A 1ª edição do Sarau da Emoção, realizada hoje na praça Governador Portela, nasceu como uma dessas raras manhãs culturais que parecem devolver poesia ao cotidiano. Sob a sensibilidade organizadora de Anizia Maria Pimentel, o evento transformou o coração de Bom Jesus do Itabapoana em território de encontro, arte e afeto coletivo.
Havia encanto por toda parte. Crianças, jovens e adultos dividiam o mesmo espaço sob a delicada convivência da música, da literatura e das manifestações populares. O sarau não se limitou a entreter: ofereceu ao município um sopro novo, uma experiência cultural viva, capaz de reunir gerações em torno da sensibilidade humana.
Outro símbolo marcante da noite foi a reafirmação da histórica união cultural entre Bom Jesus do Itabapoana e Itaperuna. Se os mapas um dia traçaram limites administrativos, jamais conseguiram separar verdadeiramente os vínculos afetivos, culturais e humanos entre seus povos.
E a arte brilhou em muitas vozes. Valber Meireles emocionou no canto; Gogó Pacheco arrancou risos e admiração com suas reclamações tão impressionantes quanto genuínas; e a trovadora premiada internacionalmente, Lucia Spadarotto, bonjesuense radicada em Itaperuna, mais uma vez alcançou o mais alto patamar da arte da palavra.
Na ocasião, Lúcia lançou seu livro As Aventuras de Guga e Bê dedicado aos netos, obra tecida com memória, ternura e permanência. Um livro que não apenas registra histórias familiares, mas preserva afetos contra o esquecimento do tempo. Há publicações que informam; outras abraçam. A sua pertence à segunda categoria.
Em 1º de janeiro de 1939, Bom Jesus do Itabapoana emancipou-se territorialmente de Itaperuna. Contudo, apesar das linhas oficiais desenhadas pela história, os povos permaneceram irmãos, unidos pela memória, pela convivência e por essa geografia invisível que somente a cultura é capaz de preservar.
A jovem bonjesuense Maria Clara Visotto, integrante da ABIJAL, voltou a brilhar com a delicadeza e a força de seu precioso livro Vozes de Maria. Em sua juventude já floresce a sensibilidade rara daqueles que aprendem a transformar emoção em palavra e memória em literatura.
Maria Clara representa a nova geração de escritores bonjesuenses, geração que nasce com os olhos voltados para o futuro, mas sem perder o vínculo afetivo com as raízes de sua terra. Em sua escrita, percebe-se não apenas talento, mas também a continuidade de uma tradição cultural que resiste ao tempo e se renova através da juventude.
Como uma chama serena que passa de mãos em mãos, a literatura bonjesuense encontra nela um de seus mais belos sinais de permanência e esperança.
E talvez resida aí o maior significado do Sarau da Emoção: recordar que cultura não é ornamento, mas pertencimento. Não é luxo, mas herança viva.









































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