Recusar a confortável tentação de construir uma memória na qual o mal estivesse sempre exclusivamente do outro lado
Necessitamos da grandeza de quem deseja impedir que a memória seja construída sobre uma mentira conveniente
A verdade histórica não necessita escolher apenas uma culpa. Pode carregar várias
Nenhuma ferida cicatriza escondendo parte de sua história
![]() |
| A cúpula internacional de Gana |
Nas páginas da História observamos dores que nenhuma geração consegue virá-las inteiramente. O tráfico transatlântico de africanos escravizados é uma delas. Milhões de seres humanos foram arrancados de suas terras, separados de suas famílias, acorrentados, transportados através do oceano e transformados em mercadoria. A responsabilidade central daquele gigantesco sistema econômico pertence às potências, traficantes e sociedades coloniais que organizaram, financiaram e exploraram durante séculos esse comércio de seres humanos. Mas existe também uma dimensão incômoda dessa história: houve africanos que participaram da captura e da venda de outros africanos.
Em Gana, essa ferida antiga voltou a ser tocada não para diminuir responsabilidades, mas para ampliarmos nossa compreensão da tragédia humana.
O rei Tackie Teiko Tsuru II, Ga Mantse, líder tradicional do povo Ga, decidiu fazer algo raro entre aqueles que recebem dos antepassados não apenas glórias, mas também sombras: reconheceu publicamente a participação ancestral de seu povo no comércio de escravizados e pediu desculpas.
O gesto possui extraordinária força simbólica.
É relativamente fácil celebrar aquilo que nossos antepassados fizeram de grandioso. Difícil é olhar para trás e dizer: também erramos.
O povo Ga, em determinado período, atuou como intermediário nas negociações com europeus. Ouro e marfim atravessavam aquelas rotas comerciais. Depois, também seres humanos. Homens, mulheres e crianças capturados, inclusive em guerras e conflitos locais, acabaram negociados em troca de tecidos, bebidas, armas e outros produtos.
E aqui a História apresenta uma de suas verdades mais desconfortáveis: a vítima de um sistema pode pertencer ao mesmo continente, à mesma cor e à mesma humanidade daquele que, em determinadas circunstâncias, colabora com o opressor.
Não existe nisso qualquer absolvição do colonialismo europeu.
Muito menos uma divisão artificial de responsabilidades como se todos tivessem possuído igual poder, obtido iguais lucros ou construído o mesmo sistema.
O tráfico transatlântico transformou a escravização numa engrenagem econômica internacional de proporções gigantescas. Navios, companhias comerciais, portos, capitais, governos e mercados do outro lado do oceano fizeram da carne humana uma mercadoria altamente lucrativa.
Mas reconhecer essa estrutura não exige apagar a participação de intermediários africanos.
A verdade histórica não necessita escolher apenas uma culpa.
Pode carregar várias.
E é isso que o rei de Gana verbalizou.
Ao reconhecer a responsabilidade de seus ancestrais, ele não diminuiu a culpa dos traficantes europeus. Fez algo moralmente mais profundo: recusou a confortável tentação de construir uma memória na qual o mal estivesse sempre exclusivamente do outro lado.
O mal possui uma terrível capacidade de recrutar colaboradores. Essa é uma das grandes lições universais da escravidão.
Thomas Hobbes escreveu sobre uma humanidade em que o homem poderia tornar-se lobo do próprio homem. A História demonstrou inúmeras vezes que nenhuma origem, povo, religião ou continente imuniza o ser humano contra a cobiça, a violência e o desejo de poder.
Houve europeus que escravizaram africanos. Houve africanos que escravizaram e venderam africanos. Houve homens que enriqueceram aprisionando outros homens.
E houve também, em diferentes lugares e épocas, pessoas que resistiram, protegeram fugitivos, combateram o tráfico e pagaram caro por se recusarem a aceitar a transformação do próximo em propriedade.
É essa complexidade que torna a História verdadeiramente humana.
O pedido de desculpas do rei Tackie Teiko Tsuru II possui ainda outra dimensão. Ele fala em reparação. E, ao fazê-lo, não dirige a exigência somente para fora. Reconhece que aqueles que se beneficiaram do tráfico devem enfrentar sua responsabilidade e admite que esse compromisso moral também alcança sua própria tradição.
Há grandeza nesse gesto.
Não a grandeza de quem pretende apagar o passado, porque o passado não se apaga, mas a de quem deseja impedir que a memória seja construída sobre uma mentira conveniente.
A verdadeira reconciliação começa aí. Não no esquecimento. Não na tentativa de distribuir culpas de maneira matematicamente confortável. Não na utilização política da História para inocentar uns e condenar outros.
Mas na coragem de olhar para uma ferida e reconhecer todos aqueles que ajudaram a produzi-la, respeitando, evidentemente, as enormes diferenças de poder, escala e responsabilidade entre os diversos participantes.
Os mortos dos navios negreiros não perguntariam hoje qual narrativa nos deixa mais confortáveis.
Perguntariam apenas se finalmente aprendemos alguma coisa.
Aqueles homens e mulheres arrancados de suas terras não eram números de uma estatística histórica. Tinham nomes. Tinham mães. Tinham filhos. Tinham aldeias. Tinham amores. Tinham sonhos.
E um dia alguém decidiu que poderiam ser vendidos.
Essa é a parte mais terrível da escravidão: antes das correntes de ferro, foi necessário existir uma corrente moral muito mais profunda, aquela que permitiu a um ser humano olhar para outro e deixar de enxergar nele um semelhante.
Quando um rei africano olha para os próprios antepassados e reconhece a participação deles naquela tragédia, não está diminuindo a África.
Está engrandecendo a verdade.
Povos amadurecem não apenas quando celebram seus heróis.
Amadurecem também quando encontram coragem para olhar nos olhos de seus fantasmas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário