A trajetória começou em 16 de abril de 1977, quando, ao lado do irmão Ronaldo, fundou a Relojoaria Califórnia, na Rua 15 de Novembro, em frente ao antigo Supermercado Norte Sul. Anos depois, a loja foi transferida para a Rua Tenente José Teixeira, ao lado do Laboratório Itabapoana. Com o crescimento dos serviços, Vicente decidiu abrir seu próprio estabelecimento, a Relojoaria Padrão, que leva seu sobrenome e está instalada há cerca de 30 anos na Rua Expedicionário Paulo Moreira. Em qualquer um desses endereços, o tic-tac dos relógios sempre pareceu conversar com o passado.
Ao longo das décadas, as duas relojoarias atravessaram gerações e se tornaram referência para quem acredita que certos objetos carregam muito mais do que horas: carregam afetos.
Vicente chegou à profissão por necessidade. Uma deficiência física limitava suas possibilidades de trabalho em outras atividades, mas nunca sua disposição para aprender. Autodidata, encontrou na relojoaria um caminho de autonomia e dignidade. Mais tarde, aperfeiçoou os conhecimentos em Muriaé, onde estudou durante um ano com o cunhado, Sebastião Ayres da Silva, proprietário de uma ótica e relojoaria.
A história da família começou bem antes. Vicente nasceu na localidade de Califórnia, em Mata da Cruz, então 18º distrito de Campos dos Goytacazes. Filho de Joaquim Padrão, agricultor e pecuarista natural de Santa Bárbara, em Campos, e de Maria Filgueiras Padrão, natural de Miraí, cresceu em uma família numerosa de doze irmãos, dos quais nove estão vivos. Entre eles está Ronaldo, companheiro de trabalho na relojoaria, que chegou do Rio de Janeiro desempregado e encontrou ao lado do irmão uma nova oportunidade.
As raízes familiares atravessam fronteiras. Os avós paternos, José Padrão e Antonieta Gil Padrão, vieram das Ilhas Canárias, na Espanha, mais precisamente de Tenerife. Já os avós maternos, Leopoldo Gonçalves Figueira e Conceição Gonçalves Figueira, eram de Miraí, em Minas Gerais. Um bisavô participou da construção da antiga estrada de ferro que ajudou a impulsionar o desenvolvimento de Santo Eduardo.
Antes de se firmar em Bom Jesus do Itabapoana, Vicente morou em Belo Horizonte e em Ponte de Itabapoana. Veio estudar na cidade graças a uma bolsa obtida por intermédio de Luciano Bastos para cursar o tradicional Colégio Rio Branco. O aprendizado escolar abriu caminho para a profissão que abraçaria pelo resto da vida.
Durante décadas, Bom Jesus chegou a contar com quatro relojoarias. Hoje, restaram praticamente apenas a sua e a de seu irmão. Para Vicente, o ofício vive um lento desaparecimento. Faltam jovens interessados e mão de obra especializada. "É uma profissão que está acabando por aqui", lamenta. Em outros grandes centros, entretanto, a atividade ainda encontra espaço.
A esperança de continuidade está dentro da própria família. O neto Gabriel Nascimento dos Santos vem aprendendo o ofício, enquanto a neta Maria Betânia auxilia diariamente na loja, também interessada em preservar o legado do avô. Quatro bisnetos já alegram a família: três filhos de Betânia e um de Gabriel. O mais novo deles, Miguel Nascimento, tem apenas sete anos.
No balcão da relojoaria, o tempo também revela curiosidades. Muitos clientes deixam relógios para conserto e nunca mais voltam. Alguns permanecem esquecidos por cinco anos ou mais. Outros reaparecem convencidos de que deixaram o relógio na oficina, quando, na verdade, isso nunca aconteceu. São histórias que fazem parte da rotina de quem trabalha cercado pela memória.
Além dos consertos, a loja comercializa semijoias e peças em prata. O movimento oscila. Há meses de muito trabalho e outros mais tranquilos. Ainda assim, Vicente permanece atrás da bancada com a mesma serenidade de quem aprendeu que o tempo tem seus próprios ritmos.
Quando olha para trás, sente-se realizado. A limitação física que poderia ter interrompido sonhos acabou indicando um caminho. O que parecia um obstáculo transformou-se em profissão, sustento e identidade.
Hoje, aos 47 anos de relojoeiro e quase meio século dedicado ao ofício, Vicente Padrão não faz grandes planos. Diz que seu projeto de vida é simples: continuar vivendo, trabalhando enquanto houver disposição e aproveitando a existência.
Talvez esse seja o maior ensinamento de quem passou a vida inteira consertando relógios: o tempo nunca para, mas sempre pode ganhar uma nova chance de continuar caminhando.





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