discreta que orienta os passos quando os caminhos se tornam confusos.
Quando alguém se recusa a praticar uma injustiça, quando estende a mão para impedir que outro seja prejudicado, é a dignidade que se manifesta. No entanto, vivemos sob uma pressão constante que parece nos empurrar para a direção contrária. Os meios de comunicação, as redes e os discursos dominantes frequentemente exaltam o indivíduo isolado, transformando o sucesso pessoal na medida de todas as coisas. O altar da modernidade, muitas vezes, parece reservado ao culto do “eu”.
Mas a resistência persiste. Ela não costuma ocupar manchetes nem produzir espetáculos. Vive nos almoços de família, nas conversas entre amigos, nos templos, nas comunidades e em todos os lugares onde as pessoas ainda aprendem que a vida só encontra sentido quando compartilhada. Ali sobrevivem valores como solidariedade, responsabilidade e cuidado com o próximo. São forças silenciosas, quase invisíveis, que não disputam espaço com o ruído porque conhecem a força da permanência.
Essa é a imagem de nosso tempo: de um lado, o vazio que grita sem cessar, exigindo atenção a cada instante; de outro, os valores humanos que falam baixo, mas permanecem. O barulho impressiona, porém passa. O que é verdadeiramente humano continua seu trabalho silencioso, sustentando o mundo sem alarde, como as raízes que ninguém vê, mas que impedem a árvore de tombar.

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