segunda-feira, 7 de setembro de 2026

14º Festival do Chorinho: quando Rosal sonhou o Brasil

 

Nem a chuva, o granizo e a falta de energia conseguiram apagar o brilho de uma festa que pertence ao coração do povo rosalense



































Avaliar o Festival de Chorinho e Sanfona de Rosal significa, inevitavelmente, ouvir diferentes opiniões. Quem participou pela primeira vez levou consigo determinada impressão; os rosalenses que acompanham o evento desde suas primeiras edições, por sua vez, naturalmente apresentam um olhar mais crítico. Afinal, o Festival já se transformou numa verdadeira festa de Rosal e dos rosalenses, e quem ama sua terra está sempre desejando o melhor para ela.

O jornal O Norte Fluminense apresenta a percepção daqueles que estiveram no evento pela primeira vez, mas também registra as ponderações de moradores e profundos conhecedores da história cultural do distrito.

O 14º Festival de Chorinho e Sanfona foi organizado pelo SESC e Prefeitura Municipal de Bom Jesus do Itabapoana, com o apoio do Sicomércio de Itaperuna.


A natureza também quis participar da festa

 

A natureza parecia querer acrescentar seus próprios acordes ao Festival. Uma chuva intensa desabou sobre Rosal, na noite de sábado, chegando a cair granizo em alguns momentos. A energia elétrica acabou, como se a noite desejasse desafiar Lívia Mattos e Nilze Carvalho a revelarem toda a luz de sua arte.

E foi exatamente o que aconteceu.

Diante do imprevisto, as artistas realizaram um emocionante espetáculo acústico. Sem os recursos habituais do palco, a música tornou-se ainda mais próxima, humana e verdadeira. Vozes e instrumentos atravessaram a escuridão, mostrando que a arte, quando nasce da alma, não depende de tomadas, refletores ou amplificadores para iluminar uma multidão.

A chuva caiu, o granizo surpreendeu e a energia se foi. A música, porém, continuou.


O olhar de quem chegou pela primeira vez


Maestro Mauro, da consagrada Dixieland Jazz Band: "Rosal respira cultura. Voltarei sempre que for convidado" 

Maestro Sebastião Carlos da Silva e uma jovem fã: "estou totalmente encantado"



Mário Antero confessou, no sábado, que, inicialmente, chegou a imaginar que o público do Festival seria pequeno. Entretanto, à medida que as pessoas ocupavam as ruas e os espaços da festa, sua impressão mudou completamente:

“Vim pela primeira vez e pensei que não daria ninguém, mas fiquei maravilhado. Tudo muito bonito e bem organizado. Senti um clima semelhante ao da antiga Festa de Agosto, de Bom Jesus. O distrito está muito bem cuidado, o povo animado, e havia tanta gente que não se encontrava lugar para estacionar. E continuavam chegando visitantes.”

Mário também destacou a qualidade do comércio local:

“Fui à Padaria São Pedro e fiquei encantado com a vitrine. O estabelecimento é pequeno, mas oferece enorme diversidade, algo difícil de encontrar até mesmo em Bom Jesus. Recomendo a Padaria e Mercearia São Pedro.”

Ao final, resumiu sua admiração:

“Considero Rosal um exemplo de distrito. Os outros deveriam conhecê-lo e seguir esse exemplo.”

Também participando pela primeira vez, Sebastião Carlos da Silva, de Porciúncula, maestro da Lira Santa Cecília de Varre-Sai, mostrou-se impressionado com o nível artístico das apresentações:

“Estou totalmente encantado. A qualidade dos grupos que se apresentaram é extraordinária: somente atrações de alto nível. Agora quero voltar sempre. A chuva não atrapalhou, e a presença do público foi muito grande.”

O maestro Mauro Sérgio, da  que esteve no Festival pela segunda vez, também ressaltou a qualidade cultural do evento:

“É fantástico o que Rosal proporciona em entretenimento e qualidade. Embora seja um local afastado, Rosal respira cultura. Voltarei sempre que for convidado. Percebo que as pessoas vêm aqui para apreciar música de qualidade.”


O reencontro histórico de Paulo Portugal com Rosal



Também presente ao Festival, o ex-prefeito Paulo Portugal, acompanhado de Miro Azeredo, seu motorista há cerca de vinte anos, definiu a festa com uma única e expressiva palavra:

“Maravilha!”

Mesmo enfrentando problemas de saúde, Paulo Portugal fez questão de comparecer ao evento e reencontrar uma comunidade com a qual mantém antiga ligação afetiva e administrativa.

Há nesse reencontro uma curiosa e emocionante coincidência histórica. Na placa existente na Praça Alzemiro Teixeira, a comunidade rosalense registra seu agradecimento ao então prefeito, em julho de 1986:

“Palavras são transitórias, porém as marcas ficam para a eternidade.

O agradecimento da comunidade rosalense ao prefeito

Paulo Portugal.

Rosal, julho de 1986.”


Quarenta anos depois, Paulo Portugal retornava ao coração de Rosal para contemplar aquela mesma praça novamente tomada pelas flores, pela música, pela alegria e pela confraternização popular.

As palavras, como recorda a placa, podem ser transitórias. As marcas deixadas na história de uma comunidade, contudo, permanecem.


O olhar atento de quem conhece o Festival


Sandra Nunes e a professora Janice 

Sandra Nunes, verdadeiro patrimônio cultural de Rosal e presença constante em todas as edições, apresentou uma avaliação marcada pelo carinho, mas também pela experiência de quem conhece profundamente a trajetória do evento.

Segundo ela, nas últimas edições houve certa perda do glamour que caracterizava o Festival nos tempos do SESI. Segundo ela, naquele período, o distrito recebia ornamentação mais intensa, portais, banners, outdoors e dois palcos, além de a programação ser divulgada com maior antecedência.

Para Sandra, embora a qualidade musical permaneça elevada, houve redução no número de atrações, sendo importante ampliar o apoio do poder público. Por outro lado, ela reconheceu avanços significativos nesta edição:

“A estrutura está bonita, e o som apresentou qualidade superior à do ano passado.”

A crítica de quem ama não pretende diminuir uma realização, mas contribuir para o seu aperfeiçoamento. O Festival pertence a Rosal e, justamente por isso, os rosalenses desejam vê-lo crescer, preservar sua identidade e recuperar cada vez mais o brilho alcançado em momentos memoráveis de sua trajetória.


O apoio da Prefeitura Municipal


José Geraldo Morais, secretário de Cultura e Turismo e músico da Lira 14 de Julho

O secretário municipal de Cultura e Turismo, José Geraldo Morais, também músico da Lira Operária Bonjesuense, informou ao O Norte Fluminense que, assim como ocorreu no ano anterior, toda a infraestrutura do Festival foi custeada pela Prefeitura Municipal de Bom Jesus do Itabapoana.

A participação do poder público é fundamental para a preservação de um evento que ultrapassa o entretenimento. O Festival promove a cultura, estimula o turismo, movimenta a economia local e fortalece o sentimento de pertencimento da comunidade.


Uma vida inteira dedicada à Lira


Luis Tito Nunes de Almeida 

Outro depoimento emocionante foi o de Luís Tito Nunes de Almeida, que completará 77 anos e carrega quase sete décadas de história dentro da Lira 14 de Julho.

Luís Tito ingressou na corporação musical aos oito anos de idade, tocando triângulo. Depois, aprendeu trompete e saxofone, até encontrar seu lugar definitivo no prato:

“Com o falecimento de meu avô, Durval Tito, meu pai, Tuca, Euzechias Tito de Almeida, interrompeu provisoriamente as atividades da Lira. Quando ela retornou, ensinei toda a parte de percussão às novas gerações. Acertei no prato e estou no prato até hoje.”

Sua história pessoal confunde-se com a própria história da Lira. Em cada toque encontra-se não apenas o ritmo de uma música, mas a memória de uma família, de uma comunidade e de várias gerações dedicadas à preservação da cultura rosalense.

Luís Tito não toca apenas um instrumento. Ele faz soar o tempo.


As crianças e a esperança de um novo mundo











A professora Sandra Regina Rodrigues Dowsley apresentou ao público a turma de musicalização da Lira 14 de Julho. Foi a primeira apresentação artística do dia do Festival e poderia, por seu profundo significado, ter sido a única.

Ver dezenas de crianças iniciando sua formação musical basta para revelar que um mundo novo está sendo silenciosamente gestado entre as montanhas de Rosal.

Assim como o Cruzeiro, no alto, ilumina a escuridão da noite, a formação musical e cultural dessas crianças representa a luz mais preciosa da 14ª edição do Festival de Chorinho e Sanfona. Cada pequeno músico que aprende a reconhecer uma nota, acompanhar um ritmo ou tocar um instrumento transforma-se em guardião do futuro.


A apresentação da Lira 14 de Julho 


Martha Salim, maestrina e ícone da cultura bonjesuense



Martha Salim, maestrina e ícone da cultura bonjesuense, realizou a abertura oficial do evento e emocionou o público ao ler um belo texto de Fabiana Moraes, integrante da Lira 14 de Julho, no qual a centenária corporação musical foi retratada como a segunda casa de seus músicos, um lugar de afeto, convivência e pertencimento, onde cada nota também conta uma história de amor por Rosal.

“A Lira é nossa segunda casa. O chorinho chora de saudade.

A sanfona é o coração batendo.

Que cada acorde seja abraço

e cada nota seja memória.”

Após a apresentação das crianças da musicalização infantil, a centenária Lira 14 de Julho surgiu em todo o seu esplendor, executando uma sequência de canções que permanecerá gravada no coração do público.

Os solistas se revezaram e, a cada interpretação, faziam crescer os aplausos da plateia. Outro aspecto profundamente emocionante foi a diversidade etária de seus integrantes: crianças, jovens, adultos e idosos unidos pela mesma linguagem universal da música.

A apresentação da Lira 14 de Julho na abertura do evento constituiu, em essência, um dos grandes ápices do Festival.

O valor de um encontro dessa natureza não deve ser medido apenas pela quantidade de atrações nacionais ou pela projeção dos artistas convidados. Sua grandeza maior está na esperança de construção de uma nova sociedade e no trabalho permanente desenvolvido com crianças, jovens, adultos e idosos.

A Lira 14 de Julho continua apresentando ao mundo as novas gerações que estão sendo formadas, o que faz com que o Festival de Chorinho e Sanfona permaneça como um sinal luminoso de esperança e fé no amanhã.


























Martha Salim relata a força da tempestade e a resistência da música no Festival


Martha Salim relatou os momentos de tensão e emoção vividos durante o Festival de Chorinho e Sanfona de Rosal. Segundo ela, a apresentação do grupo Chorinho Nova Geração, de São João da Barra, foi um dos grandes destaques do evento. A tenda ficou lotada, e o público aplaudiu com entusiasmo a qualidade dos músicos.

A sanfoneira Lívia Mattos foi a atração seguinte  da programação. Contudo, durante sua apresentação, Rosal foi atingida por uma tempestade de grandes proporções, talvez uma das mais fortes já registradas no distrito. Vieram a chuva intensa, os ventos e os raios. A energia elétrica acabou e os equipamentos instalados no palco ficaram molhados.

Por medida de segurança, os bombeiros recomendaram que a apresentação não prosseguisse no palco, devido ao risco de choque elétrico. O gerador também se desligou automaticamente por causa da incidência dos raios.

Foi então que Lívia Mattos tomou uma decisão que transformou a adversidade em um dos momentos mais marcantes do Festival: dirigiu-se ao centro da tenda e, sem palco, microfone ou energia elétrica, realizou um emocionante show acústico, cercada pelo público.

Depois que a tempestade deu uma trégua, houve um tocante cortejo pela praça. Mais tarde, quando a chuva voltou, Nilze Carvalho também se aproximou do público e comandou uma entisiasmada roda de samba no interior da tenda, igualmente em formato acústico.

Os shows não puderam ser realizados no palco porque os equipamentos estavam molhados. Entretanto, se a tempestade apagou as luzes e silenciou os aparelhos, não conseguiu interromper a música. Naquela noite, em Rosal, artistas e público demonstraram que a verdadeira força do Festival não dependia da eletricidade, mas da união, do talento e da paixão pela cultura.


Nova Geração do Chorinho 



Livia Mattos (arquivo)

Nilze Carvalho (arquivo)


A consagração do Maestro Mauro e a música de que o mundo precisa




Sob a regência inspirada do Maestro Mauro, a Dixieland Jazz Band ofereceu ao público exatamente essa rara experiência: um som vivo, alegre e luminoso, capaz de suspender por alguns instantes as inquietações da vida. No meio de metais, acordes e ritmos contagiantes, parecia anunciar que ainda há beleza suficiente para renovar a esperança dos homens. É essa a música de que o mundo precisa.

Para formar esse admirável conjunto, o Maestro Mauro reuniu músicos consagrados do Espírito Santo e abriu espaço para que o talento ultrapassasse fronteiras. Ao grupo capixaba juntaram-se dois instrumentistas do Noroeste Fluminense, um de Bom Jesus do Itabapoana e outro de Porciúncula, construindo uma ponte sonora entre dois estados irmanados pela arte. Nesse encontro, já não havia divisas geográficas: havia somente a mesma paixão, o mesmo ritmo e a fraternidade universal da música.

O resultado foi um espetáculo de verdadeira maestria. Cada instrumento parecia conversar com o outro, ora sorrindo, ora celebrando, ora convidando o público a acompanhar aquela festa musical. A Dixieland Jazz Band encantou os presentes porque não apresentou apenas canções: ofereceu alegria, comunhão e encantamento. E, conduzida pelo talento e pela sensibilidade do Maestro Mauro, compreendemos que haverá sempre esperança de que o mundo também aprenda a viver em harmonia, quando os músicos são capazes de tocar juntos. 

Mas não foi apenas à frente da Dixieland Jazz Band que o Maestro Mauro brilhou: após a apresentação no centro da tenda, ele subiu ao palco cercado por talentosos músicos e voltou a encantar o público, conduzindo não somente instrumentos, mas um encontro de gerações, sensibilidades e histórias. No meio de acordes, sopros e ritmos, sua presença revelou a grandeza de quem transforma técnica em emoção e faz da música uma ponte entre artistas e plateia, reafirmando Rosal como território de arte, memória e encantamento.

Maestro Mauro é o nome artístico do músico capixaba Mauro Sérgio Nascimento Filho, radicado profissionalmente em Guarapari (ES). Multi-instrumentista, atua principalmente como saxofonista, mas também toca trompete e flauta. Desenvolve trabalhos como maestro, arranjador, produtor musical e empresário de diferentes formações, por meio da Maestro Mauro Produções. 

Entre seus projetos está a Dixieland Jazz Band do Maestro Mauro, conjunto dedicado ao jazz tradicional de rua. Inspirada no estilo surgido em Nova Orleans, a banda combina instrumentos de sopro e percussão em apresentações alegres, itinerantes e marcadas pela proximidade com o público. Seu repertório também incorpora músicas brasileiras: há registro, por exemplo, de uma interpretação jazzística da “Valsa de Guarapari”, de Pedro Caetano. 

Além da Dixieland, o músico mantém outros projetos e apresentações sob as denominações Banda do Maestro Mauro, Maestro Mauro e Convidados e Super Banda do Maestro Mauro. Sua atuação está especialmente ligada ao circuito cultural capixaba, incluindo apresentações no Festival de Inverno de Guarapari.







Maestro Mauro Sérgio e músicos 



Nem mesmo a chuva conseguiu afastar o público, que permaneceu sob a tenda, aquecido pela música e pelo encantamento do festival


Valdeir do Acordeon (arquivo)

Bebê Kramer (arquivo)

Carlos Malta (arquivo)

Na sequência, apresentaram-se o maestro Mauro Sérgio e Valdeir do Acordeon e o Grupo de Sanfoneiros transformaram Rosal num grande terreiro de afetos, onde cada fole aberto parecia respirar as saudades, as histórias e as raízes de nossa gente.

 O gaúcho Bebê Kramer, compositor e considerado um dos maiores acordeonistas do Brasil e do mundo na atualidade, fez da sanfona uma voz capaz de cantar sem palavras, unindo delicadeza, virtuosismo e emoção.

O consagrado carioca Carlos Malta, músico, compositor e arranjador, indicado ao Grammy Latino e com participação em mais de vinte discos, encerrou o Festival com a força arrebatadora de seus sopros, levando ao céu de Rosal a última nota de dois dias inesquecíveis.

Cada artista levou ao palco sua própria história, mas todos falaram a mesma linguagem: a da música capaz de reunir pessoas, atravessar fronteiras e transformar, ainda que por algumas horas, um pequeno distrito numa grande capital cultural.

Apesar da chuva e do frio intenso que marcaram o último dia do Festival de Chorinho e Sanfona de Rosal, não faltaram boa música, artistas de grande talento e alegria entre os participantes.


Em manifestação, o músico Anselmo Jr. Borges Nunes exaltou a qualidade das atrações de domingo e lamentou a divulgação tardia do Festival


"A primeira atração no início da tarde, o conjunto Dixieland, animou a todos, com o seu passeio pelas ruas e com um repertório diversificado e divertido.

Após ele, o grupo de Choro conduzido pelo maestro Mauro, abriu o palco e impressionou os participantes pela qualidade dos músicos. 

Em seguida, a Sanfonada de Valdeir do Acordeon aqueceu os participantes, pois fez todos dançarem. 

Na sequência, o trio conduzido pelo artista gaúcho Bebê Kramer, que “brinca” com seu acordeon, prenunciava o desfecho da última atração do evento, o renomado Carlos Malta, que mais uma vez impressionou com seu carisma e expertise musical. 

No entanto, um dos dados negativos do evento, que foi uma reclamação geral, refere-se ao atraso - mais uma vez - da divulgação do festival, que aconteceu há menos de uma semana do evento. Tal fato, novamente, prejudicou o evento e  os participantes - desde moradores, visitantes e músicos -, que clamam por mudanças nesse sentido".


O sonho de Mulinha e Funil


Geraldo Roseira Soares, o Mulinha (arquivo)

Alguns sonhos nascem pequenos apenas porque ainda não encontraram espaço suficiente para revelar sua grandeza. Começam numa conversa entre amigos, atravessam as primeiras dificuldades e, alimentados pela perseverança, transformam-se em patrimônio de toda uma comunidade.

Assim nasceu o Festival de Chorinho e Sanfona de Rosal, hoje reconhecido como um dos mais importantes eventos do gênero no Brasil.

Antes dos grandes palcos, das atrações nacionais e da multidão reunida pelas melodias que embalam a alma brasileira, existiram dois rosalenses, uma amizade e uma ideia: Geraldo Roseira Soares, o querido Mulinha, e o saudoso Marcos Eugênio, conhecido como Funil.

Foram eles os primeiros sonhadores. Dois homens profundamente ligados à sua terra, capazes de enxergar, nas ruas e montanhas de Rosal, o cenário ideal para uma celebração da música popular brasileira. Onde muitos talvez vissem apenas um pequeno e acolhedor distrito, Mulinha e Funil contemplaram um imenso palco, preparado para receber o chorinho, a sanfona e a alegria de um povo inteiro.

Em entrevista concedida anteriormente ao jornal O Norte Fluminense, Mulinha recordou que os dois tiveram a ideia de promover um festival de chorinho e procuraram a Prefeitura Municipal em busca de parceria. O apoio foi conquistado, e as três primeiras edições foram realizadas com enorme entusiasmo, embora não tenham faltado obstáculos.

Todo sonho verdadeiro conhece dificuldades. Algumas pessoas, porém, possuem a rara coragem de continuar quando a realidade tenta desmentir a esperança. Mulinha e Funil permaneceram firmes. Sabiam que não estavam preparando apenas um evento: lançavam as sementes de uma tradição.

Na quarta edição, o SESI reconheceu a força daquela iniciativa e assumiu a condução do Festival, sob a orientação de Olga Acosta, então responsável pela gestão da área cultural. Olga, contudo, já acompanhava o evento desde a primeira edição, inicialmente como espectadora.

Por esse motivo,  compreendeu profundamente a alma daquele projeto: antes de administrá-lo, ela o admirou; antes de aperfeiçoá-lo, aprendeu a amá-lo.

Sob sua orientação, o Festival cresceu sem abandonar suas raízes. Os músicos locais foram valorizados, a histórica Lira 14 de Julho recebeu o merecido destaque, a Sanfonada ganhou força e a identidade regional permaneceu no centro da celebração. Cultura, história, turismo e desenvolvimento econômico passaram a caminhar juntos pelas ruas de Rosal.

Posteriormente, com a participação do SESC, o sonho dos dois amigos alcançou dimensão nacional. Grandes nomes da música brasileira chegaram ao distrito, enquanto Rosal se transformava, durante os dias do Festival, numa verdadeira capital da sensibilidade, do chorinho e da sanfona.

A maior conquista, contudo, não pode ser medida pelo tamanho dos palcos, pelo número de artistas ou pela quantidade de espectadores. O mais importante foi fazer com que a própria comunidade se sentisse dona do Festival.

O Festival não pertence ao SESI, ao SESC ou à Prefeitura. O Festival pertence a Rosal!

Eis a razão de sua vitalidade.

Um evento pode ser organizado por instituições, mas somente permanece vivo quando passa a morar no coração do povo. Rosal adotou o Festival como parte de sua identidade. Cada acorde parece subir pelas montanhas; cada nota da sanfona conversa com a memória dos antigos; cada melodia do chorinho percorre as ruas como se procurasse as janelas de todas as casas.

No meio de chorinhos e sanfonas, o pequeno distrito de Rosal voltou a se tornar grande: imenso como a música, luminoso como a memória e eterno como tudo aquilo que nasce do coração de um povo.


Uma homenagem aos primeiros sonhadores


Quando as luzes se acendem e a primeira música ecoa, é preciso recordar o princípio de tudo.

É preciso lembrar Funil, cuja presença física já não se encontra entre nós, mas cuja memória permanece em cada nova edição. Os idealistas não desaparecem quando suas obras continuam vivas. Funil está na praça, no palco, no som da sanfona, na emoção do chorinho e no sorriso de cada rosalense que recebe os visitantes com orgulho.

É preciso também exaltar Geraldo Mulinha, o mentor que acreditou, insistiu e ajudou a transformar uma ideia aparentemente impossível em uma das maiores manifestações culturais da região. Mulinha pertence à preciosa linhagem dos homens que não guardam seus sonhos para si: oferecem-nos à comunidade, para que se tornem herança coletiva.

O 14º Festival de Chorinho e Sanfona não representou apenas mais uma edição. Foi a confirmação de que o sonho de dois amigos venceu as dificuldades, atravessou os anos e conquistou o Brasil.

Merece especial reconhecimento o secretário municipal de Cultura e Turismo, José Geraldo Morais, cuja atuação foi fundamental na articulação com o Sesc e na organização desse grandioso acontecimento. Os agradecimentos estendem-se à Prefeitura Municipal, ao Sicomércio de Itaperuna e a todos aqueles que, ao longo dos anos, contribuíram para a continuidade e o crescimento do projeto.

Igualmente merecem reconhecimento os artistas, os organizadores, os músicos da centenária Lira 14 de Julho e, sobretudo, o povo de Rosal, verdadeiro guardião dessa celebração

Acima de tudo, porém, o jornal O Norte Fluminense rende sua homenagem a Geraldo Mulinha e ao inesquecível Marcos “Funil”.

Antes de Rosal receber artistas de dimensão nacional, dois filhos da terra abriram, com coragem e amor, o palco onde o Brasil viria cantar.

E, todas as vezes que um chorinho derramar poesia sobre as montanhas e a  sanfona respirar, o sonho de Mulinha e Funil continuará vivo, pertencendo para sempre a Rosal e à história cultural de nosso país.






















O tradicional Bar do Sapinho 














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