segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Houve africanos que participaram da captura e da venda de outros africanos

 

Recusar a confortável tentação de construir uma memória na qual o mal estivesse sempre exclusivamente do outro lado

Necessitamos da grandeza de quem deseja impedir que a memória seja construída sobre uma mentira conveniente

A verdade histórica não necessita escolher apenas uma culpa. Pode carregar várias

Nenhuma ferida cicatriza escondendo parte de sua história


A cúpula internacional de Gana

Nas páginas da História observamos dores que nenhuma geração consegue virá-las inteiramente. O tráfico transatlântico de africanos escravizados é uma delas. Milhões de seres humanos foram arrancados de suas terras, separados de suas famílias, acorrentados, transportados através do oceano e transformados em mercadoria. A responsabilidade central daquele gigantesco sistema econômico pertence às potências, traficantes e sociedades coloniais que organizaram, financiaram e exploraram durante séculos esse comércio de seres humanos. Mas existe também uma dimensão incômoda dessa história: houve africanos que participaram da captura e da venda de outros africanos.

Em Gana, essa ferida antiga voltou a ser tocada não para diminuir responsabilidades, mas para ampliarmos nossa compreensão da tragédia humana.

O rei Tackie Teiko Tsuru II, Ga Mantse, líder tradicional do povo Ga, decidiu fazer algo raro entre aqueles que recebem dos antepassados não apenas glórias, mas também sombras: reconheceu publicamente a participação ancestral de seu povo no comércio de escravizados e pediu desculpas.

O gesto possui extraordinária força simbólica.

É relativamente fácil celebrar aquilo que nossos antepassados fizeram de grandioso. Difícil é olhar para trás e dizer: também erramos.

O povo Ga, em determinado período, atuou como intermediário nas negociações com europeus. Ouro e marfim atravessavam aquelas rotas comerciais. Depois, também seres humanos. Homens, mulheres e crianças capturados, inclusive em guerras e conflitos locais, acabaram negociados em troca de tecidos, bebidas, armas e outros produtos.

E aqui a História apresenta uma de suas verdades mais desconfortáveis: a vítima de um sistema pode pertencer ao mesmo continente, à mesma cor e à mesma humanidade daquele que, em determinadas circunstâncias, colabora com o opressor.

Não existe nisso qualquer absolvição do colonialismo europeu.

Muito menos uma divisão artificial de responsabilidades como se todos tivessem possuído igual poder, obtido iguais lucros ou construído o mesmo sistema.

O tráfico transatlântico transformou a escravização numa engrenagem econômica internacional de proporções gigantescas. Navios, companhias comerciais, portos, capitais, governos e mercados do outro lado do oceano fizeram da carne humana uma mercadoria altamente lucrativa.

Mas reconhecer essa estrutura não exige apagar a participação de intermediários africanos.

A verdade histórica não necessita escolher apenas uma culpa.

Pode carregar várias.

E é isso que o rei de Gana verbalizou.

Ao reconhecer a responsabilidade de seus ancestrais, ele não diminuiu a culpa dos traficantes europeus. Fez algo moralmente mais profundo: recusou a confortável tentação de construir uma memória na qual o mal estivesse sempre exclusivamente do outro lado.

O mal possui uma terrível capacidade de recrutar colaboradores. Essa é uma das grandes lições universais da escravidão.

Thomas Hobbes escreveu sobre uma humanidade em que o homem poderia tornar-se lobo do próprio homem. A História demonstrou inúmeras vezes que nenhuma origem, povo, religião ou continente imuniza o ser humano contra a cobiça, a violência e o desejo de poder.

Houve europeus que escravizaram africanos. Houve africanos que escravizaram e venderam africanos. Houve homens que enriqueceram aprisionando outros homens.

E houve também, em diferentes lugares e épocas, pessoas que resistiram, protegeram fugitivos, combateram o tráfico e pagaram caro por se recusarem a aceitar a transformação do próximo em propriedade.

É essa complexidade que torna a História verdadeiramente humana.

O pedido de desculpas do rei Tackie Teiko Tsuru II possui ainda outra dimensão. Ele fala em reparação. E, ao fazê-lo, não dirige a exigência somente para fora. Reconhece que aqueles que se beneficiaram do tráfico devem enfrentar sua responsabilidade e admite que esse compromisso moral também alcança sua própria tradição.

Há grandeza nesse gesto.

Não a grandeza de quem pretende apagar o passado, porque o passado não se apaga, mas a de quem deseja impedir que a memória seja construída sobre uma mentira conveniente.

A verdadeira reconciliação começa aí. Não no esquecimento. Não na tentativa de distribuir culpas de maneira matematicamente confortável. Não na utilização política da História para inocentar uns e condenar outros.

Mas na coragem de olhar para uma ferida e reconhecer todos aqueles que ajudaram a produzi-la, respeitando, evidentemente, as enormes diferenças de poder, escala e responsabilidade entre os diversos participantes.

Os mortos dos navios negreiros não perguntariam hoje qual narrativa nos deixa mais confortáveis.

Perguntariam apenas se finalmente aprendemos alguma coisa.

Aqueles homens e mulheres arrancados de suas terras não eram números de uma estatística histórica. Tinham nomes. Tinham mães. Tinham filhos. Tinham aldeias. Tinham amores. Tinham sonhos.

E um dia alguém decidiu que poderiam ser vendidos.

Essa é a parte mais terrível da escravidão: antes das correntes de ferro, foi necessário existir uma corrente moral muito mais profunda, aquela que permitiu a um ser humano olhar para outro e deixar de enxergar nele um semelhante.

Quando um rei africano olha para os próprios antepassados e reconhece a participação deles naquela tragédia, não está diminuindo a África.

Está engrandecendo a verdade.

Povos amadurecem não apenas quando celebram seus heróis.

Amadurecem também quando encontram coragem para olhar nos olhos de seus fantasmas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário