Por Gino Martins Borges Bastos
Ao lado da Tenda do Festival de Chorinho e Sanfona, havia uma casa de Rosal com a porta e a janela abertas. De seu interior, os moradores ouviam o som mavioso que nascia dos instrumentos e se espalhava pela praça. As notas entravam sem pedir licença, atravessavam a sala e, certamente, encontravam repouso no coração de quem ali vivia.
Enquanto contemplava aquela cena, imaginei que todas as casas do mundo deveriam ser como aquela: com portas e janelas permanentemente abertas para a sensibilidade, a convivência e a esperança. Lares onde a música pudesse entrar, mas também o diálogo, a amizade e tudo aquilo que torna mais humanas as relações entre as pessoas.
Talvez, para muitos, aquela casa fosse apenas um detalhe quase invisível diante da grandeza do Festival. Contudo, numa época em que tantos levantam muros, fecham janelas e recebem a alegria coletiva como perturbação do sossego, seus moradores faziam o contrário: acolhiam a música e celebravam a confraternização. Não reclamavam do som; deixavam-se habitar por ele.
A arquitetura de Rosal parece guardar essa vocação para o encontro. Suas casas próximas das ruas e suas janelas voltadas para a praça aproximam os moradores da vida comunitária. Ali, o espaço privado não rejeita o mundo exterior: conversa com ele, acolhe-o e participa de suas alegrias.
Nessa noite, a casa de porta e janela abertas tornou-se, para mim, um símbolo. Enquanto os instrumentos cantavam sob a tenda, ela parecia ensinar silenciosamente que a humanidade ainda pode reencontrar o caminho da comunhão. Porque, em Rosal, os detalhes costumam ser também essência, e uma simples janela aberta pode revelar todo um modo de compreender e amar o mundo.

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