A Noite em que Rosal Ouviu a Voz da Própria História e Inaugurou o Amanhã
Na noite de 10 de julho de 2026, a velha e sempre jovem Lira 14 de Julho não inaugurou apenas um espaço cultural. Abriu um novo capítulo de sua própria biografia. O Espaço Cultural Dadá e Dionísio nasceu como nascem as grandes obras: da gratidão. Gratidão a dois homens que compreenderam que a música não é apenas uma sucessão de notas, mas uma delicada e poderosa maneira de ensinar uma comunidade a amar a si mesma.
A cerimônia teve início sob o manto de um silêncio profundo. Não o silêncio da ausência, mas o recolhimento reverente que apenas a saudade verdadeira sabe inspirar. Conduzido por Anselmo Jr. Borges Nunes, vice-presidente da Lira 14 de Julho, o minuto de silêncio em homenagem ao saudoso tio, Antônio Rezende Nunes, recordou aos presentes que a memória também possui sua liturgia sagrada. Há homens que partem, mas permanecem; tornam-se presença invisível na alma das instituições que ajudaram a construir.
Anselmo desponta como uma das figuras mais representativas da história recente da Lira 14 de Julho. Seu compromisso, porém, não nasceu por acaso. É herança de família. Na década de 1940, seus avós paternos, Francisco Nunes e Amélia Rezende Nunes, doaram o terreno onde seria erguida a primeira sede da corporação musical, gesto de extraordinária generosidade que permanece gravado na memória de Rosal.
Décadas depois, em 23 de março de 2015, ao lado de músicos rosalenses e de outros idealistas, Anselmo esteve entre os protagonistas do movimento que devolveu vigor à tradicional banda. A revitalização da Lira não foi apenas administrativa ou artística; foi, sobretudo, uma reconstrução afetiva, florescida do profundo sentimento de pertencimento cultivado pela própria comunidade.
Em seu pronunciamento, o vice-presidente ressaltou a dimensão histórica da solenidade. O Espaço Cultural Dadá e Dionísio passa oficialmente a integrar o patrimônio histórico-cultural de Bom Jesus do Itabapoana, consolidando-se como o 11.º espaço de memória do município. Soma-se, assim, ao Museu da Imagem, em Pirapetinga; ao Espaço Cultural Luciano Bastos; ao Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira, no Sítio Rio Preto, em Calheiros; ao Espaço Cultural Cafézin; ao Museu da Serra do Tardin; ao Museu da Ascendina, em Calheiros; ao Memorial Coronel Quinca Bento, em Arraial Novo; ao Teatro Cinema Conchita de Moraes, na Usina Santa Maria; à Escola de Música JEMAJ; e à Escola de Música MusicArt. Cada um desses espaços guarda fragmentos da identidade bonjesuense; juntos, compõem um grande mosaico de memória, cultura e pertencimento.
À frente do Coral das Crianças, Anselmo exerce a regência em perfeita sintonia com a secretária do coral, Sandra Regina. Juntos, não apenas orientam vozes: despertam sensibilidades, cultivam sonhos e inauguram um novo e promissor ciclo lírico na centenária trajetória da Lira 14 de Julho. Em cada ensaio, semeiam futuros músicos; em cada apresentação, fortalecem os laços invisíveis que unem gerações.
Talvez poucos percebam que uma banda de música realiza uma missão muito maior do que executar dobrados, valsas ou hinos. Ela fabrica pertencimento. Ensina crianças a respirar no mesmo compasso, transforma disciplina em beleza, converte o talento individual em harmonia coletiva e faz uma comunidade reconhecer sua própria alma em cada acorde. Quando uma banda toca, não ressoam apenas instrumentos: ecoa a história de um povo, a esperança de seu presente e a promessa silenciosa de seu futuro.
Foi exatamente sobre essa dimensão da música que refletiu Gino Martins Borges Bastos. Ao revisitar a trajetória da Lira 14 de Julho, mostrou que a música instrumental ultrapassa os limites da arte para alcançar a sociologia da convivência humana. Quem cresce ouvindo uma banda aprende, muitas vezes sem perceber, que pertence a uma história maior do que si mesmo. Talvez seja esse o segredo de Rosal: uma comunidade que aprendeu a escutar antes mesmo de aprender a falar sobre cultura.
Ao recordar o sucesso dos Festivais de Chorinho, ressaltou que a música instrumental dialoga diretamente com a inteligência, estimulando a memória, a concentração e a sensibilidade. Lançou, ainda, duas sementes voltadas ao futuro: a criação de um Acervo Musical da Lira 14 de Julho, destinado a preservar partituras, fotografias, documentos e composições, e mostrar que Rosal, além de ser uma comunidade de músicos, é também de compositores; e a formação de um Grupo de Chorinho de Rosal, capaz de levar a identidade musical do distrito aos mais diversos palcos do Brasil.
Antes de concluir sua fala, Gino Martins Borges Bastos fez questão de lembrar que a história de uma instituição centenária não é escrita apenas por aqueles que ocupam o palco ou empunham os instrumentos. Ela também é tecida, dia após dia, por homens e mulheres que trabalham nos bastidores, onde o aplauso quase nunca chega, mas de onde nasce a permanência das grandes obras.
Ao mencionar, um a um, os integrantes da diretoria da Lira 14 de Julho, o presidente Geraldo Roseira Soares; o vice-presidente Anselmo Júnior Borges Nunes; as secretárias Sandra Regina Rodrigues Dowsley e Maria Auxiliadora Glória de Almeida; os tesoureiros André Almeida dos Santos e José Soares Calheiro Filho; o orador João Caetano Pimentel Vargas; a diretora de Patrimônio Fabiana de Oliveira Morais Vargas; a diretora Especial para Artes e Assistência Social Carmélia de Fátima Ourique dos Santos; o diretor de Cultura e História Luis Otávio Glória de Almeida Soares; e o maestro Aldemir de Oliveira Morais, ressaltou que preservar seus nomes é um ato de justiça e de gratidão. Afinal, as instituições atravessam o tempo porque existem pessoas que, longe dos holofotes, dedicam suas vidas a sustentar o brilho que todos contemplam. São esses servidores silenciosos que impedem a memória de desafinar e garantem que a música da história continue ecoando pelas gerações.
Em seguida, a música falou por si. O pianista Thadeu Almeida fez do piano uma extensão da emoção coletiva ao interpretar quatro obras que encantaram o público: Cinema Paradiso, de Ennio Morricone, tema especialmente querido pela comunidade local; Lua Branca, de Chiquinha Gonzaga; Confidências, de Ernesto Nazareth; e Quebra, Quebra, Minha Gente, de Henrique Alves de Mesquita, três composições fundamentais da história do choro e da música brasileira.
Mas aquela noite pertencia, sobretudo, a Dadá e Dionísio.
Dionísio Pimentel, lavrador de mãos calejadas, dedicou cerca de meio século à Lira, primeiro como trompetista e, posteriormente, como trombonista. Dadá, Dário Xavier de Almeida, dividiu sua existência entre o serviço público, a família e a música, tornando-se uma dessas pessoas cuja grandeza jamais precisou fazer barulho. Ambos compreenderam que uma vida não se mede pelo que se acumula, mas pelo que se oferece aos outros.
As emocionadas palavras de Sofia Glória, neta de Dadá, e de Aparecida Pimentel Vargas, neta de Dionísio, revelaram que os verdadeiros patrimônios não cabem em cofres. Permanecem vivos na lembrança dos filhos, dos netos, dos amigos e de todos aqueles que aprenderam a amar a Lira por meio de seus exemplos.
O Grupo Musical Eber Figueiredo Teixeira, sob a regência da maestra Martha Salim, acrescentou delicadeza e emoção à solenidade.
E, quando o maestro Anselmo Jr. Borges Nunes, acompanhado pelo coral das crianças da Turma de Musicalização da Lira e pela secretária do coral, Sandra Regina Rodrigues Dowsley, ocupou o palco, tornou-se impossível não perceber que o futuro já havia chegado.
Enquanto as crianças cantavam, parecia que os antigos fundadores sorriam em algum lugar invisível. Talvez estivessem ali Luiz Tito de Almeida, Custódio Soares, Elias Borges, Durval Tito de Almeida, Elpídio de Sá Viana e Sebastião Magalhães, aqueles homens que, em 1922, adquiriram instrumentos com recursos próprios, sem imaginar que estavam comprando algo infinitamente maior: a identidade cultural de Rosal. Ou ainda Ezechias Tito de Almeida, o inesquecível Tuca, cuja partida, em 1992, não interrompeu sua presença na memória coletiva da comunidade.
Entre as personalidades presentes destacou-se também Maria Aparecida Pereira Vargas, aos 91 anos, filha do maestro Octacílio de Pereira, fundador da Sociedade Musical União dos Artistas, de Muriaé (MG), criada em 11 de abril de 1936 e reconhecida como um dos maiores patrimônios culturais daquele município.
Ao final da noite, compreendia-se que o novo espaço cultural não possui apenas paredes, janelas e fotografias. Possui alma.
Existem edifícios que abrigam pessoas.
E existem lugares, como a Lira 14 de Julho, que abrigam gerações inteiras.
Nessa noite de inverno, Rosal não inaugurou apenas um espaço cultural.
Inaugurou mais uma página de sua eternidade.
Por Dodora (Maria Auxiliadora), esposa de Geraldo Mulinha e filha do Dadá
Com muito carinho, um agradecimento merece traduzir toda a emoção, a gratidão e o significado dessa homenagem a todos nós familiares.
Há gestos que ultrapassam o tempo e se transformam em eternidade.
Receber com profunda emoção, a notícia de que a sala de música da Lira 14 de Julho passará a eternizar os nomes de Dário Xavier de Almeida e Dionísio Pimentel, é sentir o coração transbordar de gratidão.
Mais do que uma homenagem, este gesto representa o reconhecimento de duas vidas inteiramente dedicadas à musica, ao aprendizado, ao ensino, à amizade e à construção de uma história que pertence a todos nós.
Dadá e Dionísio fizeram da música a sua linguagem mais genuína. Desde a infância, entregaram seus talentos, seu tempo e seu amor à Lira, transformando notas em ensinamentos, ensaios em encontros e melodias em memórias afetivas para inúmeras gerações.
Hoje, seus nomes deixam de habitar apenas nossas lembranças para ocupar, de forma definitiva, um espaço físico e simbólico dentro de uma instituição que tanto amaram e à qual dedicaram grande parte de suas vidas.
À Corporação Musical nossa mais sincera e profunda gratidão pela sensibilidade, pelo respeito à memória e pelo reconhecimento deste legado tão precioso.
Ela guardará memórias, afetos e a presença silenciosa daquele que fez da música a razão de sua vida.
Que cada criança, jovem ou músico que aqui ingressar possa sentir a força desta herança cultural e compreender que a verdadeira grandeza está na generosidade de aprender, no compromisso de servir e no amor dedicado à arte.
Nossa eterna gratidão à Lira 14 de Julho por preservar não apenas nomes, mas histórias de vida, exemplos e memória que continuarão inspirando gerações.
Com emoção, carinho e sincero reconhecimento,
Família de: Írisio Xavier de Almeida
"Em cada sinfonia, ecos da história
encontram a emoção do presente."
A música transforma o silêncio
em beleza e
permanência!
"As cordas sussurram,
os metais anunciam,
e a alma escuta"
Que esta sala seja, para sempre, um lugar onde suas presenças continuem a ecoar suavemente entre partituras, instrumentos e sonhos, um lugar onde as futuras gerações possam compreender que a verdadeira grandeza de um músico não está apenas na excelência de sua arte, mas, sobretudo, na capacidade de inspirar vidas.
Porque há pessoas que não se despedem. Permanecem.
Permanecem no som dos instrumentos, na emoção das apresentações, nos ensinamentos compartilhados e no silêncio reverente de cada memória.
Dionísio e Dario seguem vivos.
Vivos na música.
Vivos na história.
Vivos, para sempre, no coração da Lira 14 julho.
Rosal, 10 de julho de 2026
Dário Xavier de Almeida nasceu em Rosal, no dia 09 de agosto de 1928. Filho de Durval Tito de Almeida e Dorvina Xavier de Almeida, cresceu num lar com muitos irmãos, sete ao todo. Uma das irmãs, nossa querida Iaiá, está presente e acaba de completar 93 anos esta semana. Desde a infância, Dadá, como era conhecido, apresentou grande interesse e aptidão pela música, e logo se tornou parte integrante da Lira 14 de Julho como trombonista e mais tarde, como bombardinista.
No dia 1º de julho de 1954, aos 26 anos, casou-se com Maria Glória dos Santos na Capela Sant'Ana, em Rosal. Juntos, construíram um lar feliz, onde logo chegaram os cinco filhos: José Geraldo, Maria Auxiliadora, Mauricio, Maria do Carmo e Marcelo. Aos filhos, somaram-se doze netos e dois bisnetos.
Trabalhou como escrivão da Comarca de Bom Jesus do Itabapoana, nos cartórios de Rosal e Calheiros, trabalho no qual se aposentou.
Após uma vida dedicada a Deus, ao trabalho, à família e à música, envelheceu tranquilo em Rosal, seu lugar preferido no mundo. Faleceu em 05 de agosto de 2011, prestes a completar 83 anos.
Dário, Dadá, Almeida... o que vocês acabaram de ouvir é a história oficial desse homem que hoje relembramos com carinho e admiração. Peço licença para, a partir de agora, contar uma outra história, extra-oficial, da vida tão bonita desse homem a quem eu chamo de avô. E como contar histórias é bem uma coisa de avós e netos, recomeço essa minha história: minha mãe é a quarta filha desse casal e eu, a quarta neta. Tive a alegria de conviver com meu avô por alegres vinte anos, um convívio próximo, estreito, de vir passar basicamente todos os fins de semana da infância na casa deles em Rosal, casa que cheirava a doce de fruta, broa e café. Rosal pra mim tem cheiro de aconchego e infância.
Ainda na juventude, ao se tornar pai de família, sua vida não foi fácil ao lado da minha avó. Juntos, eles passaram por muitas dificuldades e não raro meu avô se afligia preocupado, por exemplo, com a comida dos filhos no dia seguinte. Mas o amor e o trabalho sempre andaram juntos nessa casa, sempre prevaleceram. Atrás da mesa do cartório, mexendo o tacho de goiabada, servindo na igreja como ministro da Eucaristia ou tocando valsas e boleros para os filhos nas manhãs de domingo, ele estava sempre lá, com seu jeito peculiar de ser sereno. Imagino que a fé e a necessidade de seguir em frente renovavam seu ânimo a cada manhã e o faziam continuar sonhando com a vida que aos poucos ia escrevendo, compasso por compasso.
Ao longo desta semana, me peguei pensando na passagem do tempo e nos possíveis modos de medi-lo. A caminho de um compromisso corriqueiro, percebi que cheguei ao meu destino na duração de uma canção, e diante de algo que considero bonito, me questionei: Por que medimos o tempo em segundos, minutos, horas, anos, décadas, séculos, milênios? Por que não experimentar, viver o tempo, de vários modos. Pra mim, a música é um desses modos únicos de fazer isso, experimentar o tempo, estendê-lo, encurtá-lo, suspendê-lo. A música é um jeito de habitar o tempo.
Alguns versos de Adília Lopes fazem ecoar em mim essa dinâmica tão própria do meu avô, de viver a vida em um ritmo diferente, e vivo um reencontro com ele nas páginas do livro que leio. Cito os versos: "Gosto de ouvir a casa em silêncio. Mas também gosto de ouvir música. Eu tinha escrito uma coisa farfalhuda: A minha casa é fundada no silêncio como a música." Ele amava o silêncio, mas também amava o som dos passarinhos cantando. Sentava na varanda da frente, cruzava as pernas (uma ficava sempre pendente, balançando ao ritmo da música do toca-discos na sala) e fechava os olhos, como que para ver e ouvir melhor.
Gostava de ouvir, de escutar, na verdade, pois a escuta exige um estado de atenção e cuidado nem sempre presentes no ouvir. Acessava o tempo no canto de uma sabiá ou no bater das asas de um bem-te-vi, ou no picolé que ele não conseguia terminar de apreciar porque derretia antes... Meu avô era um homem das coisas simples. Poucas palavras ditas, é verdade, mas muitas lidas, já velhinho, com a lupa, que socorria os olhos cansados, mas ainda interessados nas notícias esportivas do jornal. Aos meus olhos de menina, vê-lo vestido com o uniforme azul da 14 de Julho era sinal de festa: acordar cedinho nas manhãs frias de antigamente pra abrir a janela e ouvi-lo tocar nas alvoradas. Mais tarde, era hora de ir pra praça e vê-lo novamente, feliz e realizado entre seus pares nos encontros de bandas.
Se recordar é "passar novamente pelo coração" (que para os romanos era a sede das emoções e da memória), hoje fazemos um bonito exercício de honrar o legado de mãos e fôlegos destas duas figuras queridas por nossa comunidade: Dadá e Dionísio. Inaugurar este espaço é abrir ainda mais portas para manter viva a tradição da cultura rosalense no coração dessa instituição que há 104 anos promove as pessoas dessa terra através da criatividade, da cidadania e das sensibilidades. Em nome da família de Dadá Almeida, agradeço a homenagem e parabenizo a Lira 14 de Julho por mais essa iniciativa.
Viva a música! Viva a cultura, viva a arte!
Muito obrigada!
Boa noite a todos.
Hoje não estamos apenas inaugurando um espaço físico. Estamos inaugurando um lugar onde a memória, a cultura e a música estão presentes.
E poucas homenagens poderiam representar melhor esse propósito do que dar a este espaço o nome de dois homens que dedicaram parte de suas vidas à Lira 14 de Julho: Dadá e Dionísio.
Falar de Dionísio Pimentel é falar de uma história que se confunde com a história da própria vila de Rosal e da Lira 14 de Julho.
Ele nasceu em 6 de dezembro de 1913, na Fazenda Barra Funda, em Varre-Sai, onde viveu a infância e estudou em uma pequena escola particular da Fazenda Dona Tereza.
Foi ali que também nasceu outra paixão que o acompanharia por toda a vida: a música.
Aprendeu com o mestre Chico Gomes e passou a integrar sua banda. Anos depois, quando esse grupo veio para Rosal sob a liderança de Seu Lulu de Almeida, ajudou a formar aquela que se tornaria a nossa querida Lira 14 de Julho. E ali permaneceu por cerca de cinquenta anos.
Primeiro como trompetista. Depois como trombonista. Até que o peso da idade o obrigou a guardar o instrumento, mas jamais a abandonar o amor pela música.
São poucas as pessoas que conseguem dedicar cinquenta anos da própria vida a uma mesma instituição. Mais do que tocar notas, Dionísio ajudou a construir uma tradição que atravessou gerações e chegou viva aqui.
Mas sua vida não era feita apenas de música.
Era homem da terra.
Trabalhou na lavoura, cultivando café e produzindo leite, primeiro ao lado do pai e, depois, em sua própria propriedade.
Quando percebeu que os filhos precisavam estudar, tomou uma decisão que revela muito do homem que era. Vendeu o sítio, mudou-se para Rosal e comprou sua chácara, onde viveu até seus últimos dias, colocando a família acima de qualquer patrimônio.
Hoje esse lugar continua pertencendo à família e carrega um nome que diz muito sobre esse legado: “Recanto Dionísio e Filó”.
Ao lado de sua esposa, Filomena Pimentel, construiu uma bela família, formada pelos filhos Heliton, Paulo, Luiz e Nitinha, além de uma geração de netos, bisnetos e tataraneto que até hoje mantém viva essa história de amor à Rosal e à Lira 14 de Julho.
Mas quem conheceu Dionísio talvez se lembre também de uma outra característica marcante em sua personalidade. O homem de sorriso franco e olhar calmo era um extraordinário contador de causos.
Gostava de narrar as histórias antigas da região, especialmente as aparições da lendária Luz do Monte Azul. Com brilho nos olhos, contava que havia visto aquela misteriosa luz algumas vezes, iluminando as estradas para quem caminhava ou seguia a cavalo pelas noites das redondezas.
Talvez essas histórias expliquem um pouco quem ele era.
Um homem que sabia preservar a memória de um povo.
Que compreendia o valor das tradições.
Que transformava lembranças em patrimônio.
Por isso esta homenagem faz tanto sentido.
Hoje, quando este espaço passa a levar seu nome, não estamos apenas lembrando um músico.
Estamos eternizando um homem simples.
Um trabalhador.
Um pai de família.
Um contador de histórias.
Um homem que dedicou grande parte da vida à música e à Lira 14 de Julho.
As notas que ele tocou jamais silenciarão.
Ainda ecoam na memória de cada rosalense e permanecem vivas no legado deixado por ele, por Dadá Almeida, além de tantos outros que por essa briosa corporação militaram.
Enquanto houver ensaios nesta sede...
Enquanto houver uma criança aprendendo seu primeiro instrumento...
Enquanto a música continuar ecoando pelas ruas de Rosal...
Haverá sempre um pouco de Dionísio presente entre nós.
Que este Espaço Cultural seja muito mais do que um prédio.
Que seja um lugar onde a história continue sendo contada, onde a cultura continue sendo cultivada e onde novas gerações descubram que homens como Dionísio ajudaram a construir tudo aquilo que hoje temos orgulho de chamar de nossa tradição.
Muito obrigado.
Rosal, 10 de julho de 2026.
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