quinta-feira, 19 de março de 2026

Mulheres, Manhãs e Pincéis

 

A escritora bonjesuense Jandira Xavier Moreira desponta no cenário nacional com seu livro “Uma Professora no Amazonas: o Rio Voador”, conquistando leitores com a força e sensibilidade de suas crônicas, como a que segue.


Jandira Xavier Moreira

A empresária voltava da universidade no final da manhã,caminho rural já conhecido por suas viagens de sábado: fazendas, matas, animais da terra, árvores, bibelôs da penteadeira da vovó, fascinação. Na metade do caminho ela viu uma mulher um pouco mais jovem pedindo carona em frente a um posto de gasolina. Manobrou o carro e abriu a porta para que a outra entrasse.

“Boa tarde”. “Oi, entra.” “Prefiro ir no banco de trás se a senhora não se importa”, o que surpreendeu a motorista. 

Essa brincou dizendo que não era tão má motorista assim. 

A resposta chegou simples: não, senhora, não posso sentar com você. Como? “Sou mulher da vida”. Houve um instante de confusão. “O que a incomoda?”. Ora! A “senhora” aqui também é mulher da vida sou mulher da vida. Sobe aí, vai. A moça insistiu: senhora não está entendendo. Não importa. Sente aqui comigo, é bom ter companhia na estrada. Um passeio de vinte minutos, onde a sororidade -empatia e solidariedade- substituem costumes e conceitos.

Conversaram sobre a variedade de verde nas montanhas, o cheiro do campo, as vantagens de quem vive ali. Trivialidades. Vinte minutos com uma mulher da vida - ou, talvez, consigo mesma. A singularidade das duas se encontrou como se fossem amigas há muitos anos. O ontem e o amanhã não pertence a esse encontro. Quem sorriu também foi a estrada -doce figura da ilusão - Ela é indiferente. Sua totalidade basta-se. Apenas vontade de enfeitar fotograficamente a mulher, a natureza e o nós. A paisagem apenas está ali. Perfeita, completa, com seus cheiros e cores, o calor do asfalto e os buracos na estrada.

O vento quente da manhã atravessava a relva, o cheiro da mata acompanhava o caminho e as luzes do sol da manhã brincavam de esconde-esconde. Uma pintura de Renoir, luz e cor, pincéis ágeis para capturar a essência e simplicidade que nela é contida. Instantes, claridades, paz; fugazes e fugidias, exibindo-se.

Por alguns minutos, simples alegria de estar quase em casa depois de semana cansativa. Quem sorriu também foram a estrada e seus pincéis precisos.

Foram duas mulheres que se perderam de si mesmas para se encontrarem no trajeto. Sem passado, sem promessas de reencontro, apenas o compartilhamento do cansaço e do alívio de quem volta para casa, em um final de semana. Duas mulheres da vida. A estrada, com seus buracos e sua poeira, testemunhas discretas. Ali, sob o sol de Renoir, elas não eram rótulos. Era, apenas, vida passando, iluminada e breve, como deve ser qualquer manhã que vale a pena."

Branca.Jandira

Bom Jesus do Itabapoana, 2026


A resenha da crônica

A crônica “Duas mulheres na estrada” parte de um episódio simples - uma carona oferecida numa estrada de sábado - para revelar uma percepção delicada sobre os encontros humanos. O diálogo entre a empresária e a mulher que se apresenta como “mulher da vida” cria um momento de estranhamento inicial que rapidamente se dissolve em naturalidade. A força do texto está justamente nessa suspensão breve dos papéis sociais: durante alguns minutos, duas desconhecidas compartilham a paisagem, a conversa trivial e a leveza de um trajeto comum.

O estilo da autora revela forte sensibilidade para os elementos do ambiente. A paisagem não aparece apenas como cenário, mas como presença viva: o verde das montanhas, o cheiro da relva, o vento quente da manhã e a própria estrada adquirem valor simbólico. Essa atenção aos sentidos produz o que se poderia chamar de memória de paisagem, na qual o espaço natural participa da experiência humana e guarda o instante vivido. A referência final a uma “manhã de Renoir” reforça essa atmosfera luminosa, aproximando o episódio cotidiano de uma cena pictórica.

Mais do que um relato de viagem, a crônica sugere uma reflexão discreta sobre a condição humana: quando duas pessoas se encontram fora dos rótulos sociais, resta apenas a simplicidade do convívio momentâneo. A autora evita grandes discursos e privilegia a observação do instante, permitindo que a cena fale por si. Assim, o texto alcança um efeito característico da boa crônica: transformar um encontro breve e aparentemente banal em uma pequena revelação sobre a leveza possível da vida.





Um comentário:

  1. um simples momento de compartilhamento talvez por educação, ou talvez, para quebrar a monotonia de uma estrada solitária, mas partícipe de um momento único de um encontro quase que abstrato porém real na vida de ambas as mulheres, as quais, com títulos diferentes, mas com naturalidades, o que nos lembra de que somos capazes de viver e conviver em diferentes ambientes com seres humanos em situações adversas que a vida nos proporciona! Parabéns a este feliz momento de visão, em que as pessoas parecem fazer questão de ignorar! somos todos seres humanos independente da profissão!

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