domingo, 18 de janeiro de 2026

Uma viagem pelas montanhas do café que revela fé, história e santidade em Manhumirim




Uma viagem pelas montanhas do café que revela fé, história e santidade na região de Manhuaçu
Em um desses domingos tranquilos de passeio em família, resolvemos seguir rumo a Minas Gerais, 
mais precisamente à região das montanhas do Caparaó, conhecida pelo clima ameno e pelas extensas lavouras de café. O destino era especial: uma cafeteria em meio a um verdadeiro mar verde, o Castelo 
do Café, localizado em Manhuaçu.

O local impressiona logo à chegada. A arquitetura, inspirada nos castelos alemães, encanta turistas 
de todas as idades. Um castelo medieval erguido em plena lavoura cafeeira, onde se pode apreciar 
desde cafés quentes até versões geladas e mixes variados, capazes de transformar qualquer visitante 
em freguês fiel. É um espaço ideal para passar o dia com leveza, despertando lembranças das 
cavalhadas, dos suseranos e vassalos e do imaginário medieval.

Essa atmosfera convida à reflexão. Como escreveu Henri Delassus, em Espírito de Família, livro que 
me foi presenteado pelo senhor Fábio Cardoso: “O suserano devia prestar socorro e proteção aos seus 
vassalos, como o pai a seus filhos, fazer justiça, manter a ordem e a segurança do feudo, garantir a 
subsistência dos necessitados; e, em troca, os vassalos deviam fidelidade e assistência ao suserano, 
tanto na paz como na guerra.” Bem diferente dos dias de hoje, quando as classes sociais se rivalizam.
Muitas reflexões surgem naturalmente diante desse cenário. No entanto, a maior surpresa ainda estava 
por vir. Soube-se que por aquelas bandas viveu um sacerdote que norteou cristãmente o 
desenvolvimento de toda a região. Seu nome: Servo de Deus Padre Júlio Maria Lombaerde. Nascido em Waereghen, na Bélgica, em 8 de janeiro de 1878, Padre Júlio Maria veio ao Brasil movido por um ardor missionário exemplar. Atuou em missões na Amazônia, onde seu nome hoje batiza uma 
importante via da capital do Amapá, a Avenida Padre Júlio Maria Lombaerde, que liga o Centro à 
Zona Oeste de Macapá. Em 1928, chegou a Manhumirim, onde exerceu o ministério paroquial e 
deixou marcas profundas.

Segundo sua biografia, “a obra que aqui desenvolveu, com a proteção de Deus e apesar das 
perseguições constantes movidas pela Maçonaria local, é uma prova palpável da divindade de sua 
missão”. Polemista, teólogo, pregador admirável e escritor de renome, Padre Júlio Maria colocou sua 
inteligência a serviço da Igreja. Por meio do jornal O Lutador, tornou-se conhecido como o “terror 
dos hereges”. Sua atuação foi decisiva para o crescimento espiritual e social de Manhumirim, e seus filhos espirituais, os padres Sacramentinos, seguem até hoje sua obra.

Seguimos então para a visita ao santuário: uma bela igreja, seminário, escola, hospital, a antiga 
fazenda que ajudava na manutenção das obras e a capela construída no local demarcado por ele, hoje 
no distrito que leva seu nome: Padre Júlio Maria. No mirante, ao lado da pequena capela, encontramos 
um morador da região. Como bom mineiro, reservado e educado, apresentou-se apenas como 
produtor de café. Mesmo sem dizer o nome, conduziu-nos até a antiga fazenda dos padres e 
compartilhou diversas histórias sobre o sacerdote, inclusive sobre o acidente que causou sua morte.
Segundo ele, no dia 24 de dezembro de 1944, Padre Júlio Maria, acompanhado por duas freiras e um 
seminarista, celebrou a Santa Missa às cinco horas da manhã. Como chovia intensamente, 
permaneceu no local para o almoço e aproveitou para marcar o terreno onde seria construída a capela 
da comunidade de Vargem Grande. Após o almoço, apesar da chuva persistente, tinha outros 
compromissos e decidiu seguir viagem. Logo após uma subida, o jipe conduzido pelo seminarista 
derrapou na lama, bateu contra uma árvore e capotou, vitimando Padre Júlio Maria Lombaerde.
Nosso guia improvisado concluiu com simplicidade e convicção: “Ele está em processo de 
beatificação. É um santo pelas obras que fez. É um santo que viveu aqui onde a gente vive hoje.”
Vale a pena conhecer as numerosas obras literárias deixadas por Padre Júlio Maria Lombaerde, 
aprofundar-se em sua história missionária no Brasil e, sobretudo, visitar seu santuário em 
Manhumirim. Ali, entre montanhas e lavouras de café, respira-se a memória viva de um santo de 
oração e ação.

Servo de Deus Padre Júlio Maria Lombaerde: um santo pertinho de nós, um santo da região do café.

Isabel Menezes (professora, escritora e historiadora de Varre-Sai/RJ)








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